






Morte no Nilo
Agatha Christie







CAPTULO 1

LINNET RIDGEWAY!

 -  ela! - exclamou Mr. Burnaby, proprietrio
de Three Crowns, dando uma cotovelada no companheiro.
 De boca aberta e olhos arregalados, os dois homens fitaram o
belssimo Rolls Royce vermelho, que
parara em frente do Correio.
 Desceu uma jovem, sem chapu e com um vestido
que parecia (parecia somente) muito simples. Cabelos
doirados e feies um tanto autoritrias, tipo deveras
atraente, como raramente se via em Malton-under-Wode.
 Em passos rpidos e decididos, a jovem entrou no
edifcio do Correio.
 -  ela! - repetiu Mr. Burnaby. E em tom mais
baixo e reverente: - Possui milhes... Vai gastar um
dinheiro na propriedade que comprou. Piscinas, jardins
italianos, salo de baile... reforma completa da
casa!
 -  mais dinheiro que entra na cidade.
 O comentrio, em tom de inveja e rancor, foi feito
pelo outro, um sujeito magro e espigado.
 - Sim. ptimo para Malton-under-Wode. ptimo! - concordou
Mr. Burnaby, exprimindo-se em tom complacente. 
E depois duma pequena pausa: - Isto vai
interessar-nos um pouco.
 - Mas  muito diferente de Sir George - lembrou o outro.
 - Ah, a culpa foi dos cavalos! Sir George nunca
teve muita sorte - disse Mr. Burnaby com indulgncia.
 - Quanto recebeu ele pela propriedade?
 - Nada menos de sessenta mil, pelo que me contaram.
 Ante o assobio de surpresa do companheiro,
Mr. Burnaby continuou com ar triunfante:
 - E dizem que ela pretende gastar outro tanto,
antes de dar o servio por terminado!
 - Isso  pecado! - exclamou o homem. - Onde
arranjou tanto dinheiro?
 - Na Amrica, pelo que ouvi dizer. A me era filha nica de
um desses multimilionrios. Como no cinema, hem?
 A jovem saiu nesse momento. O homem magro
acompanhou com o olhar o carro que se afastava, e
resmungou:
 - No acho que esteja certo! Dinheiro e beleza...
 de mais! Uma rapariga com uma fortuna dessas no
tem o direito de ser bonita. E  bonita de facto!...
Tem tudo. No acho justo...

Trecho da notcia social do Daily Bdague:

 "Entre as pessoas que ceavam em Chez Ma Tante,
notei a linda Linnet Ridgeway. Estavam em sua companhia a Hon.
Joana Southwood, Lorde Windlesham e Mr. Toby Bryce. Como ningum ignora, Miss Ridgeway  filha de 
Melhuish Ridgeway, que se casou com Ana Hartz. Herdou do av, Leopoldo Hartz, imensa fortuna. A bela 
Linnet  a sensao do momento. Corre o
boato de que o seu noivado ser anunciado brevemente. No h
dvida que Lorde Windlesham parece muito apaixonado!"

 - Querida, vai ficar uma maravilha! - exclamou
a Hon. Joana Southwood.
 Estava no quarto de Linnet Ridgeway, sentada em
frente da janela. O seu olhar passou sobre os jardins,
indo at ao descampado, com a sua franja azulada, formada
pelos bosques.
 - Uma perfeio, no  verdade?
 Ao dizer isto, Linnet apoiou-se ao parapeito da
janela. A expresso do seu rosto era animada, viva,
dinmica. A seu lado, Joana Southwood parecia, at
certo ponto, uma criatura apagada: vinte e sete anos,
alta, magra, rosto inteligente e sobrancelhas depiladas
com originalidade.
 - E conseguiu tanto em to pouco tempo! Contratou muitos
arquitectos?
 - Trs.
 - Como so eles? No creio que jamais tenha conhecido algum.
 - Simpticos. Mas s vezes pouco prticos, pelo
que tive ocasio de observar.
 - Minha querida, com certeza deu logo remdio a
isso!  a pessoa mais prtica que conheo.
 Houve uma pequena pausa.
Joana apanhou o colar de prolas que estava sobre
o toucador e disse:
 - Com certeza que so verdadeiras, no  verdade, Linnet?
 - Naturalmente!
 - Sei que para si  "naturalmente", minha querida,
mas nem toda a gente poderia dizer a mesma coisa. Em
geral so cultivadas, ou mesmo uma boa imitao, de
Woolworth! Minha querida, so extraordinrias. To
bem combinadas! Este colar deve valer uma fortuna.
 - Um pouco vulgar, na sua opinio?
 - No, de maneira nenhuma. Uma beleza. Quanto vale?
 - Mais ou menos cinquenta mil libras.
 - Que dinheiro! No tem medo de ser roubada?
 - No; uso-o constantemente e, alm disso, est
no seguro.
 - Deixe-me us-lo at  hora do jantar, sim? Que
emoo para mim!
 - Claro, se isso lhe causa assim tanto prazer - concordou
Linnet, rindo;
 - Sabe uma coisa? s vezes, invejo-a. Voc tem
tudo na vida. Vinte anos; dona do seu nariz; fortuna
enorme; beleza; ptima sade. At mesmo inteligncia!
Quando faz vinte e um anos?
 - Em Junho. Darei uma grande festa em Londres, para celebrar
a minha maioridade.
 - E pretende depois casar-se com Charles Windlesham? Esses
insuportveis cronistas mundanos andam excitadssimos. E
Charles parece deveras apaixonado.
 Linnet respondeu, encolhendo os ombros:
 - No sei. Para dizer a verdade, ainda no pensei
em casar-me.
 - E faz muito bem. As coisas mudam, depois do
casamento, no  verdade?
 O telefone tocou e Linnet foi atender.
 - Sim?
 Respondeu-lhe a voz do mordomo:
 - Miss de Bellefort deseja falar-lhe. Posso fazer a
ligao?
 - Bellefort? Sim, naturalmente.
 A ligao estabeleceu-se e em seguida ouviu-se
uma voz ardente, suave e um tanto ofegante:
 - Ol, Miss Ridgeway! Linnet!
 - Jackie querida! H quantos sculos no tenho
notcias suas!
 - Tem razo;  mesmo uma vergonha. Mas, Linnet, preciso
muito de falar consigo.
 - No pode c vir? Gostaria de lhe mostrar a propriedade...
o meu novo brinquedo.
 - Pois  justamente o que desejo fazer.
 - Ento tome um nibus; ou um automvel, se
achar prefervel.
 - Est bem. Vou no meu calhambeque. Comprei-o por quinze
libras; s vezes, arranca que  uma maravilha! Mas 
caprichoso. Se eu no estiver  hora do
ch,  porque ele embirrou com alguma coisa. At j.
 Linnet desligou o telefone e aproximou-se novamente de
Joana.
 -  a minha mais velha amiga, Jacqueline de Bellefort.
Estivemos juntas num convento em Paris. Teve
o mais incrvel azar deste mundo. Seu pai era um conde
francs; a me, americana-sulista. O pai fugiu com
outra mulher, e a me perdeu toda a fortuna no pnico
de Wall Street. Jackie ficou sem nada. No sei como
se tem arranjado nestes ltimos dois anos.
 Joana polia as unhas esmaltadas de um rubro vivo.
Inclinou a cabea para ver o efeito, e perguntou, em
tom langoroso:
 - Minha querida, no acha que vai ser uma maada? Quando
acontece uma infelicidade aos meus amigos, abandono-os
imediatamente! Parece falta de corao, mas evita-se assim
tanto aborrecimento futuro!
Esto sempre a querer dinheiro emprestado, ou ento
abrem alguma loja, e a gente tem que ir ali comprar os
mais pavorosos vestidos deste mundo! Ou ainda dedicam-se a
pintar abat jours e a fazer charpes...
 - Quer dizer que, se eu perdesse a fortuna, abandonava-me no
dia seguinte?
 - Sim, minha querida, no o nego. Concorde que
ao menos sou franca! S gosto das pessoas que esto
por cima. E voc ver que o mesmo se d com quase
toda a gente, mas muitos no tm a coragem de confessar a
verdade. Dizem apenas: "Francamente, no
tolero Fulana, Sicrana, ou Beltrana. Os dissabores fizeram
dela uma pessoa to amarga, to esquisita, coitadinha!"
 - Como  maldosa, Joana!
 - Apenas me defendo, como toda a gente.
 - Eu no!
 - Claro que no! Uma pessoa com os seus rendimentos no
precisa de ser srdida.
 - E engana-se a respeito de Jacqueline - protestou Linnet. -
Ela no  uma parasita. Tenho querido
ajud-la, mas sempre recusou os meus oferecimentos.
Tem um orgulho enorme.
 - Porqu tanta pressa em vir aqui? Garanto que
quer alguma coisa.
 - Realmente, pareceu-me um tanto agitada - confessou Linnet.
 - Jackie sempre foi muito emotiva.
Uma vez, chegou a espetar um canivete...
 - Querida, que interessante!
 - Num garoto que estava a maltratar um co. Jackie tentou
fazer com que ele parasse com a brincadeira. No o
conseguindo, segurou o garoto e deu-lhe uns
aoites. Mas o rapaz era mais forte, e ento de repente
ela puxou de um canivete e zs! No imagina que algazarra,
depois disso!
 - No duvido.  incrvel!
 A criada de Linnet entrou neste momento. Pediu
licena, foi ao guarda-roupa, tirou dali um vestido e
retirou-se.
 - Que aconteceu a Marie? - perguntou Joana. - Parece que
esteve a chorar.
 - Coitada! Lembra-se que lhe contei que ia casar-se com um
rapaz que trabalhava no Egipto? Como
no o conhecesse muito bem, achei melhor tirar algumas
informaes. Pois vim a saber que tem mulher e
trs filhos!
 - Quantos inimigos voc deve ter!
 - Inimigos? - perguntou Linnet, admirada.
 Joana inclinou a cabea e acendeu um cigarro.
 - Inimigos, minha querida. Voc  assustadoramente
eficiente. Sabe, melhor do que ningum, o que
deve ser feito.
 Linnet exclamou, soltando uma gargalhada.
 - Imagine, dizer isso quando eu, afinal, no tenho um nico
inimigo neste mundo!



4

 Lorde Windlesham estava sentado sob o cedro do
jardim, admirando os graciosos contornos de Wode
Hall. Nada que desfigurasse a beleza antiga - os novos alados
e pavilhes ficavam para trs, no estragavam a fachada.
Quadro de tranquilidade e beleza, iluminado pelo sol de
Outono. E, no entanto, no era Wode Hall que Charles Windlesham via naquele momento, mas uma
manso do tempo de Elisabeth, mais
imponente, com uma larga alameda no parque, e um
fundo mais sombrio... A sua prpria manso, Charltonbury; e,
no primeiro plano, um vulto feminino - uma jovem de cabelos
doirados e rosto de expresso
ardente... Linnet, como senhora de Charltonbury!
 Tinha esperana. A recusa de Linnet no fora absolutamente
categrica. No passara mesmo de um pedido de espera. Pois
bem; ele saberia esperar...
 Extraordinariamente conveniente, essa unio. Um
casamento rico era, no seu caso, aconselhvel, mas no
uma necessidade premente, a ponto de obrig-lo a desdenhar os
prprios sentimentos. E amava Linnet.
T-la-ia desejado para esposa, mesmo que ela fosse
pauprrima e no uma das mais ricas raparigas da Inglaterra.
 Distraiu-se durante algum tempo com esses agradveis planos
para o futuro. Talvez a restaurao da ala
oeste, afastada a necessidade de abandonar a caa...
 Charles Windlesham continuou a sonhar, ao sol...



5

 Eram quatro horas quando o roadster parou, com
um rudo spero de rodas sobre as pedras da rua e dele desceu
uma rapariga. Pequena, delgada e de cabelos
negros. Subiu a correr os degraus e puxou o cordo da
campainha.
 Minutos depois faziam-na entrar na vasta sala de
visitas, e um imponente mordomo anunciava, com a
costumada e lgubre intonao:
 - Miss de Bellefort.
 - Linnet!
 - Jackie!
 Windlesham afastou-se ligeiramente, observando
com ar complacente a impetuosa criaturinha que de
braos abertos se atirara sobre Linnet.
 - Lorde Windlesham, Miss de Bellefort, a minha
melhor amiga - apresentou a dona da casa.
 Bonita, achou ele. No exactamente bonita, mas
indubitavelmente atraente, com aqueles olhos enormes
e os cabelos negros e ondulados. Lorde Windlesham
disse uma ou duas palavras amveis e depois, sem dar
nas vistas, deixou a ss as duas amigas.
 Jacqueline gritou, naquele seu modo caracterstico,
to conhecido de Linnet.
 - Windlesham? Windlesham? Mas  o rapaz com
quem voc vai casar-se, pelo que dizem os jornais! Casa,
Linnet?
 - Talvez - murmurou Linnet.
 - Querida, estou to contente! Ele  simptico.
 - Oh, no conte como certo. Ainda no me decidi.
 - Claro que no! As rainhas deliberam longamente, antes de
escolherem o prncipe consorte.
 - No seja ridcula, Jackie.
 - Mas voc  uma rainha, Linnet! Sempre o foi.
Sa Majest, la reine Linnette! Linnette, la blonde!
E eu... Bom; eu sou a confidente da rainha, a primeira dama de
honor.
 - Est a dizer tolices, querida. Onde esteve durante tanto
tempo? Desapareceu sem uma explicao!
E nunca se lembrou de me escrever.
 - Bem sabe que detesto escrever. Onde estive?
Oh, cem por cento submersa, querida. Em EMPREGOS, sabe disso?
Empregos sombrios, com mulheres sombrias!
 - Querida, gostaria que...
 - Aceitasse a liberalidade da rainha? Pois bem,
para ser franca, foi para isso que vim. No; no para
pedir dinheiro emprestado. Ainda no cheguei a esse
ponto! Mas vim pedir-lhe um grande favor.
 - Diga l.
 - Se  verdade que vai casar-se com esse Windlesham, talvez
me compreenda melhor.
 - Jackie, no me diga que...
 - Sim, Linnet, estou noiva!
 - Ento  isso! Achei-a excessivamente exuberante.  esse o
seu estado habitual, mas hoje pareceu-me
mais ainda.
 -  como me sinto.
 - Fale-me sobre o felizardo.
 - Chama-se Simon Doyle.  alto, forte, muito
simples e infantil; adorvel, enfim! Pobre... muito pobre.  o
que se chama um "gentil-homem" e disso
no h dvida, mas sem dinheiro. A famlia  de Devonshire.
Simon adora o campo e tudo quanto lhe diz
respeito. E pensar que passou estes ltimos cinco anos
num abafado escritrio da cidade! Mas agora esto a
despedir muitos empregados, e ele viu-se de repente
sem colocao. Linnet, eu morro se no me casar com
ele! Morro, sim...
 - No seja ridcula, Jackie.
 - Mas  verdade. Sou louca por ele. Ele  louco
por mim. No podemos viver um sem o outro.
 - Querida"voc est verdadeiramente apaixonada!
 - Eu sei.  horrvel, no  verdade? O amor domina-nos e
nada podemos fazer contra isso.
 Houve uma pausa. Os olhos dilatados tiveram uma
expresso trgica. Jackie estremeceu ligeiramente e
continuou:
 - s vezes, tenho medo. Simon e eu fomos feitos
um para o outro. Nunca poderei amar outro homem.
Preciso que nos ajude, Linnet. Quando me contaram
que tinha comprado esta propriedade, tive uma ideia.
Oia: voc vai precisar de um administrador, talvez
mesmo de dois. Quero que d o lugar a Simon.
 - Oh! - exclamou Linnet, assustada.
 Jacqueline continuou vivamente:
 - Ele conhece bem o assunto. Foi criado no campo, de modo
que sabe dirigir uma propriedade. Alm
do mais, tem prtica bastante de servio de escritrio.
Oh, Linnet, voc dar-lhe- o emprego, no  verdade,
por minha causa? Se ele no der conta do recado despea-o. Mas
tenho a certeza de que dar. E poderemos
viver numa casinha, e voc e eu ver-nos-emos muitas
vezes. Ser maravilhoso...
 Jackie levantou-se e insistiu:
 - Diga que sim, Linnet. Por favor, diga que sim.
Minha querida amiga Linnet, diga que sim!
 - Jackie...
 - Combinado?
 Linnet desatou a rir.
 - Ridcula Jackie! Pois bem, traga o seu namorado,
deixe-me conversar com ele e discutiremos o assunto.
 Jackie avanou para a amiga, beijando-a com exuberncia.
 - Querida Linnet, voc  amiga a valer! Eu sabia-o. Sabia
que podia contar consigo, agora e sempre.
 a mais adorvel criatura deste mundo. Adeus.
 - Mas, Jackie, voc vai ficar aqui.
 - Eu? Oh, no. Vou para Londres e amanh estarei de volta,
com Simon, para decidirmos tudo. Voc
vai ador-lo; ele  um amor.
 - Mas no pode esperar ao menos para tomar
uma chvena de ch?
 - No, no posso, Linnet. Estou muito excitada,
aflita para ir contar tudo a Simon. Sei que pareo louca,
querida, mas quanto a isso nada posso fazer. O casamento com
certeza me curar. Ouvi dizer que ficamos mais ponderadas,
depois.
 Ao chegar  porta, Jackie pareceu hesitar, depois
voltou para dar mais um rpido abrao.
 - Querida Linnet, no h ningum no mundo como voc!



6

 M. Gaston Blondin, proprietrio do elegante restaurante 
Chez Ma Tante, no era homem que desse a
muitos dos fregueses a honra da sua companhia. At
as mais belas mulheres, os ricos, os nobres e os afamados, s
vezes esperavam em vo por um sinal que os
distinguisse. Raramente, e com ar de condescendncia, M.
Blondin saudava um dos fregueses, acompanhando-o a uma mesa
privilegiada e trocando com ele um ou outro discreto comentrio.
 Mas naquela noite, trs vezes M. Blondin exerceu
a real prerrogativa. Uma vez, por uma duquesa; outra,
por um par do Reino, grande apreciador do turf; e a
terceira vez por um homenzinho um tanto cmico, de
enormes bigodes negros, e que, a julgar pelas aparncias, 
no era pessoa cuja presena pudesse honrar o
elegante Chez Ma Tante.
 M. Blondin, no entanto, tratou-o com desusada
considerao.
 Embora ningum tivesse conseguido mesa durante
a ltima meia hora, de repente e misteriosamente apareceu uma,
num dos pontos mais cobiados. M. Blondin em pessoa acompanhou
o recm-chegado, dando mostras de grande empressement.
 - Mas, naturalmente, para o senhor sempre haver
mesa, Monsieur Poirot! Desejaria que nos desse essa
honra mais frequentemente.
 Hercule Poirot sorriu, lembrando-se de certo incidente em
que tinham estado envolvidos um cadver,
um criado, M. Blondin e uma belssima e misteriosa
dama.
 -  muita gentileza sua, Monsieur Blondin.
 - Veio s, Monsieur Poirot?
 - Sim, estou s.
 - Oh, bem! Jules vai preparar-lhe uma refeio
que ser um verdadeiro poema; sim, um poema!
A companhia das senhoras, por mais encantadoras que
elas sejam, tem essa desvantagem: afasta da comida a
nossa ateno. Garanto-lhe que vai apreciar o seu jantar,
Monsieur Poirot. Agora, quanto ao vinho...
 Seguiu-se uma conferncia entre tcnicos, assistida
por Jules, o maitre d'htel.
 M. Blondin demorou-se alguns segundos, perguntando em tom
confidencial:
 - Est a tratar de algum caso grave?
 - No, infelizmente - disse Poirot abanando
tristemente a cabea. - Juntei algumas economias e
posso agora gozar uma vida de ociosidade.
 - Invejo-o, Monsieur Poirot.
 - No, no, seria tolice seguir o meu exemplo.
Garanto-lhe que no  agradvel como parece... - disse Poirot,
com um suspiro. -  bem verdade o
que dizem: que o homem foi obrigado a inventar
o trabalho para fugir ao esforo de ter que pensar.
 M. Blondin ergueu as mos, num gesto expressivo.
 - Mas h tanto que fazer! Viagens...
 - Sim, viagens. E no so poucas as que tenho
feito. Pretendo visitar o Egipto, este Inverno. Dizem
que o clima  magnfico! J  alguma coisa a gente ver-se
livre do nevoeiro, dos dias cinzentos, da monotonia
da chuva que cai sem cessar.
 - Ah, o Egipto! - suspirou M. Blondin.
 - Pode-se mesmo, creio eu, chegar at l de comboio,
escapando da viagem por mar, com excepo, 
lgico, do canal da Mancha.
 - Ah, o mar... No passa bem a bordo?
 Hercule Poirot abanou a cabea, estremecendo ligeiramente.
 - Nem eu to-pouco - confessou M. Blondin. - Curioso, o
efeito que tem sobre o estmago.
 - Mas sobre alguns estmagos, somente! O balano no tem
efeito nenhum sobre certas pessoas. Parecem at gostar!
 - Injustia de Deus.
 M. Blondin sacudiu a cabea e afastou-se, concentrando-se
ainda nesse mpio pensamento.
 Durante esta pequena conversa os criados, de mos
hbeis e movimentos suaves, serviam Poirot. Torradinhas melba,
manteiga, balde de gelo, enfim, todos os
complementos de uma refeio de primeira.
 A orquestra negra rompeu numa orgia de sons altos e
discordantes. Londres danava.
 Hercule Poirot ps-se a observar a sala; a sua mente
metdica ia registando tudo o que via.
 Que expresso de cansao e tdio na maioria dos
rostos! Alguns daqueles homens pesades pareciam,
no entanto, divertir-se... Mas na fisionomia dos seus
pares notava-se uma expresso de paciente resignao.
A gorda mulher de vermelho estava radiante. Indubitavelmente,
os obesos tinham alguma compensao na
vida... um prazer, um deleite negado aos de silhueta
mais moderna.
 Muita gente nova... Alguns com expresso vaga,
alguns entendidos; outros, sem dvida alguma, infelizes.  um
absurdo dizer que a juventude  a poca da
felicidade - juventude, tempo da maior vulnerabilidade!
 O olhar de Poirot suavizou-se ao pousar sobre certo par.
Muito bem combinado: rapaz alto, de ombros
largos; rapariga esbelta e delicada. Dois corpos que se
moviam num perfeito ritmo de felicidade - felicidade
encontrada no ambiente, na hora, na companhia um
do outro.
 De sbito, a dana parou. Palmas. Depois o bis, e
o par voltou  sua mesa, perto da de Poirot.
 A rapariga vinha corada, sorridente. Quando a viu
sentada, Poirot estudou-lhe o rosto, ligeiramente erguido para
o do companheiro. Havia naqueles olhos
alguma coisa mais do que simples expresso de riso.
 Hercule Poirot abanou a cabea.
 "Ela ama de mais, esta pequena", pensou ele.
 "No vale a pena. No, no.  muito perigoso."
 Uma palavra lhe chamou a ateno neste momento: Egipto.
 Aos seus ouvidos chegaram duas vozes. A da rapariga:
ardente, clara, arrogante e com ligeiro sotaque
estrangeiro nos rr; a do rapaz: agradvel, grave, bem
educada.
 - No estou a ser optimista, Simon. Garanto-lhe
que Linnet no nos faltar.
 - Talvez falte eu.
 - Tolice.  justamente o emprego que lhe convm.
 - Bom, para ser franco, creio que tem razo... No
fundo, no tenho dvidas quanto  minha capacidade.
E hei-de vencer... por sua causa!
 A rapariga riu baixinho. Riso de verdadeira felicidade...
 - Esperaremos trs meses, at termos a certeza de
que voc no ser despedido. E ento.
 - Ento eu aceit-la-ei como minha legtima esposa; no 
assim que se diz?
 - E iremos passar a nossa lua-de-mel ao Egipto.
Pouco importa que fique caro! Conhecer o Egipto foi
sempre o sonho da minha vida. O Nilo, as pirmides,
a areia...
 O rapaz disse, em voz rouca e abafada:
 - Veremos tudo isso juntos, Jackie... Juntos. Que
maravilha, no acha?
 - No sei... Ser to maravilhoso para voc como
para mim? O seu amor ser to profundo como o
meu?
 A voz da jovem tornara-se subitamente spera, os
olhos dela pareciam maiores, com expresso quase receosa.
 A resposta foi dada com igual aspereza:
 - No seja absurda, Jackie.
 A rapariga repetiu:
 - No sei... - e depois, encolhendo os ombros:
 - Vamos danar.
 Hercule Poirot murmurou de si para si:
 "Un qui aime et un qui se laisse aimer." Tambm eu
digo: "No sei..."



7

 Joana Southwood disse:
 - E, com certeza, ele no  l grande coisa?
 - Oh, no creio - respondeu Linnet. - Confio
no gosto de Jacqueline.
 - Ah, mas em matria de amor h muito contra-senso!
 Linnet abanou a cabea com impacincia e procurou mudar de
assunto.
 - Preciso de ir ver Mister Pierce, a respeito daqueles
projectos.
 - Projectos?
 - Sim, algumas cabanas em pssimas condies
sanitrias. Pretendo demoli-las, assim que os moradores
tiverem sado.
 - Voc d provas de um esprito higinico e humanitrio.
 - De qualquer maneira, as cabanas teriam que
desaparecer, para dar lugar  minha nova piscina.
 - Os moradores esto satisfeitos com a ideia?
 - Quase todos ficaram encantados. Mas dois ou
trs no concordaram... procuravam opor dificuldades. No
parecem compreender que as suas condies
de vida vo melhorar extraordinariamente.
 - Mas voc, com certeza, no cedeu?
 - Minha querida Joana, creia que a vantagem 
toda deles!
 - Sim, no duvido. Benefcio compulsrio. - Joana soltou uma
risada ao ver Linnet contrair as sobrancelhas e acrescentou:
 - Vamos, confesse, voc  uma tirana. Tirana
benfeitora, se achar prefervel.
 - No sou tirana, de forma alguma.
 - Mas gosta que seja feita a sua vontade.
 - Nem sempre.
 - Linnet Ridgeway, pode olhar-me bem de frente
e dizer que j houve uma ocasio em que no tivesse
feito exactamente o que desejou fazer?
 - Inmeras.
 - Oh, sim, "inmeras". Apenas isto; nada de positivo. E
no pode citar-me um s exemplo, por maior
esforo que faa! O retumbante triunfo! Linnet Ridgeway na sua
carruagem doirada!
 - Acha que sou egosta? - perguntou Linnet,
bruscamente.
 - No; irresistvel, apenas. Efeito da combinao
"dinheiro-encanto". Todos se curvam diante da sua
pessoa; aquilo que no pode comprar com dinheiro,
adquire-o voc com um sorriso. Resultado: Linnet
Ridgeway, a Jovem que Possui Tudo.
 - No seja ridcula, Joana!
 - E ento, no possui tudo?
 - Creio que sim... Mas dito desse modo parece
repulsivo.
 - Claro que  repulsivo! Daqui a alguns anos,
com certeza, voc vai sentir profundo tdio. Entretanto, goze
o seu retumbante triunfo na sua carruagem
doirada! Mas s vezes fico a conjecturar o que no
acontecer quando voc quiser passar por uma rua onde houver a
tabuleta "Trnsito Impedido".
 - No seja idiota, Joana. - Linnet voltou-se para
Lord Windlesham, que acabava de se juntar a elas, e
explicou: - Joana est a dizer-me as coisas mais desagradveis
deste mundo.
 - S despeito, querida, s despeito - replicou
Joana em tom vago, erguendo-se para sair dali.
 No se desculpou por deix-los. Percebera o brilho
do olhar de Windlesham...
 O rapaz nada disse durante alguns minutos. Depois foi
direito ao assunto:
 - Resolveu alguma coisa, Linnet?
 A jovem respondeu lentamente:
 - Acha que estou a ser cruel? Talvez que, no
tendo a certeza, eu devesse dizer: "No"...
 O rapaz interrompeu-a.
 - No diga isso! Dar-lhe-ei tempo para reflectir.
Mas creio que poderamos ser felizes um com o outro.
 Linnet respondeu em tom de criana que se desculpa:
 - Sabe, estou a divertir-me tanto... principalmente com tudo
isto aqui... Em Wode Hall, quero concretizar o meu ideal; acho
que est a ficar bonito, no  verdade?
 - Lindo. Bem planeado. Tudo perfeito. Voc 
muito inteligente, Linnet - disse o rapaz. E depois
de uma pausa: - Gosta de Charltonbury, no gosta?
Naturalmente, precisa de ser modernizada, mas voc
tem tanto jeito para isso! Seria at uma distraco.
 - Mas... Naturalmente, Charltonbury  uma maravilha.
 Linnet falara com espontaneidade e entusiasmo,
mas no pde deixar de sentir um frio no corao. Pareceu-lhe
ter ouvido uma nota discordante, que viera
perturbar a completa satisfao que antes sentira.
 Naquele momento, no analisou a sensao; mas
depois, quando Windlesham entrou em casa, procurou
sondar os seus mais recnditos pensamentos.
 Charltonbury. Sim, fora isso. Desagradara-lhe a referncia a
Charltonbury. Mas porqu? A manso era
relativamente famosa. Pertencia  famlia de Windlesham desde
os tempos de Elisabeth. A posio de senhora de Charltonbury
era realmente invejvel. Windlesham era, incontestavelmente, um dos melhores partidos da Inglaterra.
 Claro que ele no podia levar Wode a srio...
A propriedade de Linnet no podia ser comparada
com a outra. Mas Wode era dela! Linnet vira-a, comprara-a,
reformara-a, ali gastando rios de dinheiro. Era
a sua propriedade, o seu reino. Perderia o valor, a
importncia, se Linnet se casasse com Windlesham. Que
utilidade podiam ter duas casas de campo? E, das
duas, naturalmente Wode Hall  que teria de ser sacrificada.
 Ela, Linnet Ridgeway, deixaria de existir. Seria
condessa de Windlesham, levando um belo dote a
Charltonbury e ao seu dono. J no seria rainha, mas
esposa do rei.
 "Estou a ser ridcula", pensou consigo mesma.
 Era curioso, no entanto, como lhe desagradava a
ideia de abandonar Wode... E outra coisa tambm
a preocupava.
 A voz de Jackie, com aquela estranha intonao:
Se no me casar com ele, eu morro! Morro...
 To decidida, to atraente. Ela, Linnet, sentiria o
mesmo a respeito de Windlesham? Claro que no. Talvez no
fosse mesmo capaz de sentimento to intenso.
Devia ser... maravilhoso... sentir assim.
 O rudo de um carro ouviu-se, atravs da janela
aberta.
 Linnet fez um gesto impaciente. Jackie e o namorado, com
certeza. Tinha de ir ao encontro deles.
 Estava de p,  porta da entrada, quando Jacqueline e Simon
Doyle desceram do carro.
 Jackie correu para a amiga e apresentou:
 - Linnet, este  Simon. Simon, aqui est Linnet.
 a pessoa mais maravilhosa deste mundo.
 Linnet viu um rapaz alto, de ombros largos e olhos
de um azul profundo, cabelos castanhos ondulados,
queixo quadrado e sorriso franco, talvez mesmo um
tanto infantil...
 Foi a primeira a saud-lo. A mo que apertou a
sua era firme, quente... Linnet gostou da maneira como ele a
olhou - com expresso de ingnua e franca
admirao.
 Jackie dissera-lhe que a amiga era maravilhosa e
no havia dvida que ele concordava com ela.
 Linnet sentiu que o sangue lhe corria mais rpido
nas veias; parecia tomada de leve embriaguez...
 - Isto aqui no  realmente lindo? - perguntou.
 - Entre, Simon, e deixe-me receber dignamente o
meu novo administrador.
 Ao voltar-se, para conduzi-los, ia pensando:
 "Sou imensamente... imensamente feliz. Gosto do
namorado de Jackie. Gosto imensamente..."
 E depois, com sbita angstia:
 "Felizarda, esta Jackie..."



8

 Tim Allerton reclinou-se na cadeira de vime e bocejou,
fitando o mar. Depois, olhou de soslaio para
a me.
 Mrs. Allerton era uma senhora de cabelos brancos,
de cinquenta anos, ainda bonita. Procurava disfarar a
imensa afeio que sentia pelo filho, dando aos lbios
uma expresso de severidade todas as vezes que olhava
para ele. Mas ningum se iludia com isso, e Tim menos que
qualquer outro.
 - Gosta de Maiorca, mam?
 - Bem...  barato - ponderou ela.
 - E frio... - completou Tim, estremecendo ligeiramente.
 Era um rapaz alto, magro, de peito franzino e cabelos
negros. A boca tinha uma expresso suave, o
olhar era tristonho e o queixo pouco firme. Mos longas e
delicadas.
 Ameaado, anos antes, de tuberculose, nunca fora
realmente muito forte. Constava que "escrevia", mas
os amigos dele sabiam tacitamente que as perguntas
curiosas sobre as suas produes literrias no eram
recebidas com entusiasmo.
 - Em que ests a pensar, Tim?
 Mrs. Allerton estava alerta. Os olhos de um castanho-escuro
brilharam com expresso suspeita.
 O rapaz respondeu, sorrindo:
 - Estava a pensar no Egipto.
 - No Egipto?
 - Sim. H l calor a valer. Convidativas areias
doiradas. O Nilo. Eu gostaria de subir o Nilo; e a
me?
 - Oh, gostaria! - respondeu ela, secamente. - Mas  uma
viagem cara. No  para aqueles que tm
de contar os trocos.
 Tim soltou uma gargalhada, ergueu-se e estendeu
os braos, parecendo de repente animado, cheio de vida. 
Quando respondeu, foi em tom excitado, ardente:
 - As despesas ficam por minha conta. Sim, querida mam, no
se espante. Uma pequena oscilao no mercado, com resultados absolutamente satisfatrios, como vim a 
saber hoje de manh.
 - Hoje de manh? - perguntou Mrs. Allerton
em tom brusco. - Tu recebeste apenas uma carta e...
- interrompeu-se, mordendo os lbios.
 No rosto de Tim surgiu uma expresso ao mesmo
tempo divertida e aborrecida. Mas o bom humor saiu
vitorioso.
 - Era uma carta de Joana! - concluiu ele serenamente. -
Acertou, mam. Que ptimo detective minha me daria! At 
mesmo o clebre Hercule Poirot teria que temer pela sua glria, caso se lembrasse de competir com ele.
 Mrs. Allerton zangou-se.
 - S porque reconheci a letra...
 - E viu que no era do corretor? Tem razo. Para
ser exacto, foi ontem que recebi dele a comunicao.
A letra da pobre Joana realmente chama a ateno...
gatafunhos sobre todo o sobrescrito, como se por ele
tivesse passeado alguma aranha embriagada.
 - Que diz Joana? Alguma novidade? - perguntou Mrs. Allerton,
procurando dar  voz uma intonao natural e despreocupada.
 A camaradagem entre Tim e sua prima em segundo grau, Joana
Southwood, tinha o dom de a irritar.
"No que haja alguma coisa entre eles" - costumava
dizer. Tinha a certeza de no existirem motivos para
receios. Tim nunca manifestara pela prima um interesse
sentimental, e o mesmo se podia dizer de Joana, em
relao a ele. A atraco mtua parecia ter por base o
mesmo gosto pelos potins e um grande nmero de amigos comuns.
Ambos eram sociveis e gostavam de comentar a vida alheia;
Joana era espirituosa, se bem
que s vezes um tanto custica.
 No era, portanto, o medo de ver o filho apaixonado por
Joana que fazia com que Mrs. Allerton se retrasse quando a
rapariga estava presente ou quando
chegavam cartas dela. Era outro sentimento, difcil de
ser definido - talvez que, sem dar por isso, tivesse
cimes do prazer que Tim parecia sentir na companhia da prima.
Ele e a me eram to bons companheiros, que Mrs. Allerton
ficava ligeiramente alarmada
quando o via interessado por outra mulher. Imaginava
tambm que a sua companhia, em tais ocasies, poderia
constranger as duas pessoas mais jovens. Frequentemente, ia
encontr-los profundamente absortos num
assunto, tendo a impresso de que,  sua chegada, a
conversa vacilava, e que Tim e Joana procuravam
propositadamente fazer que ela ficasse inteirada do assunto,
como mandava a boa educao. No; no havia
dvida de que Mrs. Allerton no apreciava Joana
Southwood. Achava-a pouco sincera, afectada e muito
superficial, e tinha de fazer um esforo para no manifestar
francamente a sua opinio.
 Em resposta  pergunta da me, Tim tirou a carta
do bolso e ps-se a rel-la. Uma carta longa, conforme
observou Mrs. Allerton.
 - Pouca coisa - disse Tim. - Os Devenishes esto a
divorciar-se. O velho Monty foi preso por estar
embriagado quando dirigia o carro. Windlesham foi
para o Canad. Parece que ficou muito abalado, quando Linnet
Ridgeway o recusou. Ela vai casar com
aquele seu administrador.
 - Que coisa esquisita! E ele  algum sujeito impossvel?
 - No, em absoluto.  um dos Doyle de Devonshire. Sem
dinheiro, naturalmente... e estava noivo de
uma das melhores amigas de Linnet. Deixa estar que 
forte!
 - No acho isso bonito - declarou Mrs. Allerton, corando.
 Tim lanou-lhe um olhar rpido e afectuoso.
 - Eu sei que a me no aprova o roubo do marido
das outras e todas essas histrias.
 - No meu tempo, tnhamos, felizmente, as nossas
normas! Hoje em dia, os novos pensam que podem
andar por a a fazer o que bem entendem.
 - No "pensam" somente. Fazem-no - declarou
Tim, sorrindo.
 - Pois acho isso horrvel!
 Os olhos de Tim tiveram um brilho malicioso.
 - Alegre-se, veterana! Talvez eu concorde consigo. Em todo o
caso, ainda no me apropriei da esposa
ou noiva de ningum.
 - Tenho a certeza de que nunca farias uma coisa
dessas - declarou Mrs. Allerton. E acrescentou com
certo orgulho:
 - Eduquei-te bem de mais para isso.
 - Ento a glria  sua, e no minha.
 Sorriu com ar brincalho, dobrou a carta e guardou-a de novo
no bolso. Mrs. Allerton pensou: "Ele
mostra-me todas as cartas que recebe, mas l-me somente
trechos das de Joana."
 Afastou esse pensamento indigno, decidindo-se,
como sempre, a agir como a senhora de boa educao.
 - Joana est a divertir-se muito?
 - Mais ou menos. Pensa em abrir uma pastelaria
em Mayfair.
 - Est sempre a falar em dificuldades financeiras!
- comentou Mrs. Allerton, com uma ponta de despeito. - Mas vai
a toda a parte, e sempre admiravelmente bem vestida. Deve gastar um dinheiro em roupas.
 - Oh, bom, talvez no as pague - disse Tim. - No, mam, no
me refiro quilo que a sua mentalidade burguesa lhe sugere.
Falo literalmente: que talvez no pague as suas contas.
 Mrs. Allerton suspirou.
 - Nunca pude compreender como h gente que
consiga fazer isso.
 -  um dom especial - declarou Tim. - Quando a pessoa tem
gostos extravagantes e nenhuma noo do valor do dinheiro, encontra sempre quem lhe d crdito ilimitado.
 - Sim, mas acaba na Rua da Misria, como o pobre Sir George
Wode.
 - A mam tem um fraco por aquele tratador de
cavalos; provavelmente porque ele lhe chamou "boto-de-rosa"
em algum baile de 1879.
 - Em 1879, eu ainda no tinha nascido! - protestou veemente
Mrs. Allerton. - Sir George  um homem muito fino, e no admito que lhes chames tratador de cavalos.
 - Ouvi histrias muito esquisitas a respeito dele,
contadas por pessoas bem informadas.
 - Tu e Joana no tm escrpulo nenhum de falar
da vida alheia; qualquer coisa serve, contanto que seja
maldosa.
 Tim replicou, erguendo as sobrancelhas:
 - Me querida, est irritada! No sabia que apreciava tanto
o velho Wode.
 - Tu no compreendes que sacrifcio deve ter sido para ele
vender Wode Hall. Adorava aquela propriedade.
 Tim tinha uma resposta na ponta da lngua, mas
conteve-se. Afinal de contas, quem era ele para julgar
os outros? Depois de uma pequena pausa, disse com
ar pensativo:
 - Sabe uma coisa? Creio que no se engana muito. Linnet
convidou-o para ir ver as reformas, e ele recusou
grosseiramente.
 - Claro. Ela devia ter tido o tacto de no fazer tal
convite.
 - E acho que o velho lhe guarda rancor. Resmunga consigo
mesmo todas as vezes que a v. No lhe
perdoa ela ter-lhe oferecido um preo exagerado pela
manso em runas.
 - E no achas isso natural? - perguntou Mrs. Allerton,
secamente.
 - Para ser franco, no! - replicou Tim. - Para
qu viver no passado? Para que continuarmos apegados s coisas
que deixaram de existir?
 - Com que pretendes substitu-las?
 Tim respondeu, encolhendo os ombros:
 - Excitao. Novidade. Prazer do imprevisto. Em
vez de herdar um intil pedao de terra, a satisfao
de ganhar dinheiro pelo nosso prprio esforo, com a
nossa inteligncia e habilidade.
 - Enfim, uma bem sucedida transaco na Bolsa!
 - Porque no? - perguntou Tim, rindo.
 - E que dizer de um prejuzo igual?
 - Minha me, no est demonstrando muito tacto
com essa sua observao. Alm do mais,  pouco apropriada,
justamente hoje!... Que me diz da viagem ao
Egipto?
 - Bom, acho que...
 Tim interrompeu-a, sorrindo.
 - Est combinado, ento. Tanto a me como eu
sempre tivemos vontade de conhecer o Egipto.
 - Que data sugeres?
 - Oh, o ms que vem. Janeiro  a melhor poca.
Gozaremos da agradvel companhia do pessoal deste
hotel por mais algumas semanas.
 - Tim! - exclamou Mrs. Allerton em tom de
censura. E depois, como quem se desculpa: - Prometi a Mistress
Leech que tu a acompanharias  polcia.
Ela no fala espanhol...
 - A respeito daquele anel? - perguntou Tim
com uma careta. - O rubi cor de sangue de sua filha?
Ainda insiste em dizer que foi roubado? Bom, irei para lhe
fazer a vontade, mam, mas na minha opinio 
perder tempo. S servir para meter em apuros alguma pobre
criada. Tenho a certeza de que lhe vi o anel
no dedo naquele dia, quando foi tomar banho no mar.
Com certeza caiu-lhe sem que desse por isso.
 - Mistress Leech garante que o deixou sobre o
toucador.
 - Pois no deixou. Vi-o com os meus prprios
olhos. Aquela mulher  uma tonta. Qualquer pessoa
que se enfia pelo mar dentro em Dezembro, s porque
o Sol est a brilhar nesse momento, pode ser qualificada de
idiota. Alm do mais, as mulheres obesas no
tm o direito de se exibir de maillot.  um espectculo
revoltante.
 - Creio que devo desistir de tomar banho - murmurou Mrs.
Allerton.
 Tim replicou, soltando uma gargalhada:
 - A me? Pode fazer inveja a muita garota de dezoito anos!
 Mrs. Allerton suspirou:
 - Gostaria que houvesse mais gente nova aqui,
para te fazer companhia, Tim.
 - Pois eu no - replicou o rapaz, abanando enfaticamente a
cabea. - Damo-nos muito bem, a me e
eu, e no sinto a falta de outras distraces.
 - Mas gostarias que Joana aqui estivesse.
 - Pelo contrrio - declarou ele com inesperada
firmeza. - Nisso engana-se. Joana diverte-me, mas
no gosto dela realmente; alm do mais, a sua contnua
presena irrita-me. Graas a Deus, no est aqui!
No me desagradaria mesmo saber que nunca mais veria Joana em
toda a minha vida.
 Fez uma pequena pausa e depois murmurou, em
tom quase imperceptvel:
 - H somente uma mulher no mundo por quem
sinto verdadeiro respeito e admirao. E, Mistress Allerton,
creio que sabe muito bem a quem me refiro.
 A me de Tim corou, parecendo um tanto constrangida.
 O rapaz concluiu, em tom grave:
 - No h no mundo muitas mulheres realmente
correctas. Mas acontece que a me  uma delas.



9

Em Nova Iorque, num apartamento que dava para
o Central Park, Mrs. Robson exclamou:
 - Mas que maravilha! s realmente uma criatura
feliz, Cornlia.
 Cornlia Robson corou de prazer. Era uma rapariga alta,
desajeitada; os olhos castanhos tinham a expresso submissa do
olhar de um co.
 - Oh, ser ptimo! - concordou a rapariga.
 A velha Miss Van Schuyler inclinou a cabea, satisfeita com
a correcta atitude das parentes pobres.
 - Sempre sonhei com uma viagem  Europa - suspirou Cornlia.
 - Mas nunca pensei que o sonho se realizasse.
 - Miss Bowers, naturalmente, ir comigo, como
de costume - avisou Miss Van Schuyler. - Mas socialmente acho
que a sua companhia deixa um tanto a
desejar... H muitas coisas em que Cornlia me poder ser
til.
 - Terei nisso muito prazer, prima Marie - replicou Cornlia
prontamente.
 - Bem, bem, ento est decidido. V agora procurar Miss
Bowers, minha querida.  a hora da minha
gemada.
 A me de Cornlia disse, quando a rapariga se retirou:
 - Minha cara Marie, fico-lhe realmente grata! Voc
bem sabe que, na minha opinio, Cornlia sente no
ter xito na sociedade. Isso deve,  lgico, mortific-la. Se
eu estivesse em condies de lhe proporcionar
viagens... Mas no ignora qual a nossa situao, depois da
morte de Ned.
 - Tenho muito prazer em lev-la comigo - declarou Miss Van
Schuyler. - Cornlia foi sempre muito
servial, e  menos egosta do que as raparigas de hoje.
 Mrs. Robson ergueu-se e beijou o rosto amarelo e
enrugado da prima rica.
 - Fico realmente grata - repetiu, saindo da sala.
 Encontrou, na escada, uma mulher de tipo decidido e
eficiente. Miss Bowers trazia um copo com um lquido amarelo e
espumante.
 - Ento, Miss Bowers, de abalada para a Europa?
 - Sim, Mistress Robson.
 - Que viagem agradvel!
 - Sim, creio que vai ser muito agradvel.
 - J esteve no estrangeiro?
 - Oh, sim, Mistress Robson. Estive em Paris, no
Outono passado, com Miss Van Schuyler. Mas ainda
no conheo o Egipto.
 Mrs. Robson pareceu hesitar.
 - Espero que... no haver... inconveniente - disse,
baixando a voz.
 Miss Bowers, no entanto, respondeu no tom habitual:
 - Oh, no, Mistress Robson. Isso fica por minha
conta. Estou sempre de olho aberto.
 Mas ainda havia uma expresso preocupada na fisionomia de
Mrs. Robson, quando desceu os ltimos degraus da escada...



10

 No seu escritrio, na parte baixa da cidade, Mr. Andrew
Pennington abria a correspondncia particular.
 De sbito, cerrou o punho, batendo com fora sobre a
escrivaninha. O rosto enrubescera e duas grossas
veias sobressaam-lhe na testa.
 Premiu um boto sobre a escrivaninha e imediatamente surgiu
uma elegante estengrafa.
 - Diga a Mister Rockford que venha aqui.
 - Sim, Mister Pennington.
 Minutos depois, apareceu Sterndale Rockford, scio de
Pennington. Os dois tinham mais ou menos o
mesmo tipo. Altos, cabelos grisalhos, fisionomias
inteligentes, bem barbeados.
 - Que aconteceu, Pennington?
 Pennington ergueu os olhos da carta que estava relendo e
disse:
 - Linnet casou-se.
 - Qu?
 - Voc ouviu o que eu disse! Linnet Ridgeway casou-se!
 - Como? Quando? Por que motivo o no soubemos a tempo?
 Pennington lanou um olhar ao calendrio da escrivaninha e
explicou:
 - Ainda no estava casada quando escreveu esta
carta, mas agora est. Dia 4, de manh. Hoje, portanto.
 Rockford sentou-se de chofre numa cadeira.
 - Ufa!... Sem participao, sem nada? Quem 
ele?
 Pennington consultou novamente a carta.
 - Doyle. Simon Doyle.
 - Que espcie de sujeito? J ouvi falar nele?
 - No. Ela no  muito explcita... - declarou
Pennington, estudando a letra de caracteres altos e ntidos.
 - Tenho a impresso de que h qualquer coisa de
esquisito nesta histria toda... Mas isso no vem ao caso. O
principal  que est casada.
 Os olhares de ambos encontraram-se. Rockford inclinou a
cabea, dizendo calmamente:
 - O assunto requer estudo.
 - que vamos fazer?
 -  o que lhe pergunto.
 Ficaram alguns minutos em silncio. Rockford
perguntou, afinal:
 - Tem algum plano?
 - O Normandie sai hoje - respondeu Pennington
lentamente. - Um de ns dois ainda poderia...
 - Est louco! Qual  a sua ideia?
 Pennington replicou:
 - Esses advogados ingleses... - mas no terminou a frase.
 - E ento? Est por acaso a pensar em enfrent-los? Est
louco!
 - No, sugiro que voc... ou eu... que um de ns
v  Europa.
 - Mas que ideia  a sua? - perguntou de novo.
 Pennington acariciou a carta e replicou:
 - Linnet vai passar a lua-de-mel no Egipto. Pretende ali
ficar um ms ou mais...
 - Egipto, hem?
 Rockford refletiu alguns instantes. Depois ergueu
a cabea e o seu olhar encontrou o do scio.
 - Egipto...  essa a sua ideia?
 - Sim. Um encontro fortuito. A passeio. Linnet e
o marido... Atmosfera de lua-de-mel. No  impossvel.
 Rockford no pareceu muito convencido.
 - Linnet  perspicaz. Se !... Mas...
 - Creio que h maneiras de... se conseguir - murmurou
suavemente Pennington.
 De novo, os olhares de ambos se encontraram.
Rockford inclinou a cabea.
 -Est certo, meu rapaz.
 Pennington consultou o relgio.
 - Teremos de nos apressar... seja qual for o que
tiver que partir.
 - V voc - exclamou vivamente Rockford. - Voc teve sempre
as maiores atenes de Linnet. Tio
 Andrew... Aproveite-se disso.
 A fisionomia do outro endureceu.
 - Espero dar conta do recado.
 - Isso  imperativo - declarou Rockford. A situao 
crtica...



11

 Ao rapazinho franzino que abrira a porta com ar
interrogador, disse William Carmichael:
 - Faa o favor de me mandar Mister Jim.
 Minutos depois, Jim Fanthorp apareceu, fitando o
tio com expresso indagadora.
 - Hummmm... C est voc - grunhiu o velho,
erguendo a cabea.
 - Mandou-me chamar?
 - Olhe para isto.
 O rapaz sentou-se e puxou para mais perto a pilha
de papis, enquanto o outro ficava a observ-lo.
 - Ento?
 A resposta foi imediata:
 - Parece-me muito suspeito.
 O scio mais velho da firma Grant & Carmichael
grunhiu novamente.
 Jim Fanthorp releu a carta area que acabara de
chegar do Egipto.
 "... parece o cmulo escrever de negcios num dia
como este. Passmos uma semana em Mena House e
fizemos uma excurso a Fayam. Depois de amanh,
vamos subir o Nilo, at Luxor e Assuo; talvez cheguemos at
Cartum. Ao entrarmos no escritrio da
agncia Cook, hoje de manh, para tratar das passagens,
imagine quem ali fomos encontrar?!... O meu
procurador americano, Andrew Pennington. Creio que
voc lhe foi apresentado h dois anos, quando ele veio
a Inglaterra. Nem por sombras podia eu pensar que
viria encontr-lo no Egipto, e nem ele sabia que eu estava
aqui. Nem to-pouco que eu me casara! A carta
que lhe escrevi, contando tudo, deve ter chegado justamente
quando ele partiu da Amrica. Tambm vai
subir o Nilo, seguindo o nosso itinerrio. No 
extraordinria a coincidncia?
 "Muito agradecida por tudo quanto fez por mim
em poca de tanta balbrdia... "
 Ao notar que o sobrinho se preparava para virar a
pgina,, Mr. Carmichael tirou-lhe a carta das mos.
 -  s isso. O resto no tem importncia. Muito
bem; que acha voc?
 O rapaz refletiu alguns segundos.
 - Bom... Na minha opinio, no foi coincidncia...
 O outro aprovou com a cabea e rosnou:
 - Gostaria de ir ao Egipto?
 - Acha aconselhvel?
 - Acho que no h tempo a perder.
 - Mas eu, porqu?
 - Reflicta um pouco, meu rapaz, reflita. Nem
Linnet nem Pennington o conhecem. Se for de avio,
talvez chegue a tempo.
 - Eu... Para ser franco, a ideia no me agrada
muito. Que devo fazer?
 - Use os seus olhos. Os ouvidos. A inteligncia...
se  que a tem. E, se necessrio, aja.
 - Eu... a ideia no me agrada.
 - Talvez no; mas tem de ser.
 - ... necessrio?
 - Imperativo, na minha opinio - declarou
Mr. Carmichael.



12

 Compondo o turbante de fazenda nacional, que
usava  volta da cabea, Mrs. Otterbourne disse em
tom lamuriento:
 - No sei por que motivo no vamos para o Egipto. Estou farta de Jerusalm.
 Ao notar que a filha no fazia comentrio algum
continuou:
 - Podias ao menos responder quando algum diz alguma coisa.
 Mas Rosalie Otterbourne estava atenta ao jornal
colocado na sua frente.
 Um retrato, e em baixo a notcia:

 "Mrs. Simon Doyle, que antes do casamento era
conhecida como a bela Miss Linnet Ridgeway. Mr.
Mrs. Doyle esto a passar a lua-de-mel no Egipto..

 - Gostaria de ir para o Egipto, mam? - perguntei. 
 - Gostaria - respondeu bruscamente Mrs. Otterbourne - Acho que nos tratam aqui com muita alegria. 
Reclamei para o hotel, e espero-me com direito a uma reduo nos preos. Quando falei a esse respeito, 
foram muito impertinentes, mesmo muito. Mas no fiz cerimnia em dizer a opinio que tinha sobre eles!
 A rapariga suspirou.
 - Um lugar  igual a outro lugar, mam. Gostaria de partirj.
 Mrs. Otterbourne continuou:
 - E hoje de manh o gerente teve o topete de me dizer que
todos os quartos esto reservados, e temos de desocupar os
nossos nestes dois prximos dias!
 - Ento vamos para outro lugar.
Imediatamente. Estou disposta a lutar pelos
direitos.
 - Na minha opinio, talvez seja prefervel irmos
para o Egipto - murmurou Rosalie. - Tanto faz
aqui como l.
 - No  realmente uma questo de vida ou de morte. - concordou a outra.
Mas nisto ela enganava-se. Era, de facto, uma
questo de vida ou de morte.
 - Aquele  Hercule Poirot, o clebre detective - indicou
Mrs. Allerton.
 Ela e o filho estavam sentados em cadeiras de vime
de um vermelho berrante, do lado de fora do Hotel
Catarata, em Assuo, e observavam os dois vultos que
se afastavam: um homenzinho baixo, que envergava
um fato de seda branca, e uma rapariga alta e esbelta.
 Tim Allerton endireitou-se na cadeira, com inesperada
vivacidade.
 - Aquele cmico homenzinho? - perguntou incrdulo.
 - Sim, aquele cmico homenzinho!
 - Santo nome de Deus, que est ele a fazer aqui?
 A me de Tim soltou uma gargalhada.
 - Meu caro, no te exaltes dessa forma. Porque
ser que os homens gostam tanto de crimes? Por mim,
detesto romances policiais, e no me dou ao trabalho
de os ler. Mas no creio que Poirot esteja aqui por algum
motivo especial. Tem ganho muito dinheiro e
com certeza viaja para conhecer o mundo.
 - Parece que soube escolher a rapariga mais bonita. - Mrs.
Allerton inclinou a cabea de lado, observando novamente os
dois vultos. A rapariga era uns dez
centmetros mais alta que o companheiro. Andava com
elegncia, sem se inclinar para a frente, e ao mesmo
tempo com rigidez.
 - Ela  bonita. com certeza?
 Ao fazer a pergunta, Mrs. Allerton lanou ao filho
um olhar de soslaio, divertindo-se ao ver o peixe morder a
isca.
 - Mais do que bonita!  pena estar sempre de
mau humor.
 - Talvez seja apenas expresso fisionmica, meu
filho.
 - Um diabrete desagradvel, com certeza. Mas
bonita, disso no h dvida.
 O alvo desses comentrios caminhava ao lado de
Poirot. Rosalie Otterbourne revirava na mo a sombrinha e a
expresso do seu rosto no desmentia as palavras de Tim.
Parecia realmente mal-humorada; estava
de sobrancelhas contradas e a linha rubra dos lbios
descaa-lhe nos cantos.
 Passaram pelo porto do hotel, voltaram  esquerda e
entraram no jardim pblico.
 Hercule Poirot conversava com volubilidade, tendo
no rosto uma expresso de beatitude. Estava de fato
de seda branca, muito bem passado, chapu panam,
e levava na mo um vistoso enxota-moscas com cabo
de imitao de mbar.
 -...estou encantado... - dizia ele. - Encantado! Os recifes
negros da Elefantina, o sol, os barquinhos no rio. Sim, vale a
pena viver.
 Fez uma pausa e acrescentou:
 - No  tambm a sua opinio, mademoiselle?
 Rosalie replicou secamente:
 - Oh, provavelmente. Mas acho Assuo um lugar
lgubre. O hotel est quase vazio e os hspedes tm
cem anos de idade...
 Interrompeu-se, mordendo os lbios.
 Os olhitos de Poirot tiveram um brilho malicioso.
 -  verdade, sim; estou com um p na cova.
 - Eu... no estava a pensar no senhor - disse a
 jovem. - Desculpe-me. Foi pouco delicado da minha
 parte.
 - No tem importncia.  natural que deseje companheiros da sua idade. Oh, bom; h pelo menos um.
 - Aquele que fica sentado ao lado da me o tempo todo? Gosto
dele... mas acho-o insuportvel... to pretencioso!
 Poirot sorriu.
 - E eu? Sou tambm pretencioso?
 - Oh, de maneira nenhuma.
 No havia dvida que ela no estava interessada,
mas isso no preocupou Poirot, que, com ar pacatamente
satisfeito, comentou:
 - O meu melhor amigo diz que sou muito convencido.
 - Oh, bom, com certeza o senhor tem motivos
para isso - disse Rosalie, num tom vago. - Infelizmente, o
crime no me interessa.
 Poirot disse com ar solene:
 - Alegra-me saber que no tem nenhum segredo
horrvel a ocultar.
 Pelo espao de um segundo, a mscara entediada
da rapariga transformou-se, e ela lanou um rpido
olhar ao companheiro. Poirot continuou, sem parecer
notar coisa alguma:
 - Mademoiselle, sua me no compareceu hoje ao
almoo. Espero que no esteja indisposta?
 - A mam no tem passado bem - declarou Rosalie secamente. -
Darei graas a Deus quando nos
formos embora daqui.
 - Seremos companheiros de viagem, no  verdade? Faremos
juntos a excurso at Uadi Halfa e  Segunda Catarata?
 - Sim.
 Os dois saram das sombras do jardim para um
poeirento trecho da estrada que marginava o rio. Cinco
vendedores de colares, dois de bilhetes postais, trs
de escaravelhos de gesso e outros ainda destacaram-se
" de um grupo e acercaram-se deles, em atitude infantilmente
esperanosa.
 - Quer contas, senhor? Muito bonitas, senhor.
Muito baratas...
 - Menina, compre um escaravelho. Veja... grande
rainha... muita sorte.
 - Veja, senhor... lazli verdadeiro. Muito bom,
muito barato...
 - Um passeio de jumento, senhor? Este  muito
bom. Jumento Whiskey e Soda, senhor...
 - Quer ir s pedreiras de granito, senhor? Este,
bom jumento. O outro no presta, cai de vez em
quando, senhor...
 - Bilhete postal? Bonito... barato...
 - Veja, menina... s dez piastras; muito barato...
isto  de marfim... Este muito bom enxota-moscas... este,
tudo mbar...
 - Vai de barco, senhor? O meu, muito bom...
 - Volta para o hotel, senhora? Este, muito bom
jumento...
 Hercule Poirot fazia gestos vagos, tentando livrar-se do
enxame de moscas humanas. Rosalie atravessou
o grupo com ar de sonmbula.
 -  melhor a gente fingir que  surda e muda - observou.
 A algazarra ainda os acompanhava.
 - Bakshish? Bakshish? Hip, hip, hurrah! Muito
 bom, muito barato...
 Os trapos de cores vistosas que eles vestiam arrastavam-se
pitorescamente, e as moscas pousavam nas
 plpebras daqueles homens.
 Alguns eram persistentes. Outros conformavam-se,
preparando-se para investir contra o prximo turista.
 Agora, Poirot e Rosalie faziam a via-sacra das lojas...
Aqui, intonao suave e persuasiva...
 - D-me a honra de visitar hoje a minha loja, senhor? -
Deseja este crocodilo de marfim, senhor? - J esteve na minha
loja, senhor? - Mostro-lhe os mais
belos artigos...
 Entraram na quinta loja e Rosalie comprou vrios
rolos fotogrficos - a finalidade daquele passeio.
 Saram e foram at  margem do rio.
 Um dos vapores do Nilo acabava de atracar. Poirot
e Rosalie observaram com interesse os passageiros.
 - Muitos, no? - comentou a rapariga.
 Virou a cabea ao perceber que Tim Allerton vinha
juntar-se-lhes. O rapaz parecia ofegante, como se
tivesse caminhado muito depressa.
 Continuaram ali durante alguns minutos. Tim foi o
primeiro a falar:
 - Gente horrvel, com certeza - comentou em
tom desdenhoso, indicando as pessoas que desembarcavam.
 - Em geral so insuportveis - concordou Rosalie.
 Os trs tinham o ar superior que assumem as pessoas que j
esto num lugar, quando estudam os recm-chegados.
 - Ol! - exclamou Tim, com uma nota de sbita
excitao na voz: - Macacos me mordam se aquela
no  Linnet Ridgeway!
 Se Poirot no pareceu interessado, o mesmo no se
pode dizer de Rosalie. Inclinou-se para a frente, a expresso
entediada desapareceu-lhe do rosto.
 - Onde? Aquela de branco?
 - Sim, com o rapaz alto. Vo descer agora. O marido, com
certeza. No me lembro do nome dele, neste momento.
 - Doyle - informou Rosalie. - Simon Doyle.
 "Todos os jornais deram a notcia. Ela  riqussima," ?
 - Uma das raparigas mais ricas de Inglaterra - declarou Tim,
animadamente.
 Ficaram em silncio, observando os passageiros que desciam.    Poirot fitou com curiosidade o alvo 
daqueles comentrios.
 -  muito bonita - murmurou.
 - Algumas pessoas tm tudo - observou Rosalie,
num tom amargo.
 Havia no seu rosto uma estranha expresso de rancor,
enquanto o olhar dela acompanhava a jovem que
vinha a descer a escada de bordo.
 Linnet Doyle estava to bem vestida como a principal figura
de uma revista ao entrar no palco. Tinha
tambm o aplomb de uma artista famosa. Estava habituada a
chamar a ateno, a ser admirada, a ser a primeira, onde quer
que aparecesse.
 Percebeu os olhares atentos dirigidos  sua pessoa
- e ao mesmo tempo quase no os percebeu, pois tais
tributos faziam parte da sua vida.
 Desceu para a margem, representando um papel,
se bem que o representasse inconscientemente. A rica,
a bela Linnet Ridgeway, a flor da sociedade, na sua
viagem de npcias. Voltou-se com ligeiro sorriso para
o homem a seu lado, fazendo uma observao qualquer. Ele
respondeu, e o som da sua voz pareceu interessar Poirot. O
olhar do detective brilhou; as suas sobrancelhas contraram-se
ligeiramente.
 O casal passou perto deles. Poirot ouviu Simon
Doyle dizer:
 - Procuraremos arranjar tempo para isso, querida. Podemos
ficar uma semana ou duas, se gostar de estar aqui.
 O rosto do rapaz estava voltado para ela. Expresso
ardente, adoradora, talvez mesmo um tanto humilde.
 Poirot examinou-o com ar pensativo. Ombros largos, rosto
bronzeado, olhos azul-escuros, sorriso infantil.
 - Um tipo de sorte! - comentou Tim Allerton,
ao v-los passar. - Imagine! Encontrar uma herdeira
que no tenha adenides e ps chatos!
 - Parecem muito felizes - disse Rosalie com uma
nota de inveja na voz. Disse repentinamente, mas to
baixo que Tim no percebeu o sentido das palavras:
 - No  justo.
 Mas Poirot ouviu-a. Continuava de sobrancelhas
contradas, com ar perplexo, mas no deixou de lanar
  companheira um olhar curioso.
 Tim disse ento:
 - Tenho que fazer uma compra para minha me.
 Tocou no chapu e afastou-se. Poirot e Rosalie voltaram
lentamente para o hotel, afastando do caminho
um ou outro vendedor importuno.
 - Ento no  justo, mademoiselle? - perguntou
ele suavemente.
 A rapariga corou, encolerizada.
 - No sei o que quer dizer com isso.
 - Repito, apenas, o que lhe ouvi dizer em voz
baixa h pouco. Oh, disse, sim.
 Rosalie encolheu os ombros.
 -  realmente de mais para uma pessoa s. Dinheiro, beleza,
e porte e... - Interrompeu-se repentinamente.
 Poirot sugeriu:
 - Amor? Hem, amor? Mas a senhora no sabe.
Talvez ele tenha casado s pelo dinheiro!
 - No viu, ento, como a olhava?
 - Sim, mademoiselle. Vi tudo; at mesmo alguma
coisa que a senhora no viu.
 - Que foi?
 Poirot respondeu lentamente:
 - Vi, mademoiselle, linhas escuras sob uns olhos
de mulher. Vi as articulaes lvidas da mo que segurava uma
sombrinha...
 - Que quer dizer com isso? - perguntou Rosalie,
olhando-o bem de frente.
 - Digo que nem tudo o que luz  oiro; digo que,
embora aquela senhora seja bela, rica e amada, existe
alguma coisa que no vai bem... E ainda mais...
 - Sim?
 Poirot continuou, franzindo as sobrancelhas:
 - Sei que, certa vez, em qualquer lugar, j ouvi aquela voz; a voz de Mister Doyle. E gostaria de saber onde 
foi!
 Mas Rosalie no o ouvia. Parecia subitamente feita
 pedra, desenhando com a ponta da sombrinha arabiscos na
areia. De repente, explodiu:
 - Sou detestvel. Uma verdadeira peste. Gostaria
de lhe arrancar o vestido e pisar aquele rosto belo e
arrogante. No passo de uma gata invejosa; mas  assim
que sinto. Tudo, na atitude dela, indica triunfo, importncia,
confiana em si.
 A exploso pareceu surpreender Poirot. Segurou o
brao de Rosalie e sacudiu-a amigavelmente e sem rudeza.
 - Tenez... Vai sentir-se melhor por ter dito isso.
 - Odeio-a. Nunca pensei que,  primeira vista,
fosse possvel odiar tanto uma pessoa!
 - Magnfico.
 Rosalie fitou-o com ar incrdulo. Depois desatou
a rir.
 - Bien - disse Poirot, rindo tambm.
 Voltaram como bons camaradas para o hotel.
 - Preciso ir ver a mam - disse a jovem ao entrarem no trio
sombrio e fresco.
 Poirot dirigiu-se para o terrao que dava para o Nilo.
 As mesinhas estavam preparadas para o ch, mas
ainda era cedo. Ele ficou alguns momentos a olhar o
rio, depois foi passear pelo jardim.
 Algumas pessoas jogavam tnis, apesar do calor do
sol. Poirot parou a observ-las; depois desceu a ladeira.
 E ali, sentada numa cadeira que dava para o Nilo,
foi encontrar a rapariga que vira em Chez Ma Tante.
Reconheceu-a imediatamente. O rosto que vira naquela noite
ficara-lhe nitidamente gravado na memria.
Mas a expresso era agora bem diversa. Estava mais
plida, mais magra e havia no seu rosto algumas sombras que
indicavam cansao e sofrimento.
 Poirot recuou. A jovem no o vira; ele ficou, portanto, a
observ-la durante alguns segundos, sem que
ela suspeitasse da presena dele. O pzinho batia
impacientemente no cho. Os olhos, de estranho brilho,
tinham uma expresso de calmo e sombrio triunfo. Ela fitava o Nilo, onde os barquinhos de velas brancas 
navegavam
de um para o outro lado.
 Um rosto - uma voz. Lembrou-se ento de ambos. O rosto da
rapariga; a voz que pouco antes ouvira
novamente. A voz de um rapaz em lua-de-mel...
 E, enquanto Poirot estava ali, a observar a jovem,
deu-se a segunda cena do drama.
 Vozes, l em cima. A rapariga levantou-se de chofre. Linnet
Doyle e o marido desciam a ladeira. Linnet parecia feliz,
confiante; a expresso tensa, a rigidez dos msculos tinham
desaparecido...
 A jovem que se erguera to repentinamente adiantou-se ento.
 Os outros dois estacaram.
 - Ol, Linnet - disse Jacqueline de Bellefort. - Ento voc
est aqui! Os nossos caminhos esto sempre a cruzar-se, no 
verdade? Ol, Simon, como vai voc?
 Linnet recuara, apoiando-se  rocha com uma exclamao. O
belo rosto de Simon Doyle teve uma
sbita convulso de clera. Ele adiantou-se, como se
quisesse agredir a esguia criaturinha  sua frente.
 Com um rpido movimento de cabea, qual um
passarinho, ela indicou que percebera a presena de
uma pessoa estranha. Simon voltou-se e viu Poirot.
 Disse ento desajeitadamente:
 - Ol, Jacqueline. No espervamos encontr-la aqui.
 As palavras dele tiveram um som muito pouco convincente.
 Os dentes brancos da rapariga reluziram.
 - Verdadeira surpresa, hem! - disse ela.
 Depois, com uma inclinao de cabea, ps-se a
subir a ladeira.
 Delicadamente, Poirot tomou a direco oposta.
 Mas ainda ouviu Linnet dizer:
 - Simon... pelo amor de Deus... Simon, que podemos fazer?



CAPTULO 2

 Terminara o jantar.
 Suave a iluminao no terrao do Hotel Catarata,
onde, em redor de mesas pequenas, estava a maioria
dos hspedes.
 Simon e Linnet Doyle vieram at ali, acompanhados por um
senhor distinto, de cabelos grisalhos, rosto
barbeado e vivaz de americano.
 O grupo hesitou um momento  porta. Tim Allerton ergueu-se e
adiantou-se, dizendo amavelmente a
Linnet:
 - No se lembra de mim, com certeza. Sou primo
de Joana Southwood.
 - Naturalmente... Que distraco a minha! Tim
Allerton, no  verdade? Apresento-lhe meu marido
(aqui a voz de Linnet tremeu ligeiramente: orgulho? timidez?)
 o meu procurador, na Amrica, Mister Penningson.
 Tim cumprimentou os dois homens e disse, voltando-se de novo
para Linnet:
 - Desejo apresentar-lhe minha me.
 Minutos depois faziam todos parte de um grupo.
Linnet sentara-se a um canto, entre Tim e Pennington
cada um deles procurando atrair a sua ateno.
Mrs. Allerton conversava com Simon Doyle.
 A porta giratria moveu-se. A jovem sentada entre
os dois homens teve uma sbita contraco. Mas ficou
de novo  vontade, quando viu um homenzinho engraado, que
imediatamente atravessou o terrao.
 Mrs. Allerton disse:
 - Voc no  a nica celebridade aqui presente.
Aquele cmico homenzinho  Hercule Poirot.
 Falara despreocupadamente, apenas por hbito de
 sociedade, para quebrar uma pausa constrangedora;
 mas a informao pareceu impressionar Linnet.
 - Hercule Poirot? Claro que o conheo de nome...
 Os olhos dela adquiriram uma expresso abstracta,
 e os dois homens a seu lado ficaram sem saber o que
 dizer.
 Poirot aproximou-se do parapeito do terrao, mas a
 sua companhia foi imediatamente solicitada.
 - Sente-se, Mister Poirot. Linda noite, no acha?
 - Claro que sim, madame, muito linda - concordou
 ele, aceitando o convite.
 Sorriu amavelmente para Mrs. Otterbourne. Que
 enorme quantidade de gaze preta, e que ridculo turbante!
 Mrs. Otterbourne continuou, na sua voz alta e lamurienta.
 - Inmeras notabilidades aqui, no  verdade?
 Com certeza, os jornais diro alguma coisa a esse respeito. Belezas da sociedade, famosas 
romancistas...
 interrompeu-se com um sorriso de falsa modstia.
 Poirot mais sentiu do que viu a contraco da rapariga
mal-humorada  sua frente.
 - Est actualmente a escrever alguma novela, madame? -
perguntou ele.
 Mrs. Otterbourne esboou novamente um sorriso
 desajeitado.
 - Ando muitssimo preguiosa. Preciso de recomear. O meu
pblico est a mostrar-se impaciente, e
 o meu editor... pobre homem! Reclamaes a cada
 correio! At mesmo telegramas!...
 Poirot viu de novo a jovem  sua frente mudar de
 posio.
 - No me importo de lhe contar, Mister Poirot.
 Estou aqui em busca de ambiente, de cor local. Neve
 em Pleno Deserto!  o ttulo do meu prximo livro.
 Forte. Sugestivo. Neve... no deserto... derretendo-se
 ao primeiro sopro ardente da paixo.
 Rosalie ergueu-se, murmurando qualquer coisa, e
 dirigiu-se para o jardim imerso em sombras.
 - A gente precisa de ser forte - continuou
 Mrs. Otterbourne, sacudindo enfaticamente o turbante. -
Realidade... sim, os meus livros so reais. As
bibliotecas podem bani-los... que importa? Digo a verdade.
Sexo... Ah! Mister Poirot, porque ser que toda
a gente tem medo do sexo? O pivot do Universo? Tem
lido os meus livros?
 - No, infelizmente, madame!... A senhora compreende; no
leio muitos romances. O meu trabalho...
 Mrs. Otterbourne disse com firmeza:
 - Preciso dar-lhe um exemplar de   Sombra da
Figueira. Creio que vai gostar.  cru... mas  real!
 -  muita gentileza sua, madame. Terei muito
prazer em l-lo.
 Mrs. Otterbourne ficou dois ou trs minutos em
silncio, brincando com um longo colar de contas que
lhe passava duas vezes pelo pescoo.
 Olhou rapidamente de um lado ao outro, murmurando:
 - Talvez seja prefervel dar um pulo l acima e
traz-lo.
 - Oh, madame, por favor, no se incomode. Mais
tarde...
 - No, no  incmodo nenhum - declarou ela
erguendo-se. Gostaria de lhe mostrar...
 - Que  que sucedeu, mam? - perguntou Rosalie, reaparecendo
inopinadamente.
 - Nada, minha querida. Ia apenas buscar um livro para Mister
Poirot.
 - Sombra da Figueira? Deixe l, que eu vou
 busc-lo.
 - Tu no sabes onde est.
 - Sei, sim.
 A rapariga atravessou rapidamente o terrao e entrou no
trio.
 - Permita-me que a felicite, madame, pela linda
 filha que tem - disse Poirot, inclinando-se galantemente.
 - Rosalie? Sim, sim  bonita. Mas  muito dura,
 Mister Poirot. E no tem pacincia com as pessoas doentes. Acha que tem sempre razo. Pensa que 
sabe
mais a respeito da minha sade do que eu prpria...
 Poirot fez sinal a um criado que ia a passar naquele
momento.
 - Um licor, madame? Chartreuse? Creme de menthe?
 Mrs. Otterbourne abanou vigorosamente a cabea.
 - No, no. Sou francamente pela lei seca. Talvez
tenha notado que s bebo gua... ou de vez em quando uma
limonada. No suporto nada que tenha lcool.
 - Posso ento oferecer-lhe uma limonada?
 Ela inclinou a cabea e Poirot encomendou o refresco e um
bnditine.
 A porta girou novamente e Rosalie apareceu, com
o livro.
 - Aqui est - disse ela em voz inexpressiva.
 - Mister Poirot acaba de me oferecer um refresco
 - disse a romancista.
 - E mademoiselle, que deseja?
 - Nada - declarou a rapariga. Ao perceber a falta de
gentileza da resposta, acrescentou: - Nada,
obrigada.
 Poirot aceitou o volume que Mrs. Otterbourne lhe
estendia. Tinha ainda a capa original, em cores alegres, onde
se via, sentada numa pele de tigre, uma senhora de cabelos
cortados e unhas rubras, em trajes de
Eva. Em cima, uma rvore com folhas de carvalho,
cheia de mas enormes e de fantstico colorido. Sombra da Figueira, por Salom Otterbourne. Dentro, 
uma nota
do editor, referindo-se em termos entusisticos ao magnfico
realismo e coragem daquele estudo da vida amorosa de uma
mulher moderna.
Franco, real, verdadeiro - eram os adjectivos empregados.
 Poirot inclinou-se, murmurando:
 - Sinto-me muito honrado, madame.
 Ao erguer a cabea, os seus olhos encontraram os
da filha da autora. Involuntariamente, ele fez um pequeno
movimento, no podendo ocultar totalmente a
surpresa e a consternao que sentiu ante a eloquncia
da dor que aqueles olhos revelavam.
 Felizmente, as bebidas chegaram neste momento.
 Poirot ergueu galantemente o copo.
 -  votre sant, madame, mademoiselle.
 Mrs. Otterbourne murmurou, enquanto ia tomando uns goles da
limonada:
 - Delicioso, to refrescante!
 Depois disso, ficaram em silncio, fitando os recifes negros
e brilhantes. Pareciam fantsticos, ao luar.
Como enormes monstros pr-histricos, que tivessem
metade do corpo fora da gua.
 Soprou repentina brisa, que com a mesma pressa
desapareceu.
 Que impresso de silncio, de expectativa!...
 O olhar de Hercule Poirot examinou o terrao e os
seus ocupantes. Estaria enganado, ou tambm havia
aqui a mesma sensao de expectativa? Como no teatro, quando a
gente espera a entrada da artista principal...
 Neste momento, a porta giratria moveu-se novamente, desta
vez como se a pessoa a empurrasse com
gesto de estudada importncia. A conversa cessou
em todas as mesas, os olhares voltaram-se para aquele lado.
 Apareceu uma jovem morena e esbelta, de vestido de noite,
cor de vinho. Parou por alguns segundos, depois atravessou o
terrao com ar decidido e foi sentar-se a uma mesa desocupada. Na sua atitude nada havia de ostensivo, 
nada fora de propsito, e, no entanto, dera a impresso de uma artista a entrar no palco.
 - Ora, ora! - exclamou Mrs. Otterbourne, abanando a cabea
aprisionada no turbante. - Ela pensa que  algum, essa pequena!
 Poirot nada disse. Observava... A jovem sentara-se
num lugar de onde podia encarar Linnet Doyle. Logo em seguida, a milionria inclinou-se para a frente, 
disse
qualquer coisa e levantou-se, indo sentar-se noutra
cadeira. Estava agora de costas para a recm-chegada.
 Poirot inclinou a cabea, pensativo.
 Cinco minutos mais tarde, a outra jovem foi sentar-se no
lado oposto do terrao. Ali ficou, fumando e
sorrindo com serenidade, como se no tivesse uma s
preocupao na vida. Mas constantemente, como que
inconscientemente, o seu olhar descansava sobre a esposa de
Simon Doyle.
 Um quarto de hora mais tarde, Linnet ergueu-se
bruscamente e entrou no hotel, quase logo seguida pelo marido.
 Jacqueline de Bellefort sorriu e fez a cadeira girar
para o outro lado. Acendeu um cigarro e ps-se a contemplar o
Nilo. Continuou a sorrir...



CAPTULO 3

 - Mister Poirot.
 O detective ergueu-se apressadamente. Continuara
sentado no terrao, mesmo depois de o ltimo hspede se
retirar. Imerso em profunda meditao, estivera
a contemplar as lisas e brilhantes rochas negras, mas,
ao ouvir o seu nome, voltou  realidade.
 Chamara-o uma voz bem-educada, firme; e, apesar
de ligeiramente arrogante, encantadora.
 Voltando-se vivamente, Hercule Poirot encontrou
o olhar dominador de Linnett Doyle.
 A jovem lanara sobre o vestido de cetim branco
uma capa de veludo carmesim: estava to bela e imponente que
Poirot, no seu ntimo, a comparou a uma
rainha.
 - Estou a falar com Hercule Poirot?
 A frase era mais uma afirmao do que uma pergunta.
 - Ao seu dispor, madame.
 - Talvez saiba quem sou?
 - Sim, madame. Disseram-me o seu nome. Sei
exactamente quem .
 Linnet inclinou a cabea, como quem no esperava
outra coisa.
 - Quer acompanhar-me  sala de jogo, Mister
Poirot? Desejo muito falar-lhe - disse ela com aquele
seu ar encantadoramente dominador.
 - Certamente, madame.
 Entraram no hotel, caminhando Linnet um pouco
 frente. Quando chegaram  sala de jogo, a jovem fez
sinal a Poirot para que fechasse a porta. Sentou-se depois a
uma das mesas e o detective seguiu-lhe o exemplo. Linnet foi
direita ao assunto. Nenhuma hesitao
Fluncia absoluta.
 - Tenho ouvido falar muito do senhor, Mister
Poirot, e sei que  um homem muito inteligente.
Acontece que preciso de auxlio, e creio que o senhor
 a pessoa mais indicada para isso.
 Poirot inclinou a cabea e replicou:
 -  muita gentileza sua, madame. Mas, a senhora
sabe, estou em frias, e nestas ocasies no costumo
aceitar incumbncia alguma.
 - Poderamos chegar a um acordo.
 A frase no foi dita de maneira insultuosa - apenas com a
intonao de quem est habituada a decidir
tudo de acordo com os seus prprios interesses.
 Depois de imperceptvel pausa, Linnet continuou:
 - Mister Poirot, estou a ser vtima de uma intolervel
perseguio.  preciso que isso acabe! A minha
inteno era ir  polcia, mas meu... meu marido acha
que ela nada poderia fazer.
 - Talvez possa ser mais explcita? - perguntou
Poirot delicadamente.
 - Sim,  o que vou fazer.  muito simples.
 Ainda nenhuma hesitao, nada de rodeios. Linnet
Doyle tinha uma mentalidade de homem de negcios.
Fez uma pequena pausa, apenas para poder apresentar
os factos da maneira mais concisa possvel.
 - Antes de me conhecer, meu marido estava noivo
de uma amiga minha, Miss de Bellefort. Simon rompeu o noivado;
dois caracteres antagnicos. Lamento dizer que a minha amiga ficou muito abalada. Eu... sinto muito, mas 
ningum pode impedir estas coisas. Ela fez... bem, certas ameaas. Pouca ateno dei a essas ameaas, 
que, sou forada a confessar, ela no procurou levar a efeito. Em vez disso, adoptou o estranho
procedimento de... de nos seguir aonde quer que vamos.
 Poirot ergueu as sobrancelhas e comentou:
 - Vingana um tanto... original.
 - Muito original... e completamente ridcula!
Mas, ao mesmo tempo... importuna - confessou Linnet, mordendo
os lbios.
 Poirot inclinou a cabea em sinal de assentimento.
 - Sim, no h dvida. A senhora, creio eu, est
em viagem de npcias?
 - Estou, sim. Aconteceu, primeiro, em Veneza.
L estava ela, no Danielli. Pensei que fosse apenas
coincidncia. Situao um tanto constrangedora, mas
nada mais do que isso. Depois, fomos encontr-la a
bordo, em Brindisi. Pensmos que estivesse a caminho
da Palestina; julgmos t-la deixado no navio. Mas ao
chegarmos a Mena House, l estava ela,  nossa espera!
 - E depois?
 - Subimos o Nilo. Eu... tinha quase a certeza de
a encontrar a bordo. No a vendo, julguei que tivesse
desistido de agir de maneira to... to infantil. Mas
quando chegmos aqui... vimos que nos esperava.
 Poirot observou Linnet com ateno. Absolutamente senhora de
si; mas as articulaes da mo que
se agarravam  mesa estavam lvidas...
 - E tem medo que continue esse estado de coisas?
 - Tenho... - disse Linnet. E depois de uma pequena pausa: -
Claro que tudo isso  uma infantilidade... Jacqueline est a
fazer um papel ridculo. Admiro-me de que no tenha mais
orgulho, mais dignidade.
 Poirot fez um gesto impulsivo.
 - H ocasies, madame, em que o orgulho e a dignidade...
saltam pela janela! Existem outras... emoes mais fortes.
 - Sim, possivelmente - disse Linnet com impacincia. - Mas,
francamente, que espera ela lucrar com isso?
 - Nem sempre  uma questo de lucro, madame.
 Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou a
Linnet. Ela corou e replicou vivamente:
 - Tem razo. Uma discusso sobre os motivos
no vem ao caso. O ponto principal  pr termo a tudo isso.
 - E de que maneira pretende consegui-lo, madame?
 - Bom... naturalmente, meu marido e eu no podemos continuar
a ser vtimas de tal perseguio. Deve haver alguma medida
legal contra uma coisa dessas.
 Linnet falara com impacincia. Poirot perguntou,
fitando-a:
 - Ela ameaou-a, por acaso, em pblico? Serviu-se de termos
insultuosos? Tentou qualquer violncia fsica?
 - No.
 - Ento, francamente, madame, no vejo o que a
senhora possa fazer. A jovem tem prazer em viajar por
certos lugares, e esses lugares so os mesmos onde a
senhora e seu marido se acham, eh bien, que mal h
nisso? O Sol nasce para todos! Ela no procura intrometer-se
na sua vida particular?  sempre em pblico
que tais encontros se do?
 - Quer dizer que no h nada que eu possa fazer?
 - Perguntou Linnet com incredulidade.
 Poirot respondeu serenamente:
 - Nada, na minha opinio. Mademoiselle de Bellefort est no
seu direito.
 - Mas... isto  de enlouquecer!  intolervel! Ver-me
obrigada a suportar uma coisa dessas!
 Poirot disse secamente:
 - Compreendo o seu ponto de vista, madame,
principalmente porque no deve estar habituada a suportar
coisas que lhe desagradam.
 - Deve haver uma maneira de pr fim a isso - disse Linnet,
contraindo as sobrancelhas.
 - A senhora poderia partir, procurar outro lugar
- sugeriu Poirot, encolhendo os ombros.
 - Ela seguir-me-ia.
 - Provavelmente.
 - Mas  absurdo!
 - Exactamente.
 - De qualquer maneira, porque hei-de eu... porque havemos
ns de fugir? Como se... como se...
Linnet interrompeu-se.
 Poirot disse, ento:
 - Exactamente, madame. Como se... ! A  que est a
questo, no  verdade?
 Linnet ergueu a cabea e encarou-o.
 - Que quer dizer com isso?
 Poirot mudou de intonao. Inclinou-se para a frente,
perguntando em tom confidencial, muito suave:
 - Por que motivo se importa tanto, madame?
 - Porqu? Mas  alucinante! Irritante ao mximo!
J lhe disse qual a razo.
 Poirot abanou a cabea.
 - No inteiramente.
 - Que quer dizer com isso? - perguntou novamente Linnet.
 Poirot apoiou-se ao espaldar da cadeira, dizendo
em tom despreocupado, impessoal:
 - Escute, madame: vou contar-lhe uma historiazinha. H um
ou dois meses, estava eu num restaurante
em Londres. Na mesa pegada  minha, vi duas pessoas, um rapaz
e uma rapariga. Pareciam muito felizes, muito apaixonados.
Discutiam, confiantes, o futuro.
No que eu seja indiscreto... eles no se preocupavam
com quem pudesse ouvi-los. O homem estava de costas para mim,
mas podia ver o rosto da rapariga. Ardente. Apaixonado. Aquela
jovem amava com o corao, a alma, o corpo; e no era dessas
pessoas que amam levianamente e muitas vezes. Via-se claramente que, para ela, era questo de vida ou 
de morte. Estavam noivos, pelo que pude perceber, e falavam do lugar aonde iam passar a lua-de-mel. O 
Egipto.
 Poirot fez uma pausa. Linnet perguntou bruscamente:
 - E ento?
 - Isto foi h um ou dois meses - continuou Poirot. - Mas o
rosto da rapariga, no mais o esqueci.
Sabia que o reconheceria, se o visse novamente. Lembro-me
tambm da voz do homem. E, madame, creio
que no lhe ser difcil adivinhar a ocasio em que de
novo vi o rosto e ouvi a voz. Aqui, no Egipto. O homem, em
lua-de-mel, sim; mas em lua-de-mel com outra mulher.
 Linnet disse secamente:
 - E que tem isso? J mencionei os factos.
 - Os factos... sim.
 - Ento?
 Poirot disse lentamente:
 - A rapariga do restaurante referiu-se a uma amiga; uma
amiga que, tinha ela a certeza, no lhe daria
nenhuma decepo. Essa amiga era, creio eu, a senhora.
 Linnet corou.
 - Sim, eu disse-lhe que ramos amigas.
 - E ela tinha confiana na senhora?
 - Tinha.
 Linnet hesitou por um momento, mordendo impacientemente os
lbios. Depois, vendo que Poirot no
parecia disposto a falar, continuou:
 - Naturalmente, foi um caso lamentvel. Mas essas coisas
acontecem, Mister Poirot.
 - Ah, sim, acontecem, madame. - Fez uma pausa, e depois: - A
senhora pertence  Igreja Anglicana, com certeza?
 - Realmente - disse Linnet, um tanto perplexa.
 - Ento deve conhecer certos trechos da Bblia,
que so lidos em voz alta na igreja. Deve ter ouvido
falar do rei David, do homem rico que tinha muitos
rebanhos e do pobre que s tinha uma ovelha, e como
o rico tirou ao pobre essa nica ovelha. Foi uma coisa
que aconteceu, madame.
 Linnet endireitou-se na cadeira e exclamou, os
olhos brilhantes de clera:
 - Vejo perfeitamente aonde quer chegar, Mister Poirot!
Falando sem rodeios, acha que roubei o namorado  minha amiga.
Sob o ponto de vista sentimental, que na minha opinio  o
ponto de vista das pessoas da sua gerao, talvez isso seja verdade. Mas a fria realidade  diferente. No 
nego que Jackie estivesse loucamente apaixonada por Simon, mas no creio
que o senhor tenha admitido a hiptese de o mesmo se
dar com ele. Gostava muito dela, mas acho que, mesmo
antes de me conhecer, ele j comeara a compreender
que ia cometer um erro, casando-se com Jacqueline.
Procure examinar o caso a sangue-frio, Mister Poirot.
Simon descobre que  a mim que ama, no a Jackie.
Que deve fazer? Ser de uma nobreza herica e casar-se com uma
mulher por quem no tem amor, provavelmente estragando trs
vidas; pois  duvidoso que
nessas circunstncias pudesse fazer Jackie feliz! Se
j estivesse casado quando me conheceu, concordo
que talvez fosse seu dever manter-se firme; se bem que
nem disso posso ter a certeza! Quando um  infeliz
no casamento, tambm o outro sofre. Mas o noivado
no  um lao indissolvel. Se houver engano, ento
no h dvida que  prefervel encarar a situao antes
que seja tarde de mais. Concordo que foi duro para
Jackie; lamento que tenha sido assim; mas, pacincia!
Foi inevitvel.
 - No sei - declarou Poirot.
 - Que quer dizer com isso?
 - Muito sensato, muito lgico, tudo quanto disse.
Mas no explica uma coisa.
 - Que coisa?
 - A sua atitude, madame. Esta perseguio, a senhora poderia
encar-la de dois modos: poderia causar-lhe aborrecimento,
sim, ou despertar a sua piedade. Piedade por ver a sua amiga
to profundamente ferida, a ponto de desdenhar todas as convenes sociais. Mas no  essa a sua 
reaco. Para a senhora, a perseguio  intolervel. E porqu? Por uma razo,
apenas; porque a senhora experimenta uma sensao
de culpa.
 Linnet ergueu-se de chofre.
 - Como ousa o senhor? Realmente, Mister Poirot,
est a ir longe de mais!
 - Mas  que eu ouso, madame! Ouso, sim. Vou
falar-lhe com absoluta franqueza. Na minha opinio,
embora tenha tentado iludir-se a si prpria, a senhora
procurou conscientemente suplantar a sua amiga. Na minha
opinio, sentiu, desde o princpio, grande atraco
por Mister Doyle. E houve um momento em que hesitou, quando
compreendeu que poderia parar ou
continuar. A escolha dependia da senhora, no de Mister Doyle.
 bonita, madame, rica, perspicaz, inteligente; e tem encanto.
Estava nas suas mos fazer valer esse encanto, ou limit-lo.
A senhora tem tudo o que o mundo possa oferecer. 
A vida da sua amiga resumia-se em uma s pessoa. A senhora sabia-o e, embora hesitasse, no ergueu a 
mo... Ao contrrio, estendeu-a, como o rei David, tirando ao pobre a sua nica ovelha.
 Houve um silncio. Linnet dominou-se e replicou
friamente:
 - Isso nada tem com o caso!
 - Tem, sim. Estou a explicar-lhe por que motivo
as inesperadas aparies de Miss de Bellefort a tm
perturbado tanto.  porque (embora o procedimento
dela talvez seja pouco feminino e pouco digno) a senhora tem a
ntima convico de que ela est no seu direito.
 - Isso no  verdade!
 Poirot encolheu os ombros.
 - Vejo que insiste em querer iludir-se a si prpria.
 - Absolutamente.
 Poirot disse suavemente:
 - Madame, tenho a impresso de que tem tido
uma vida feliz e de que a sua atitude para com os outros tem
sido sempre generosa e amvel.
 - Tenho feito o possvel para agir assim - disse
Linnet.
 A clera impaciente desaparecera-lhe do rosto.
A frase fora pronunciada simplesmente, quase com
desnimo.
 Poirot disse:
 - E  por isso que a ideia de ter ferido algum a
perturba tanto,  por isso que tem dificuldade em reconhecer
que isto se tenha dado. Perdoe-me se fui impertinente, mas a
psicologia  o factor mais importante de um caso.
 Linnet replicou lentamente:
 - Mesmo supondo-se que seja verdade o que diz
(e note que no admito coisa alguma!) que fazer agora? Ningum
pode modificar o passado; temos de encarar as coisas tal qual
elas so.
 - A senhora raciocina com clareza.  verdade;
no se pode alterar o passado. Temos de aceitar as coisas como
elas so. E, s vezes, madame, nada mais do
que isso podemos fazer: aceitar as consequncias dos
nossos actos passados.
 - Quer dizer que no h nada que eu possa fazer?
- perguntou Linnet com incredulidade. - Nada?
 - Precisa de ter coragem, madame. Pelo menos, 
essa a minha opinio.
 - Mas o senhor no podia... falar com Jackie...
com Miss de Bellefort? Procurar convenc-la?
 - Sim, posso fazer isso. F-lo-ei, se  esse o seu
desejo. Mas no espere grandes resultados. Na minha
opinio, Miss de Bellefort est to obcecada, que nada
a demover do seu propsito.
 - Mas h-de haver alguma coisa que o senhor possa fazer para
nos livrar desta perseguio.
 - A senhora poderia, naturalmente, voltar a Inglaterra e
fixar-se no seu lar.
 - Mesmo assim, creio que Jacqueline seria capaz
de se instalar na vila, para que eu a visse todas as vezes que
pusesse o p fora da propriedade.
 - Tem razo.
 - Alm do mais, no creio que Simon concorde
em fugir.
 - Qual a atitude dele, em tudo isto?
 - Est furioso. Simplesmente furioso.
 Poirot inclinou a cabea, pensativo. Linnet continuou, em
tom suplicante:
 - O senhor procurar... falar com ela?
 - Falarei, sim. Mas no creio que seja bem sucedido.
 Linnet exclamou violentamente:
 - Jackie  extraordinria. Ningum pode prever o
que ela far!
 - Falou-me, h pouco, de certas ameaas. Poder
dizer-me que tipo de ameaas?
 Linnet encolheu os ombros e respondeu:
 - Ela ameaou... Bom... ameaou matar-nos a
ambos. Jackie, s vezes, demonstra... o seu temperamento
latino.
 - Compreendo... - disse Poirot, gravemente.
 Linnet voltou-se para ele, em tom ardente:
 - O senhor agir por mim?
 - No, madame - respondeu o detective com firmeza. - No
aceitarei a incumbncia. Farei o possvel, sob o ponto de
vista humanitrio. Isso, sim. A situao  difcil, perigosa.
Farei o possvel para a ajudar, mas repito que no creio muito no xito.
 - Mas no agir em meu favor? - perguntou Linnet, pesando
cada palavra.
 - No, madame - respondeu Hercule Poirot.



CAPTULO 4

O detective encontrou Jacqueline de Bellefort sentada num
dos rochedos que davam para o Nilo. Tivera
a certeza de que ela no se retirara e que iria encontr-la em
algum ponto, nas imediaes do hotel.
 Estava com o queixo entre as mos e no voltou a
cabea quando ouviu passos.
 - Mademoiselle de Bellefort? - perguntou Poirot. - Permite
que lhe fale por alguns momentos?
 Jacqueline voltou ligeiramente a cabea, com um
leve sorriso a brincar-lhe nos lbios.
 - Pois no - respondeu. -  Mister Hercule
Poirot, creio eu? Posso tentar adivinhar? Vem falar-me
em nome de Mistress Doyle, que lhe prometeu principescos
honorrios, se fosse bem sucedido na sua misso.
 Poirot sentou-se num banco, perto dela.
 - A sua suposio , em parte, verdadeira - disse ele
sorrindo. - Acabo de ter uma entrevista com
Mistress Doyle. Mas no aceitei honorrios e, rigorosamente
falando, no a represento.
 Jacqueline deixou escapar uma exclamao e fitou-o com
ateno.
 - Ento porque veio? - perguntou bruscamente.
 Poirot respondeu com outra pergunta:
 - J me tinha visto antes, mademoiselle?
 - No, creio que no.
 - Pois eu j a conhecia. Sentei-me a seu lado em
Chez Ma Tante. Estava l com Mister Simon Doyle.
 O rosto da jovem transformou-se em mscara inexpressiva.
 - Lembro-me daquela noite...
 - Desde ento, muita coisa aconteceu - disse Poirot.
 - Sim, tem razo; muita coisa aconteceu.
 A voz da rapariga era dura, com intonao profundamente
amarga.
 - Mademoiselle, falo como amigo. Enterre os seus mortos!
 Ela pareceu sobressaltada.
 - Que quer dizer com isso?
 - Esquea-se do passado! Volte-se para o futuro!
Aquilo que est feito est feito. A amargura no dar
remdio a coisa alguma.
 - Isso conviria admiravelmente a Linnet.
 Poirot fez um gesto vago.
 - No penso nela neste momento. Estou a pensar
em Jacqueline de Bellefort. A senhora sofreu, sim,
mas o que est a fazer agora s serve para lhe aumentar o
sofrimento.
 A jovem sacudiu a cabea e respondeu:
 - Engana-se. H ocasies... em que chego quase a
sentir prazer.
 - E isso, mademoiselle,  o mais lamentvel.
 Ela ergueu vivamente o busto.
 - O senhor no  tolo - disse. E depois, pesando
as palavras: - Creio que  bem-intencionado.
 - Volte para casa, mademoiselle.  nova, inteligente... Tem
o mundo diante de si.
 Jacqueline abanou lentamente a cabea.
 - O senhor no compreende, ou no quer compreender. Simon 
o meu mundo.
 - O amor no  tudo, mademoiselle - disse Poirot suavemente.
 -  s na mocidade que temos essa iluso.
 - O senhor no compreende. - Lanando-lhe
um rpido olhar, a rapariga acrescentou: - Sabe de
tudo, com certeza? Conversou com Linnet? Simon e eu amvamo-nos.
 - Sei que a senhora o amava.
 - Simon e eu amvamo-nos. E eu queria muito a
Linnet... Confiava nela. Era a minha melhor amiga.
Linnet pde comprar sempre tudo o que quis. Nunca
se privou de coisa alguma. Quando viu Simon, desejou-o e
apropriou-se dele, simplesmente.
 - E ele consentiu em ser comprado?
 Jacqueline abanou lentamente a cabecinha negra.
 - No, no foi exactamente isso. Se tivesse sido
assim, eu hoje no estaria aqui... Est a insinuar que
Simon no merece ser amado... Se se tivesse casado
com Linnet por interesse, isso seria verdade; mas no
se casou por dinheiro. O caso  mais complicado do
que parece. Existe uma coisa chamada deslumbramento,
Mister Poirot. E nisso o dinheiro ajuda. Linnet tinha
ccambiente", percebe? Era a rainha de um pequeno reino;
mulher de luxo at  ponta dos dedos. Como numa cena de
teatro. O mundo a seus ps... Um dos
mais ricos e mais cobiados pares da Inglaterra era
pretendente  sua mo. Em vez de aceit-lo, ela inclinou-se
para o obscuro Simon Doyle... Admira-se de
que isso lhe tenha subido  cabea? - Jacqueline fez
um gesto brusco: - Olhe a Lua l em cima. Pode v-la
perfeitamente, no pode?  verdadeira. Mas, se o
Sol estivesse a brilhar, no a poderia ver. Foi mais ou
menos isso. Eu era a Lua... Quando veio o Sol, Simon
no mais me viu... Ficou ofuscado. Nada mais viu, a
no ser o Sol: Linnet.
 Fez uma pausa, depois continuou:
 - V, portanto, que foi... deslumbramento. Ela
subiu-lhe  cabea. Alm do mais,  absolutamente senhora de
si, tem aquele hbito de mandar. Mostra-se
to decidida, to certa, que faz as outras pessoas terem
tambm certeza. Simon foi... fraco, talvez, mas deve -se
levar em conta que  um rapaz muito simples. Ele
ter-me-ia amado, e somente a mim, se Linnet no tivesse
aparecido, arrebatando-o para a sua carruagem
doirada. E eu sei, sei perfeitamente, que nunca a teria
amado, se ela no tivesse procurado conquist-lo.
 - Sim,  isso o que a senhora pensa.
 - Sei que  a verdade. Ele amava-me: sempre me
amar.
 - Mesmo agora?
 Ela ia responder vivamente, mas conteve-se. Olhou
para Poirot, corando violentamente. Voltou o rosto,
baixou a cabea e disse em voz abafada:
 - Sim, sei. Agora odeia-me. Sim, odeia-me... Ele
que se acautele!
 Remexeu rapidamente na bolsa de seda que estava
no banco. Depois estendeu a mo. Poirot viu-lhe na
dextra um revolverzinho de cabo de madreprola, que
mais parecia um brinquedo.
 - Bonito, no? - perguntou a rapariga. - Parece muito
pequeno para ser verdadeiro, mas  verdadeiro! Uma destas
balas d para matar uma pessoa. E tenho boa pontaria... 
- Sorriu como quem se lembra de factos antigos. - Quando 
fui com minha me para a Carolina do Sul, meu av
ensinou-me a atirar. Ele era daquele tipo que gostava de solucionar as suas rixas  bala, principalmente 
quando 
a honra estava em jogo.
Tambm meu pai teve duelos muitas vezes, em novo.
Era bom esgrimista. Duma vez, matou um homem,
por causa de uma mulher. V, portanto, Mister Poirot... -
encarou-o bem de frente -...tenho a quem
sair! Comprei este revlver quando tudo aquilo aconteceu.
Pretendia matar um deles... a dificuldade estava
em saber qual! Qualquer serviria. Se eu achasse que
Linnet ia ter medo... mas Linnet tem muita coragem
fsica. Foi a que... achei que podia esperar! A ideia
cada vez me seduzia mais. Afinal de contas, eu poderia
realizar o meu propsito em qualquer momento;
seria mais divertido esperar... e ficar a pensar nisso.
E ento ocorreu-me esta vingana: segui-los! Onde
quer que chegassem, alegres e felizes, iriam encontrar-me! E
deu resultado! Atingiu Linnet em cheio, mais
do que qualquer outra coisa! Ficou profundamente
perturbada. Foi a que comecei a divertir-me... E no
h nada que ela possa fazer! Sou sempre muito amvel
e delicada! No h uma palavra a que eles possam
agarrar-se! Mas isso est a envenenar-lhes a existncia.
 Ntida e cristalina, uma gargalhada dela ecoou pela
noite dentro.
 Poirot segurou-a pelo brao.
 - Fique quieta. Quieta!
 Jacqueline voltou-se para ele e exclamou:
 - Ento?
 O seu sorriso era de franco desafio.
 - Mademoiselle, imploro-lhe, no faa uma coisa dessas.
 - Quer que eu deixe em paz a querida Linnet,
no  verdade?
 -  algo mais profundo do que isso. No abra ao
mal as portas do seu corao.
 Ela ficou de lbios entreabertos, uma expresso
perplexa surgiu-lhe no olhar.
 Poirot continuou, gravemente:
 - Porque, se o fizer, o mal atender  chamada...
Sim, disso no h dvida. Entrar no seu corao, 
fazendo dele a sua morada, e passado algum tempo j
no ser possvel expuls-lo.
 Jacqueline fitou-o. O olhar dela pareceu vacilar.
 - No sei... No sei... - murmurou. E depois,
em tom de desafio: - O senhor no me pode impedir.
 - No, no posso - concordou Poirot, tristemente.
 - Mesmo que quisesse mat-la... o senhor no poderia
impedir-me de o fazer.
 - No, no poderia, se a senhora estivesse disposta a sofrer
o castigo.
 Jacqueline de Bellefort soltou uma gargalhada.
 - Oh, no tenho medo da morte! Afinal de contas, que tenho
eu que me prenda  vida? Com certeza
acha errado matar uma pessoa que nos prejudicou,
mesmo que essa pessoa nos tenha roubado aquilo que
mais prezamos no mundo?
 Poirot respondeu em tom decidido:
 - Sim, mademoiselle. Acho que matar  um crime
imperdovel.
 Jacqueline riu novamente.
 - Ento deve aprovar o meu actual plano de vingana. Porque,
sabe, enquanto ele der resultado, no
usarei esta arma... Mas h ocasies em que tenho medo; sim,
medo. Vejo tudo vermelho  minha frente...
quero feri-la... enfiar-lhe uma faca no corao, encostar-lhe
o revlver  fronte, apertar o gatilho... Oh!
 A exclamao assustou Poirot.
 - Que aconteceu, mademoiselle?
 Ela voltara a cabea e o seu olhar perscrutou as
trevas.
 - Algum... ali, de p. Agora j se foi.
 Hercule Poirot voltou-se vivamente.
 Tudo deserto e silencioso.
 - Parece-me que no h ningum, alm de ns,
mademoiselle. - Ergueu-se e continuou: - Em todo o
caso, j disse tudo quanto tinha para dizer. Desejo-lhe
muito boa noite.
 Jacqueline tambm se levantara. Disse em tom
quase suplicante:
 - O senhor compreende, no compreende?... que
no posso fazer o que me pede?
 Poirot sacudiu a cabea e replicou:
 - No! Sei que poderia, se assim o desejasse! H
sempre um momento! A sua amiga Linnet... Houve
tambm um momento em que ela poderia ter estacado... Mas
deixou que o momento passasse. E quando
uma pessoa faz isso, fica amarrada, e no tem segunda
oportunidade.
 - No tem segunda oportunidade... - repetiu Jacqueline.
 Ficou pensativa por alguns segundos, depois ergueu a cabea
em atitude de desafio.
 - Boa noite, Mister Poirot.
 Ele abanou a cabea tristemente; depois, seguiu-a
pelo caminho que levava ao hotel.



CAPTULO 5

 Na manh seguinte, quando saa do hotel para ir a
p at  cidade, Poirot viu Simon Doyle aproximar-se.
 - Bom dia, Mister Poirot.
 - Bom dia, Mister Doyle.
 - Vai  cidade? Permite que lhe faa companhia?
 - Pois no! Terei nisso muito prazer.
 Os dois homens caminharam lado a lado, passaram
pelo porto e ganharam a sombra das rvores. Simon
tirou ento o cachimbo da boca e disse:
 - Creio que minha mulher teve uma conversa
com o senhor, ontem  noite, Mister Poirot?
 - Realmente.
 Simon Doyle estava de sobrancelhas ligeiramente
contradas. Pertencia quele tipo de homem de aco,
que sente dificuldade em exprimir-se com clareza.
 - At certo ponto, fiquei satisfeito - disse ele. - O 
senhor conseguiu convenc-la de que nada podemos fazer.
 - Realmente no existe, neste caso, nenhuma pena imposta
pela lei - concordou Poirot.
 - Exactamente. Linnet no podia compreender
que isso fosse possvel - disse Simon sorrindo ligeiramente. 
- Foi criada com a ideia de que qualquer dificuldade pode ser
solucionada pela polcia.
 - Boa coisa, se isso fosse possvel - disse o detective.
 Houve uma pausa. De repente, Simon exclamou,
uma onda de sangue subindo-lhe ao rosto:
 - ...  o cmulo que ela seja vtima de tal perseguio!
No fez coisa alguma. V l que algum diga
que procedi como um miservel! Com certeza que 
verdade. Mas no admito que Linnet seja responsabilizada. 
Nada teve que ver com o caso.
 Poirot inclinou gravemente a cabea, mas no fez
comentrio algum.
 - O senhor... conversou com Jackie... com Miss
de Bellefort?
 - Conversei.
 - Conseguiu convenc-la a mostrar um pouco
mais de bom senso?
 - No o creio.
 Simon exclamou em tom irritado:
 - Ela no v que est a fazer um papel ridculo?
No percebe que nenhuma mulher respeitvel agiria
dessa forma? No tem um pouco de orgulho, de dignidade?
 Poirot replicou, encolhendo os ombros:
 - Ela tem apenas... como direi?... a impresso de
que foi lesada.
 - Est certo, mas, com os diabos, meu amigo,
uma rapariga normal no procede desta forma! Confesso que a
culpa foi toda minha. No fui correcto nessa histria. Acharia
compreensvel que ficasse aborrecida comigo e nunca mais me
quisesse ver... Mas seguir-me por toda a parte ... indecente! Exibindo-se desta maneira! Que espera 
ganhar com isso?
 - Vingana... talvez.
 - Tolice! Compreenderia melhor uma atitude melodramtica...
Se me desse um tiro, por exemplo.
 - Acharia isso mais de acordo com o temperamento dela?
 - Para ser franco, acharia, sim.  impulsiva, tem
um gnio dos diabos. No me surpreenderia que, sob
o domnio da clera, praticasse um acto de loucura.
Mas esta espionagem...
 -  mais subtil, sim! Inteligente!
 - O senhor no compreende. Isso d cabo dos
nervos de Linnet.
 - E os seus?
 Simon fitou-o com ar de surpresa.
 - Eu?... Gostaria de torcer o pescoo quela pestezinha.
 - Nada ficou, ento, do sentimento antigo?
 - Meu caro Mister Poirot... no sei como explicar-me... Foi
como... como a Lua, quando aparece o
Sol. A gente no v mais nada. Assim que vi Linnet,
Jackie deixou de existir.
 - Tiens, c'est drle, a! - murmurou Poirot.
 - Perdo?
 - A sua comparao interessou-me, nada mais do que isso.
 Simon corou novamente, dizendo:
 - Jackie disse-lhe, com certeza, que me casei com
Linnet por interesse.  mentira! Nunca me casaria
por dinheiro com mulher alguma. O que Jackie no
compreende  que  difcil, para um homem, quando... quando...
uma mulher gosta dele como Jackie gostava de mim...
 - Ah!... - exclamou Poirot, olhando vivamente
para o companheiro.
 Simon continuou:
 - Parece... Talvez o no deva dizer... mas Jackie
gostava demasiado de mim!
 - Un qui aime et un qui se laisse aimer - murmurou Poirot.
 - Hem? Que foi que disse? O senhor compreende, 
um homem no quer que a mulher goste mais dele
que ele dela. - A voz de Simon tornou-se mais quente, 
 medida que ele continuava: - Ningum quer ter
a impresso de que , corpo e alma, propriedade de
outra pessoa. Aquela atitude de posse! Este homem 
meu; pertence-me!  coisa que no tolero, que homem
algum tolera. A gente quer escapar... libertar-se.
O homem quer sentir que a mulher lhe pertence, e
no ele a ela.
 Interrompeu-se e acendeu um cigarro com os dedos
ligeiramente trmulos.
 - E era assim que se sentia ao lado de Mademoiselle
Jacqueline? - perguntou Poirot.
 - Que disse? - exclamou Simon, erguendo os
olhos. E depois: - Sim, sim. Para ser franco, foi o
que aconteceu. Ela nunca percebeu coisa alguma,
 claro, e nem eu podia falar-lhe sobre isso. Mas estava
inquieto... e, quando encontrei Linnet, perdi a cabea! 
Nunca tinha visto mulher mais linda na minha
vida. E to extraordinria! Toda a gente a fazer-lhe
a corte, e ela escolhe um pobre diabo como eu!
 A ltima frase fora dita em tom de ingnua admirao.
 - Compreendo - disse Poirot. - Sim, compreendo.
 - Por que motivo no pode Jackie aceitar a situao,
conformar-se de boa vontade? Afinal de contas,
cada um tem que aguentar o que lhe toca neste mundo. 
Confesso que a culpa foi toda minha. Mas pacincia. 
Acho loucura um homem casar-se com uma mulher a quem 
deixou de amar. E agora que conheo bem Jackie, 
que vejo a que extremos pode chegar,
compreendo que escapei de boa!
 - A que extremos pode chegar... - repetiu Poirot, pensativo.
 - Tem alguma ideia do que isso possa ser, Mister Doyle?
 Simon fitou-o, sobressaltado.
 - No... ou pelo menos... que quer dizer com isso?
 - O senhor sabe que ela tem um revlver?
 - No creio que se sirva dele. Talvez que no princpio...
Mas j passou desse ponto. Agora est apenas
despeitada, procura importunar-nos.
 - Talvez seja apenas isso - disse Poirot, encolhendo os
ombros.
 -  com Linnet que me preocupo - disse Simon, um tanto
desnecessariamente.
 - Sim, compreendo.
 - No acredito que Jackie tente qualquer coisa de
melodramtico, mas esta perseguio est a dar cabo
dos nervos de Linnet. Vou contar-lhe a ideia que me
ocorreu, e talvez o senhor possa dizer-me se o meu
plano deve ser modificado. Para comear, anunciei
abertamente que vamos ficar aqui uns dez dias. Mas
amanh o navio Karnak sai de Shelll para Uadi Halfa.
 minha inteno comprar passagens para este vapor,
at Philae. A criada de Linnet levar as malas para
bordo; ns dois tomaremos o Karnak em Shelll.
Quando Jackie perceber que no voltamos, ser tarde
de mais... estaremos em plena viagem. Com certeza
h-de julgar que fomos para o Cairo. Penso at em dar
uma gorjeta ao porteiro para dizer isso. Na agncia de
turismo, no lhe podero dar informaes, pois os
nossos nomes no constaro da lista de passageiros.
 Que tal a ideia?
 - No h dvida que est bem planeado. E se ela
resolver esperar aqui?
 - Talvez no voltemos. Poderamos continuar at
Cartum, indo depois, de avio, para o Qunia. Ela no
nos pode seguir  volta do mundo.
 - No; h-de chegar a hora em que as dificuldades financeiras a impediro de continuar. Ouvi dizer que no 
tem fortuna.
 Simon fitou o detective com admirao.
 - Muito bem pensado da sua parte; a ideia ainda
no me ocorrera. Jackie  pauprrima.
 - E, no entanto, conseguiu segui-los at aqui?
 Simon disse, em tom perplexo:
 - Ela tem um pequeno rendimento, naturalmente.
Pouco menos de duzentas libras por ano, creio eu.
Com certeza... sim, com certeza est a gastar o capital,
para poder custear estas viagens.
 - Quer dizer que chegar o dia em que no ter
mais recursos e ficar em absoluta misria?
 - Sim...
 Simon remexeu-se, constrangido, como se aquela
ideia lhe causasse desconforto. Poirot observava-o
atentamente.
 - No, no  uma ideia muito agradvel...
 - Bom, quanto a isso nada posso fazer! - exclamou Simon
colericamente. E depois: - Que tal acha
o meu plano?
 - Acho que talvez d resultado. Mas, naturalmente,  uma
retirada.
 Simon corou violentamente.
 - Quer dizer que vamos fugir? Sim,  verdade.
Mas Linnet...
 Poirot ficou a observ-lo, depois inclinou a cabea,
concordando.
 - Como diz,  realmente a melhor soluo. Mas
lembre-se de que Mademoiselle Jacqueline  inteligente.
 Simon replicou sombriamente:
 - Algum dia creio que teremos de enfrentar a situao e
lutar, de uma maneira ou de outra. O procedimento dela no 
nada razovel.
 - Razovel, mon Dieu! - exclamou Poirot.
 - No vejo motivo para que uma mulher no
proceda como um ser racional - disse Simon com
firmeza.
 - s vezes, procedem - replicou Poirot secamente. - E so
ainda mais desconcertantes. - Fez uma
pequena pausa e acrescentou: - Tambm estarei a
bordo do Karnak. O nosso itinerrio  o mesmo.
 - Oh!... - Simon hesitou, depois perguntou, parecendo ter
dificuldade em exprimir-se: - No  por
nossa causa? Quero dizer, no gostaria que...
 Poirot desiludiu-o imediatamente.
 - De forma alguma! J estava resolvido, antes de
sair de Londres. Fao sempre os meus planos com antecedncia.
 - No vai ento de um lugar a outro, conforme a
inspirao? No acha isto muito mais agradvel?
 - Talvez. Mas para se ter xito na vida, cada pormenor deve
ser estudado de antemo.
 Simon soltou uma gargalhada e replicou:
 - Com certeza,  assim que procedem os assassinos mais
hbeis.
 - Sim; se bem que o crime mais perfeito de que
tenho lembrana, e um dos mais difceis de ser descoberto, foi
cometido no impulso do momento.
 Simon disse, um tanto infantilmente:
 - Precisa de contar-nos alguns dos seus casos, a
bordo do Karnak.
 - No; poderia acabar por me tornar maador.
 - Isso nunca! O senhor deve ter muita coisa interessante
para contar. Pelo menos,  esta a opinio de
Mistress Allerton... Est ansiosa pela oportunidade
de lhe fazer um interrogatrio em regra!
 - Mistress Allerton? A senhora de cabelos grisalhos que tem
um filho to delicado.
 - Exactamente. Estar tambm a bordo do Karnak.
 - Sabe que o senhor...
 - Claro que no! - declarou enfaticamente Simon. - Ningum
sabe de coisa alguma. Parti do
princpio que  melhor no confiar em ningum.
 - ptima medida, que tambm costumo adoptar.
Por pensar nisso, a terceira pessoa do seu grupo, aquele
senhor de cabelos grisalhos...
 - Um pouco estranho, numa viagem de npcias,
no  o que est pensando? Pennington  o procurador
de Linnet, na Amrica. Encontrmo-lo, por acaso, no
Cairo.
 - Ah, verdadeiramente! Permite-me uma pergunta? Sua
esposa atingiu j a maioridade?
 - Ainda no completou vinte e um anos - respondeu. - Mas no
teve que pedir o consentimento
de ningum para se casar comigo. A notcia causou
grande surpresa a Pennington. Ele saiu de Nova Iorque no
Carmanic, dois dias antes de ter ali chegado a
carta onde Linnet lhe participava o nosso casamento.
E, portanto, no sabia de nada...
 - Carmanic - murmurou Poirot.
 - Ficou muito admirado quando nos encontrou
no Cairo.
 - Foi realmente uma grande coincidncia!
 -  verdade. Ficmos a saber que pretendia viajar
pelo Nilo e, portanto, reunimo-nos; no podamos,
sem indelicadeza, agir de outra forma. Alm do mais...
Bom, de certo modo, foi at um alvio. - Simon interrompeu-se,
parecendo de novo constrangido. - O senhor compreende. Linnet
tem andado nervosssima, esperando ver Jackie surgir a cada momento... Enquanto estvamos ss, este 
assunto vinha  baila constantemente. A companhia de Andrew Pennington valeu-nos neste sentido: vimo-
nos obrigados a falar de
outras coisas.
 - A sua esposa no se abriu com Mister Pennington?
 - No - disse Simon, em tom ligeiramente
agressivo. -  assunto que s a ns diz respeito.
Alm do mais, quando inicimos esta viagem pelo Nilo, pensmos
que o caso estivesse liquidado.
 Poirot abanou a cabea, dizendo:
 - No, ainda no est liquidado. O fim ainda no
est prximo, disso tenho a certeza.
 - Sou obrigado a dizer, Mister Poirot, que o senhor no 
muito animador.
 O detective encarou-o com ligeira irritao, pensando
consigo mesmo: "Este anglo-saxo no leva nada
a srio. Continua a ser uma criana."
 Linnet Doyle e Jacqueline de Bellefort levavam
ambas o caso muito a srio. Mas na atitude de Simon
ele nada mais via do que irritao, impacincia masculina.
 - Permite-me uma pergunta indiscreta? A ideia
de vir ao Egipto foi sua?
 Simon respondeu, corando:
 - No, claro que no. Para falar a verdade, teria
preferido ir a outra parte qualquer. Mas Linnet fazia
grande empenho. E ento... ento...
 Interrompeu-se, sem saber como continuar.
 - Naturalmente - disse Poirot, gravemente.
 Compreendia que, se Linnet fazia empenho numa
coisa, essa coisa tinha de ser feita.
 Pensou consigo mesmo: "Ouvi trs verses da mesma histria.
Uma contada por Linnet Doyle, a segunda por Jacqueline de
Bellefort, a terceira por Simon Doyle. Qual delas estar mais prxima da verdade?




CAPTULO 6

Mais ou menos s nove horas da manh seguinte,
Simon e Linnet Doyle partiram para a sua excurso a
Philae. De uma das varandas do hotel, Jacqueline de
Bellefort viu-os partir no pitoresco barquinho de velas
brancas. Por este motivo, no viu sair, da frente do
hotel, um carro cheio de malas, onde ia sentada uma
criada de ar grave e compenetrado. O carro tomou a
direco de Shelll.
 Hercule Poirot resolveu passar na ilha Elefantina,
bem defronte do hotel, as duas horas que lhe restavam
antes do almoo.
 Desceu at ao ancoradouro e reuniu-se aos dois homens que
tomavam um dos barcos do hotel. Evidentemente, os dois
sujeitos no se conheciam. O mais novo
chegara na vspera, de comboio. Alto, de cabelos escuros,
rosto magro e queixo belicoso. Usava umas calas de flanela
cinzenta, muito sujas, e um pulver de
jogador de plo, imprprio para aquele clima. O outro
era um sujeito de meia-idade, atarracado, que no perdeu tempo
a encetar conversa com Poirot, exprimindo-se num ingls um
tanto lnguido. Sem tomar parte
na conversa, de expresso fechada e sobrancelhas contradas, o
mais novo voltou-lhe as costas, pondo-se a
admirar a agilidade com que os barqueiros nbios governavam o
barco com os dedos dos ps, enquanto
com as mos manobravam as velas.
 O rio estava tranquilo: viam-se passar os vultos
negros dos recifes... A brisa soprava-lhes no rosto.
Chegaram  ilha; assim que desembarcaram, Poirot e
o seu loquaz companheiro foram directamente para
o museu. A esta altura, o homenzinho oferecera ao detective o
seu carto de visita, inclinando-se galantemente:
 - Signor Guido Richetti, Arquelogo
 No ficando atrs em gentileza, Poirot retribuiu a
vnia e apresentou tambm o seu carto. Satisfeitas as
convenes, os dois entraram juntos no museu, mostrando-se o
italiano uma fonte de eruditas informaes. Agora conversavam
em francs.
 O rapaz que viera com eles deu, com ar desinteressado, uma
volta pela sala, bocejando de vez em quando; depois saiu.
Poirot e Richetti acabaram por lhe
seguir o exemplo. O italiano ps-se entusiasticamente
a examinar as runas, mas Poirot, reconhecendo uma
sombrinha de listas verdes, nos recifes perto do rio,
fugiu naquela direco.
 Mrs. Allerton estava sentada na rocha, tendo um
livro no regao e um caderno de desenho nas mos.
 Poirot tirou delicadamente o chapu e Mrs. Allerton puxou
logo a conversa.
 - Bom dia - disse ela. - Nada mais difcil do
que a gente ficar livre desta crianada.
 Um bando de pretinhos estava  volta dela, sorridentes, de
mo estendidas e implorando bakshish com
ar esperanoso.
 - Pensei que ficassem cansados de me observar - disse Mrs.
Allerton com ar desanimado. - Esto a h
duas horas, e chegaram um a um. De vez em quando,
eu empunhava a sombrinha e bradava: Imshi, espalhando-os, por um ou dois minutos; mas voltavam logo, 
de olhos arregalados, esses olhos nojentos... e narizes ainda mais nojentos! No creio que goste de 
crianas, a no ser que estejam mais ou menos limpas e tenham noes elementares de educao.
 Ela respirou, riu-se e Poirot, amavelmente, procurou
dispersar a petizada, embora sem resultado. Fugiam, mas no
tardavam a voltar, formando um crculo  volta deles.
 - Se ao menos se pudesse ter um pouco de sossego no Egipto,
acho que gostaria daqui estar algum
tempo! - exclamou Mrs. Allerton. - Mas a gente
nunca pode estar realmente s. Vem logo algum pedir-nos
dinheiro, ou oferecer jumentos, ou colares, ou propor excurses s vilas dos nativos, ou seja l o que for.
 -  um grande inconveniente, no h dvida - concordou
Poirot.
 Estendeu o leno no rochedo e sentou-se com muito cuidado.
 - Seu filho hoje no lhe faz companhia?
 - No; Tim tem de mandar algumas cartas, antes
de partirmos daqui. Vamos  Segunda Catarata, no
sabia?
 - Eu tambm vou.
 - Oh, que bom! Confesso que estou encantada
por conhec-lo. Estivemos em Maiorca com uma tal
Mistress Leech, e ela contou-nos as coisas mais
extraordinrias deste mundo a seu respeito, Monsieur
Poirot. Perdera no banho de mar um anel de rubi e lamentou que
o senhor l no estivesse para o encontrar.
 - Ah, parbleu, no sou nenhuma foca!
 Ambos riram. Mrs. Allerton disse ento:
 - Vi-o da minha janela, hoje de manh, caminhando ao lado de
Simon Doyle. Diga-me: que acha
dele? Estamos todos interessadssimos pelo marido de
Linnet Ridgeway.
 - Ah, sim?
 -  verdade. Talvez o senhor no ignore que o casamento dele
com Linnet causou grande surpresa.
Pensavam todos que ela ia aceitar Lorde Windlesham,
e de repente aparece noiva deste rapaz de que ningum jamais
ouvira falar!
 - Conhece-a bem, madame?
 - No, mas uma das minhas primas, Joana
Southwood,  uma das suas melhores amigas.
 - Ah, sim, tenho lido esse nome nos jornais -disse Poirot.
Ficou em silncio por alguns minutos,
depois continuou: - Est muito em evidncia, essa
Mademoiselle Joana Southwood.
 - Oh, Joana sabe fazer reclamo de si prpria, disso no h
dvida! - disse secamente Mrs. Allerton.
 - No a aprecia muito, madame?
 - A minha observao foi muito pouco caridosa
- disse Mrs. Allerton, em tom penitente. - O senhor sabe,
tenho ideias antigas, e no gosto dela. Mas
Tim e Joana so muito bons amigos.
 - Compreendo - disse Poirot.
 Mrs. Allerton lanou-lhe um rpido olhar, e resolveu mudar
de assunto.
 - H pouca gente nova por aqui! Aquela linda pequena de
cabelos castanhos, que tem por me a horrvel criatura de
turbante,  quase a nica rapariga que
se v aqui. Notei que o senhor tem conversado muito
com ela. Interesso-me por aquela pequena.
 - Porqu, madame?
 - Tenho pena dela. Como uma pessoa pode sofrer
tanto, quando  nova e sensvel! Creio que ela sofre
bastante.
 -  verdade; no  feliz, a pobrezinha.
 - Tim e eu chamamos-lhe a "pequena amuada".
Tentei uma ou duas vezes conversar com ela, mas tratou-me com
absoluta frieza. Parece-me que vai tambm fazer esta viagem
pelo Nilo. Com a convivncia,
ser inevitvel uma certa camaradagem, no  verdade?
 -  possvel, madame.
 - Por mim, sou muito socivel; gosto imenso de
estudar tipos diferentes. - Fez uma pausa e continuou: - Tim
disse-me que essa jovem morena (Miss de Bellefort, creio eu) estava noiva de Simon Doyle. Deve ser 
constrangedor, um encontro desses.
 - Realmente - concordou Poirot.
 Mrs. Allerton lanou-lhe um olhar rpido.
 - Sabe uma coisa? Talvez seja tolice minha, mas
ela amedronta-me. Parece uma criatura to... ardente.
 - Talvez no se engane muito, madame. Uma
grande fora emotiva  sempre assustadora.
 - Tambm gosta de estudar tipos diversos, Monsieur Poirot?
Ou reserva o seu interesse para os grandes criminosos?
 - Madame, essa categoria no incluir muita
gente?
 Mrs. Allerton pareceu ligeiramente alarmada.
 - Fala srio?
 - Com o devido incentivo,  claro - terminou
Poirot.
 - Que, com certeza, varia?
 - Naturalmente.
 Mrs. Allerton hesitou, brincando-lhe um sorriso
nos lbios.
 - At mesmo eu?
 - As mes, madame, so as mais impiedosas,
quando os filhos esto em perigo.
 - Creio que  verdade - disse gravemente
Mrs. Allerton. - Sim, o senhor tem razo.
 Ficaram em silncio por alguns segundos; depois,
ela continuou, sorrindo:
 - Procuro imaginar crimes de acordo com o temperamento de
cada uma das pessoas do hotel.  muito
divertido... Simon Doyle, por exemplo?
 Poirot respondeu, sorrindo tambm:
 - Um crime muito simples; um caminho directo
para o seu objectivo. Nada de subtilezas.
 - E, naturalmente, fcil de ser descoberto?
 - Sim. No seria vergonhoso.
 - E Linnet?
 - Como a rainha, em Alice, no Pas das Maravilhas:
"Cortem-lhe a cabea." E pronto!
 - Claro. O divino poder da monarquia! Como no
caso da vinha de Naboth... E a rapariga perigosa...
Jacqueline de Bellefort? Poderia tornar-se assassina?
 Poirot hesitou por um ou dois segundos, depois
respondeu sem grande convico:
 - Sim, creio que sim.
 - Mas no tem a certeza?
 - No. Ela deixa-me perplexo, aquela pequena.
 - No creio que Mister Pennington fosse capaz de
matar, no acha tambm? Parece to seco, to dispptico, sem
sangue nas veias.
 - Mas, provavelmente, com um poderoso instinto
de conservao!
 - Sim, talvez. E a pobre Mistress Otterbourne,
com o seu eterno turbante?
 - Existe uma coisa que se chama vaidade.
 - Como motivo para o assassnio? - perguntou,
admirada, Mrs. Allerton.
 - Os motivos so s vezes muito banais, madame.
 - Quais os principais, Monsieur Poirot?
 - Dinheiro, principalmente. Com isto quero dizer
"lucro" em toda a extenso da palavra. E h tambm:
vingana, amor, medo... e dio, simplesmente. E filantropia...
 - Monsieur Poirot!
 - Oh, sim, madame. Conheci uma pessoa chamada... digamos
A... que foi assassinada por B, unicamente para que C fosse
beneficiada. Os crimes polticos geralmente podem ser assim
classificados. Uma pessoa  considerada nociva  civilizao 
e por esse motivo eliminada. Tais criminosos esquecem-se de que s Deus tem o direito de vida ou morte.
 Poirot falara em tom grave. Mrs. Allerton concluiu
calmamente:
 - Agrada-me essa opinio. Mas, por outro lado,
Deus escolhe os seus instrumentos.
 -  perigoso pensar assim, madame.
 Ela replicou, com intonao menos sria:
- Depois desta conversa, Monsieur Poirot, admiro-me de que
ainda haja um ser vivo no mundo.
 Levantou-se, acrescentando:
 - Temos de voltar. Vamos sair logo depois do almoo.
 Quando chegaram ao ancoradouro, viram o rapaz
de pulver de jogador de plo preparando-se para tomar o seu
lugar no barco. O italiano j ali estava instalado. Quando o
barqueiro nbio soltou a vela, Poirot
procurou, delicadamente, encetar conversa com o desconhecido.
 - H coisas maravilhosas no Egipto, no  verdade?
 O rapaz fumava um cachimbo mais ou menos barulhento. Tirou-o
da boca e disse, breve e enfaticamente, e, contra a
expectativa, em voz muito bem-educada:
 - Causam-me nojo.
 Mrs. Allerton, interessada, colocou o lorgnon no
nariz e fitou-o com ar encantado.
 - Sim? E a que se refere? - perguntou Poirot.
 - Tome por exemplo as Pirmides. Grandes blocos de intil
alvenaria, erguidos para satisfazer o desptico egosmo de um
rei obeso. Pense na multido de
homens que suaram e morreram ao constru-las. Fico
nauseado quando me lembro do sofrimento e tortura
que elas representam.
 Mrs. Allerton exclamou alegremente:
 - O senhor acharia prefervel no haver Pirmides, nem
Paternon, nem belos tmulos e templos, s
pela satisfao de saber que as criaturas tiveram trs
refeies por dia e morreram tranquilamente nos seus
leitos !
 O rapaz fitou-a de sobrolho carregado.
 - Acho que os seres humanos valem mais do que
as pedras.
 - Mas no duram tanto - observou Poirot.
 - Prefiro ver um operrio bem alimentado a admirar aquilo a
que chamam "obra de arte". O futuro 
que tem importncia, no o passado.
 Isto foi de mais para o Signor Richetti, que rompeu num
palavreado difcil de ser compreendido.
 O rapaz replicou apaixonadamente, dizendo francamente qual a
sua opinio sobre o capitalismo.
 Quando terminou o seu discurso, tinham chegado
ao cais do hotel.
 Mrs. Allerton murmurou animadamente: "Bom,
bom" - e desceu imediatamente. O rapaz atirou-lhe
um olhar venenoso.
 No trio do hotel, Poirot encontrou Jacqueline de
Bellefort, vestida de amazona. A rapariga inclinou-se
com um sorriso zombeteiro e disse:
 - Vou andar de jumento. Recomenda uma excurso s vilas
nativas, Monsieur Poirot?
 -  aonde pretende ir, mademoiselle? Eh bien, so
pitorescas, mas aconselho-a a no gastar muito dinheiro nas
curiosidades locais.
 - Que so mandadas daqui para a Europa? No,
no sou assim to ingnua.
 Com uma ligeira inclinao de cabea, ela saiu para
a claridade do Sol, l fora.
 Poirot acabou de arrumar as malas, fcil tarefa,
uma vez que as suas roupas estavam sempre na melhor
ordem possvel. Dirigiu-se em seguida para a sala de
jantar.
 Depois do almoo, o nibus do hotel levou at 
estao os hspedes que iam  Segunda Catarata. Tomariam ali o
expresso do Cairo a Shelll.
 Iam: Mrs. Allerton e o filho, Poirot, o rapaz de
calas de flanela e o italiano. Mrs. Otterbourne e a filha
tinham preferido a excurso  represa e a Philae;
tomariam o vapor em Shelll.
 O comboio trazia uns vinte minutos de atraso. Mas
finalmente chegou. Comeou a correria. Carregadores
nativos que tiravam as malas das carruagens esbarravam em
outros que carregavam a bagagem dos que
partiam. Finalmente, um tanto ofegante, Poirot viu-se
num compartimento com a sua bagagem, a dos Allerton e outra
completamente desconhecida, ao passo que
Tim e a me tinham ido parar a outra carruagem, com
o resto das suas malas.
 No compartimento do detective, estava uma senhora idosa, de
rosto enrugado, gola alta com barbas,
muitos brilhantes nos dedos, e, no rosto, uma expresso de
grande desprezo pelo resto da Humanidade.
 Lanou a Poirot um aristocrtico olhar e entrincheirou-se
por detrs de uma revista americana. Em frente
dela estava sentada uma jovem grandalhona, um tanto
desajeitada. Tinha olhos castanhos, submissos como os
de um co, cabelos em desalinho, e parecia ansiosa por
agradar. De vez em quando, a velha levantava o olhar
e em tom seco dava-lhe uma ordem qualquer.
 - Cornlia, rena as mantas. Quando chegarmos,
tome conta da minha mala. No permita que ningum a agarre.
No se esquea da minha faca de cortar papel.
 Viagem curta. Dez minutos depois chegavam ao
cais, onde estava atracado o S. S. Karnak. As duas
Otterbourne j se encontravam a bordo.
 O Karnak era menor do que o Papyrus ou o Ltus,
navios da Primeira Catarata, grandes de mais para passar pelos
canais da represa de Assuo. Os passageiros
subiram para bordo, indo logo procurar as suas acomodaes.
Como o navio no estava cheio, muitos tinham cabines no
tombadilho de passeio. Toda a parte fronteira desse tombadilho era ocupada por um salo envidraado, 
onde os passageiros podiam sentar-se para admirar o rio. No tombadilho de baixo, ficava a sala de fumo e o 
pequeno salo, e no tombadilho inferior a sala de jantar.
 Deixando as malas na cabina, Poirot voltou ao
tombadilho, para apreciar a partida, indo reunir-se a
Rosalie, que estava debruada na amurada.
 - Ento vamos para a Nbia! Est contente, mademoiselle?
 A jovem respirou profundamente e respondeu:
 - Estou, sim; tenho a impresso de que estamos
agora realmente longe de tudo.
 Fez um gesto com a mo, mostrando o rio na frente deles.
Espectculo em que havia qualquer coisa de
selvagem: o lenol de gua; os recifes sem vegetao
que desciam at  margem; aqui e ali, as runas de
uma casa abandonada. O cenrio tinha um encanto
melanclico, sinistro, mesmo.
 - Longe das criaturas - acrescentou Rosalie.
 - A no ser dos companheiros de viagem, mademoiselle?
 Ela encolheu os ombros, dizendo:
 - H qualquer coisa neste pas que me faz ficar...
m. Tudo o que ferve dentro de mim parece vir  tona... Tudo
to mal distribudo, to injusto...
 - Ser? A gente no pode julgar pelas aparncias.
 Rosalie murmurou:
 - Veja as mes de algumas pessoas... e veja a minha. Para
ela, no existe outro deus a no ser o Sexo,
e Salom Otterbourne  o seu profeta! - Interrompeu-se. E
depois: - Talvez eu no devesse ter dito isto.
 Poirot fez um gesto com ambas as mos.
 - Porque no? Estou habituado a ouvir muita coisa. Se, como
diz, est fervendo por dentro, como gelia no fogo, eh bien,
deixe que a espuma venha  superfcie, para que a gente possa
tambm tir-la com uma colher! - Poirot fez um gesto, de quem atirava qualquer coisa ao rio e acrescentou:
 - Pronto, j se foi!
 Rosalie no pde deixar de sorrir.
 - Que homem extraordinrio  o senhor! - murmurou. De
repente contraiu-se e exclamou: - Olhe
quem est aqui! Mistress Doyle e o marido! Eu no tinha a
menor ideia que tambm iam fazer esta viagem.
 Linnet acabara de sair de uma cabina que ficava na
parte central do tombadilho e Simon vinha logo atrs
dela. Poirot teve um leve sobressalto ao v-la aparecer
- to bela, to senhora de si. Atitude arrogante, feliz.
Simon tambm parecia outra pessoa. A boca rasgava-se-lhe 
num sorriso e parecia um colegial satisfeito.
 - Que maravilha! - disse, inclinando-se tambm
na amurada. - Acho que vou gostar muitssimo da
viagem: e voc, Linnet? No se tem impresso alguma
de viagem de turismo, parece que vamos conhecer o
corao do Egipto.
 Linnet respondeu vivamente:
 - Tem razo.  to... selvagem, se  que me exprimo bem.
 Ao dizer isto, passou a mo pelo brao de Simon, e
ele apertou-lha carinhosamente.
 - Estamos a largar, Lin.
 Realmente o navio afastava-se do cais. Tinha comeado a
viagem de sete dias - at  Segunda Catarata e de novo de
volta ao hotel.
 Atrs deles, ecoou uma gargalhada cristalina. Linnet deu 
uma sbita reviravolta. Jacqueline de Bellefort
estava ali, tendo no rosto uma expresso zombeteira.
 - Ol, Linnet; no pensei que viesse encontr-la
aqui. Julguei t-la ouvido dizer que ia ficar mais dez
dias em Assuo. Que surpresa!
 - Voc no... no... - balbuciou Linnet. Depois,
conseguindo um sorriso convencional: - Nem eu to-pouco
esperava v-la.
 - No?
 Jacqueline afastou-se para o outro lado do navio.
A mo de Linnet apertara com fora o brao do marido.
 - Simon... Simon...
 A expresso de prazer desaparecera da fisionomia
de Doyle. Via-se que estava furioso. Fechou os punhos, apesar
do esforo que fazia para se dominar.
 Os dois afastaram-se dali. Embora no voltasse a
cabea, Poirot percebeu algumas palavras soltas.
... Fugir... impossvel... poderamos...
 E depois, mais alta, a voz de Doyle, desesperada,
mas decidida:
 - No podemos fugir a vida inteira, Linnet: agora, temos que
seguir para diante.

 Algumas horas mais tarde. Anoitecera. Poirot estava sentado
no salo envidraado, admirando o panorama. O Karnak passava
por uma garganta do rio.
Os recifes desciam com uma espcie de ferocidade at
s guas que corriam entre eles.
 Estavam agora na Nbia.
 Poirot ouviu um rudo...
 Linnet Doyle apareceu a seu lado. Cruzava e descruzava as
mos e Poirot estranhou-lhe a expresso do
rosto; de criana assustada e perplexa. Foi ela a primeira a
falar:
 - Mister Poirot, estou com medo... com medo de
tudo. Nunca me senti assim. Estes recifes selvagens,
sombrios, nus... Para onde vamos? Que vai acontecer?
Tenho medo, repito. Toda a gente me odeia, no sei
porqu... fui sempre amvel, tenho procurado ajudar
os outros... e, no entanto, muita gente me odeia. Exceptuando
Simon, estou cercada de inimigos.  horrvel saber que h quem
nos deteste.
 - Mas que significa tudo isso, madame?
 - Nervos, talvez... mas tenho a impresso do perigo...
perigo  minha volta.
 Lanou um rpido olhar por sobre o ombro, depois disse
bruscamente:
 - Como ir acabar tudo isto? Estamos presos
aqui. Numa ratoeira. No h sada nenhuma. Temos
de continuar. Eu... no sei onde estou.
 Linnet sentou-se numa cadeira a seu lado. Poirot
fitou-a gravemente, tendo nos olhos uma expresso
compassiva.
 Linnet continuou:
 - Como pde ela saber que seguamos neste navio? Como pde
saber?
 Poirot abanou a cabea e respondeu:
 - Ela  inteligente, como a senhora sabe.
 - Tenho a impresso de que nunca poderei escapar-lhe.
 - Existe uma soluo. Admiro-me que ainda no
lhe tenha ocorrido... Afinal de contas, no seu caso,
madame, o dinheiro  de somenos importncia. Porque
no tomou o seu dahabiyah particular?
 Linnet pareceu ter dificuldade em explicar-se.
 - Se tivssemos sabido... mas naquela ocasio no
desconfivamos de coisa alguma... E  difcil... - Fez
uma pausa, e depois com sbita veemncia: - Oh, o
senhor no conhece metade das minhas dificuldades.
Preciso ser diplomata, com Simon...  to sensvel,
em matria de dinheiro. Queria que eu fosse com ele a
Espanha... queria pagar sozinho as despesas da viagem
de npcias. Como se isso tivesse importncia! Os homens so
uns tolos. Simon tem de se habituar a... viver
confortavelmente. S a meno de um dahabiyah o
perturbou: despesas desnecessrias e essa histria toda. Tenho
de educ-lo... aos poucos.
 Linnet ergueu os olhos e mordeu os lbios, achando que se
excedera nas confidncias. Levantou-se, dizendo:
 - Tenho de ir vestir-me. Desculpe-me, Mister Poirot, mas
parece-me que estive a dizer muitas tolices!



CAPTULO 7

 Usando um elegante e discreto vestido de noite, de
renda preta, Mrs. Allerton desceu para a sala de jantar. 
O filho encontrou-a  porta.
 - Desculpe-me; pensei que estivesse atrasado.
 - Onde sero os nossos lugares?
 O salo estava repleto de mesinhas. Mrs. Allerton
ficou parada,  espera que o Steward, ocupado em acomodar um
grupo grande, pudesse vir atend-la.
 - Por pensar nisso, convidei aquele homenzinho,
Hercule Poirot, para se sentar  nossa mesa.
 - Mam! - exclamou Tim, parecendo realmente
chocado e descontente.
 Mrs. Allerton fitou-o, admirada. Em geral, Tim
era to cordato...
 - Incomoda-te, meu filho?
 - Claro que me incomoda.  um sujeito sem eira
nem beira.
 - Oh, no, Tim! No concordo contigo.
 - De qualquer maneira, que interesse temos ns
em conviver com um desconhecido? Num vaporzinho
deste tamanho,  aborrecido! Teremos a companhia
dele pela manh,  tarde e  noite.
 - Desculpa-me - disse Mrs. Allerton, parecendo
realmente compungida. - Pensei que achasses muito
divertido. Mister Poirot, afinal de contas, deve ter tido
uma vida cheia de peripcias. E tu gostas de romances
policiais!
 - Preferia que a me no tivesse essas ideias luminosas -
resmungou Tim. - Creio que no h agora
nada a fazer!
 - Para ser franca, no vejo como.
 - Oh, bom, ento  melhor conformar-me.
 O steward aproximou-se, conduzindo-os a uma mesa. No rosto
de Mrs. Allerton, havia uma expresso
perplexa. Em geral, Tim era muito cordato e bem-humorado.
Aquela exploso no estava de acordo com
o seu temperamento; ele no sentia a habitual averso
dos Ingleses pelos estrangeiros. Era cosmopolita...
"Oh, pacincia", pensou ela com um suspiro. "Os homens so
incompreensveis! At mesmo os mais chegados a ns tm
reaces imprevistas."
 Tinham acabado de se sentar quando Poirot apareceu,
atravessando rapidamente a sala. Parou, apoiando
a mo no encosto da terceira cadeira.
 - Permite, realmente, madame, que me aproveite
do seu convite?
 - Naturalmente. Sente-se, Mister Poirot.
 -  muita gentileza sua.
 Mrs. Allerton teve a desagradvel impresso de
que, ao sentar-se, ele lanara um rpido olhar a Tim, e
que o rapaz no conseguira esconder totalmente o
descontentamento que sentia.
 Mrs. Allerton procurou criar um ambiente agradvel. Ao
tomarem a sopa, apanhou a lista de passageiros, que estava
sobre a mesa.
 - Vamos ver quem conhecemos - props ela alegremente. - Isto
 sempre divertido.
 Comeou a ler.
 - Mistress Allerton, Mister Tim Allerton. Bom,
at aqui no  difcil. Miss de Bellefort. Est na mesa
das Otterbourne... Ser possvel que ela e Rosalie estejam
agora a dar-se bem? Em seguida, vem o Doutor
Bessner. Quem  este Doutor Bessner?
 Ao dizer isto, ergueu os olhos para uma mesa a
que estavam sentados quatro homens.
 - Na minha opinio, deve ser aquele gordo de bigodinho e
cabea quase rapada - disse Poirot. - Alemo, com certeza.
Parece gostar da sopa.
 No havia dvida que dali podiam ouvir o rudo
que o homem fazia ao comer.
 Mrs. Allerton continuou a ler.
 - Miss Bowers? Vamos adivinhar quem  Miss Bowers? H trs
ou quatro mulheres... Bom, por enquanto
vamos deix-la de lado. Mister e Mistress Doyle. So,
sem dvida nenhuma, os mais importantes. Ela  muito bonita, e
que maravilhoso vestido que ela tem!
 Tim voltou-se ao ouvir o comentrio. Linnet, Simon e
Pennington ocupavam uma mesa de canto. Linnet estava de
branco, tendo como nica jia um colar de prolas.
 - A mim, parece-me um vestido muito simples - disse Tim. -
Apenas um pedao de fazenda com uma
espcie de corda na cintura.
 - Sim. Uma descrio muito masculina de um
modelo de oitenta guinus.
 - No posso compreender como  que as mulheres pagam 
tanto pelas suas roupas! - comentou Tim.
-  um verdadeiro absurdo.
 Mrs. Allerton continuou a estudar os companheiros de viagem.
 - Mister Fanthorp deve ser aquele rapaz srio,
que nunca diz uma palavra, e que est  mesa do alemo. Rosto
simptico; desconfiado, mas inteligente.
 - Sim, o rapaz  inteligente - concordou Poirot.
 - Quase no fala, mas ouve atentamente e observa tudo. Os
olhos dele no perdem nada... no  do tipo
que a gente espera encontrar viajando por prazer nesta
parte do Globo. Gostaria de saber o que faz por aqui.
 - Mister Ferguson - leu Mrs. Allerton. - Tenho um palpite de
que Ferguson  o nosso amigo comunista. Mistress Otterbourne,
Miss Otterbourne. Sabemos quem so. Mister Pennington? Alis:
tio Andrew!  um homem bonito...
 - Mam!... - admoestou Tim.
 - Acho que  bonito, de uma maneira seca - completou ela. -
Queixo um tanto cruel. Com certeza
daquele tipo a que se referem os jornais, que especula
em Wall Street... Garanto que  riqussimo! Em seguida: Mister
Hercule Poirot, cujas enormes qualidades
esto sendo desperdiadas. No pode arranjar um crime para
Mister Poirot, Tim?
 A pilhria, dita com boa inteno, s serviu para
aborrecer mais ainda o rapaz. Contraiu as sobrancelhas
e Mrs. Allerton continuou vivamente:
 - Mister Richetti. O nosso amigo italiano, o arquelogo.
Depois, Miss Robson, e finalmente Miss Van
Schuyler. Esta ltima  fcil de adivinhar. A fessima
americana que, com certeza, se julga dona do navio e
que provavelmente vai mostrar-se muito esquiva e no
dirigir a palavra seno aos muito privilegiados! Mas
 extraordinria, sob certo ponto de vista, no  verdade? Uma
espcie de objecto antigo... As duas mulheres em sua companhia
devem ser Miss Bowers e Miss Robson. Uma delas, a magra de culos, com certeza  a secretria; a 
outra, coitada, que parece divertir-se apesar de ser tratada como escrava, deve ser alguma parente pobre. O 
meu palpite  que Robson 
a secretria, e Bowers a parente pobre.
 - Engana-se, mam - declarou Tim, que recuperara o bom
humor.
 - Como  que o sabes?
 - Estava no salo antes do jantar e ouvi a velhota
dizer  dama de companhia: "Onde est Miss Bowers?
V imediatamente cham-la, Cornlia. " E l foi a rapariga
como um cozinho obediente.
 - Preciso de conhecer Miss Van Schuyler - disse
Mrs. Allerton com ar pensativo.
 Tim sorriu novamente.
 - Ela trat-la-ia com frieza, mam.
 - No importa. Prepararei o terreno, sentando-me a seu lado
e falando em tom baixo e bem-educado
(mas perfeitamente perceptvel) de todos os titulares,
parentes e amigos nossos, de que me puder lembrar.
Creio que uma ligeira referncia ao teu primo em terceiro
grau, o duque de Glasgow, conseguir maravilhas.
 - Como  pouco escrupulosa, mam!
 Os acontecimentos, depois do jantar, no deixaram
de ter o seu lado cmico, para quem gostasse de estudar a
natureza humana.
 O rapaz socialista (que, conforme julgara Mrs. Allerton, era
realmente Mr. Ferguson) retirou-se para a
sala de fumar, desdenhando a companhia dos que tinham ido para
o salo envidraado.
 Conforme era de esperar, Miss Van Schuyler escolheu o melhor
e mais resguardado canto, avanando
decidida para a mesa  qual estava sentada Mrs. Otterbourne.
 - A senhora h-de desculpar-me, mas creio que
deixei aqui o meu tricot.
 Diante daquele olhar hipnotizador, a senhora de
turbante teve que bater em retirada. Miss Van Schuyler
instalou-se ali com a sua comitiva. Mrs. Otterbourne 
sentou-se perto, de vez em quando aventurando
uma ou outra observao, mas foi tratada com tal frieza que
teve logo de desistir. Miss Van Schuyler continuou ali
sentada, em esplndido isolamento. Os Doyle
procuraram a companhia dos Allerton; o Dr. Bessner
ficou ao lado do silencioso Mr. Fanthorp. Jacqueline
de Bellefort estava sozinha, com um livro na mo. Rosalie
Otterbourne parecia inquieta... Uma ou duas vezes, Mrs.
Allerton dirigiu-lhe a palavra, procurando
atra-la para o seu grupo, mas a rapariga respondeu
sem a menor cordialidade.
 Mr. Poirot passou a noite ouvindo pormenores da
carreira literria de Mrs. Otterbourne.
 Ao dirigir-se para a sua cabina, naquela noite, Poirot
encontrou-se com Jacqueline de Bellefort. A rapariga estava
debruada na amurada. Voltou-se, ao rudo
de passos, e Poirot no pde deixar de notar a expresso de
profunda infelicidade do seu rosto. A despreocupao, o
malicioso desafio, o sombrio triunfo tinham desaparecido.
 - Boa noite, mademoiselle.
 - Boa noite, Mister Poirot. - Ela pareceu hesitar, depois
perguntou: - Ficou admirado por me ver
aqui?
 - No tanto admirado como pesaroso... muito pesaroso -
respondeu Poirot em tom grave.
 - Quer dizer... pesaroso por minha causa?
 - Sim, foi o que eu quis dizer. A senhora escolheu o caminho
mais perigoso... Da mesma maneira
que ns, neste navio, inicimos uma viagem, tambm
a senhora partiu numa viagem s sua, navegando por
entre escolhos, num rio tormentoso, ao encontro de
correntes perigosas e desconhecidas...
 - Porque diz tudo isso?
 - Porque  verdade... A senhora cortou as amarras que a
prendiam  segurana. Duvido que possa
agora voltar, mesmo que fosse esse o seu desejo.
 -  verdade... - murmurou ela lentamente.
E depois, deitando a cabea para trs: - Oh, bom,
cada um de ns tem de acompanhar a sua estrela para
onde quer que ela nos conduza.
 - Cuidado, mademoiselle, que no seja uma estrela
falsa!
 Ela deu uma gargalhada e imitou a voz de papagaio
dos rapazes que ofereciam jumentos:
 - Esta estrela muito m, senhor! Esta estrela cai...
 Poirot acabara de pegar no sono, quando um murmrio de vozes
o despertou.
 Reconheceu a voz de Simon Doyle, repetindo as
mesmas palavras que dissera quando o navio sara de
Shelll:
 - Agora temos de seguir para diante...
 "Sim, agora temos de seguir para diante" - murmurou Poirot
de si para si.
 No estava nada satisfeito.



CAPTULO 8

Na manh seguinte, o navio chegou cedo a Es-Sebua. Toda
sorridente, tendo na cabea um chapu
de aba larga e esvoaante, Cornlia Robson foi uma
das primeiras a descer. No era o seu forte fazer pouco
dos outros. Tinha bom gnio e estava sempre mais
disposta a notar as qualidades do que os defeitos dos
outros. No estremeceu ao ver Poirot, de fato branco,
camisa cor-de-rosa, gravata borboleta e chapu branco, como
provavelmente teria estremecido horrorizada
a muito aristocrtica Miss Van Schuyler.
 Enquanto caminhavam lado a lado, por uma avenida ladeada de
esfinges, respondeu amavelmente  frase
com que ele tentou entabular conversa.
 - As suas companheiras no vm a terra, visitar o
templo?
 - Bom, a prima Marie, isto , Miss Van Schuyler,
nunca se levanta cedo. Precisa de ter muito cuidado
com a sua sade. E, naturalmente, queria que Miss Bowers, a
enfermeira, ficasse para a atender em diversas
coisas. Disse tambm que este no  um dos templos
mais interessantes. Mas foi muito amvel, permitindo
que eu descesse...
 - Muito amvel - disse Poirot secamente.
 A ingnua Cornlia no percebeu a ironia.
 - Oh, ela  muito boa. Foi uma maravilha convidar-me para
esta viagem. Acho que sou uma criatura
de sorte! Nem pude acreditar, quando ela disse  mam que
pretendia trazer-me.
 - E tem-se divertido, mademoiselle?
 - Oh, muitssimo. Conheci a Itlia: Veneza, Pdua, Pisa.
Depois o Cairo... S no Cairo  que a prima
Marie no passou muito bem e eu no pude sair.
E agora esta viagem a Uadi Halfa...
 Poirot comentou, sorrindo:
 - Vejo que tem muito bom gnio, mademoiselle.
 Ao dizer isto, olhou pensativo para Rosalie, que
caminhava solitria  frente deles.
 -  muito bonita, no ? - perguntou Cornlia,
acompanhando o olhar do detective. - Talvez um
pouco reservada de mais. Muito inglesa, disso no h
dvida. Mas  menos bonita que Mistress Doyle.
Acho que Mistress Doyle  a mulher mais linda, mais
elegante que jamais vi na minha vida! E o marido
parece ador-la, no  verdade? Acho aquela senhora
de cabelos grisalhos muito distinta. Creio que  prima
de um duque. Estava a falar sobre ele, perto de ns
ontem  noite. Mas no creio que tenha um ttulo.
 E foi falando, at que o dragomano fez sinal para
que todos parassem. O homem anunciou:
 - Este templo foi dedicado ao deus egpcio Amon
e ao deus Sol R-Harakhte, que tem por smbolo uma
cabea de gavio...
 A voz montona continuou. O Dr. Bessner, de
Baedeker em punho, falava consigo mesmo em alemo.
Preferia orientar-se pelo que estava escrito...
 Tim Allerton no se reunira ao grupo. E a me
procurava quebrar a reserva do glido Mr. Fanthorp.
Andrew Pennington, de brao dado com Linnet, ouvia
atentamente, parecendo muito interessado nas explicaes do
guia.
 - Um metro e oitenta e cinco centmetros de altura, ento? -
disse Pennington, admirado. - Parece-me um pouco menos. Que
tipo, este Ramss! Que energia!
 - Um bom negociante, tio Andrew - comentou
Linnet.
 Pennington fitou-a com ar aprovador.
 - Est muito bem-disposta, Linnet. Tenho estado
preocupado consigo, ultimamente. Andava muito abatida.
 Rindo e conversando, o grupo voltou para bordo.
De novo o Karnak cortou as guas do Nilo. O cenrio
era agora menos rido. Havia palmeiras, campos cultivados.
 A mudana de panorama pareceu trazer certo alvio  opresso
dos passageiros. Tim Allerton recuperara o bom humor. Rosalie
estava menos reservada. Linnet parecia quase despreocupada...
 Pennington disse-lhe:
 -  falta de tacto falar em negcios numa viagem
de npcias, mas h uma ou duas coisas...
 - Mas, naturalmente, tio Andrew! - exclamou
Linnet, voltando imediatamente a ser mulher de negcios. - O
meu casamento traz algumas modificaes,
 lgico.
 - Justamente. Quando lhe convier, queria que assinasse
alguns documentos.
 - Porque no agora?
 Andrew Pennington lanou um olhar  sua volta.
Eram os nicos, naquele canto do salo envidraado.
Quase todos estavam fora, no pedao de tombadilho
que ficava entre o salo e as cabinas. Alm deles, estavam
ali: Mr. Ferguson, tomando cerveja numa mesinha do centro, de
pernas estendidas e usando as mesmas pouco limpas calas de
flanela, e assobiando nos intervalos entre um gole e outro; Mr. Poirot sentado na parte fronteira, muito 
atento ao panorama; Miss Van Schuyler, a um canto, lendo um livro sobre o Egipto.
 - ptimo - disse Pennington.
 Saiu do salo.
 Linnet e Simon sorriram um para o outro - sorriso lento, que
levou alguns minutos para se definir.
 - Tudo bem, querida?
 - Sim, tudo bem. Engraado como j no me sinto atormentada!
 Pennington voltou, trazendo consigo uma poro
de documentos escritos em letra cerrada.
 - Deus do Cu! - exclamou Linnet. - Tenho
de assinar tudo isso?
 Pennington pareceu compungido.
 - Sei que  aborrecido para si, mas eu gostaria
que os seus negcios ficassem em ordem. Primeiro, o
aluguer da propriedade da Quinta Avenida... Depois
a concesso daqueles terrenos no Oeste...
 Continuou falando, enquanto ia pondo em ordem
os papis.
 Simon bocejou.
 Nisto, a porta que dava para o tombadilho abriu-se
e Mr. Fanthorp apareceu. Examinou o salo com ar
despreocupado, dirigindo-se em seguida para onde estava
Poirot, ali ficando a apreciar as guas azuladas e a
areia amarela...
...assine aqui - concluiu Pennington, estendendo uma folha
de papel sobre a mesa e indicando
um espao em branco.
 Linnet pegou no documento e comeou a l-lo.
Voltou de novo  primeira pgina; depois pegou na caneta que
Pennington colocara sobre a mesa e assinou:
- Linnet Doyle...
 Pennington afastou o papel e apresentou-lhe outro.
 Fanthorp encaminhou-se despreocupadamente para aquele lado.
Olhou pela janela lateral, como se
qualquer coisa na margem lhe tivesse chamado a ateno.
 -  apenas a transferncia - disse Pennington a
Linnet. - No precisa de ler.
 Mas Linnet examinou rapidamente o documento.
Pennington estendeu outra folha, que Linnet leu com
ateno.
 - Est tudo em perfeita ordem - declarou o americano. - Nada
de interessante. Terminologia legal,
apenas.
 Simon bocejou novamente, dizendo:
 - Minha querida, no vai ler tudo isso, pois no?
Levar at  hora do almoo, ou talvez mais.
 - Leio sempre tudo at ao fim - disse Linnet. - Aprendi isto
com meu pai. Ele dizia que s vezes podia haver um engano
involuntrio.
 Pennington disse, com uma gargalhada um tanto
spera:
 - A senhora teve sempre boa cabea para os negcios, Linnet.
 -  muito mais cautelosa do que eu - disse Simon, rindo. -
Nunca li um documento na minha
vida! Assino onde me mandem assinar, na linha de
pontinhos, e pronto!
 -  um desleixo - reprovou Linnet.
 - No tenho feitio para negcios - disse Simon
jovialmente. - Nunca tive. Dizem-me para assinar e
eu assino.  muito mais simples.
 Andrew Pennington fitava-o, pensativamente. Disse em tom
seco, acariciando o lbio superior:
 - Um tanto arriscado, s vezes, no, Doyle?
 - Tolice! No sou destes sujeitos que acham que
toda a Humanidade est pronta a passar-nos a perna.
Sou uma criatura confiante, sabe, e acho que vale a
pena, pois quase nunca me arrependo.
 De repente, com grande surpresa de todos, o silencioso Mr.
Fanthorp voltou-se, dirigindo-se a Linnet:
 - Espero que no considere impertinncia da minha parte, mas
a senhora h-de permitir-me que lhe
diga o quanto admiro a sua competncia. Na minha
profisso (sou advogado) tenho notado que, infelizmente, as
senhoras so em geral pouco cautelosas.
Achei admirvel ouvi-la dizer que nunca assina um documento
sem primeiro o ler at o fim. Admirvel!
 Inclinou-se ligeiramente; depois, muito vermelho,
voltou-se para de novo contemplar o Nilo.
 Linnet balbuciou, hesitante:
- Eu... agradeo-lhe...
 Mordeu os lbios para conter o riso. Com que solenidade
falara o rapaz!
 Pennington parecia deveras aborrecido. Simon no
sabia se devia ficar tambm aborrecido ou achar graa.
 As orelhas de Mr. Fanthorp continuavam muito
vermelhas.
 - O prximo, por favor - disse Linnet ao seu
procurador.
 Mas o mau humor do americano no se dissipara.
 - Talvez seja prefervel deixarmos para outra ocasio -
disse ele secamente. - Como... hum... como
diz Doyle, se a senhora quiser ler tudo, ficaremos aqui
at  hora do almoo. No podemos perder a maravilha deste
cenrio. E, de qualquer maneira, os dois primeiros documentos
eram os mais urgentes. Mais tarde trataremos do resto.
 - Vamos para fora - sugeriu Linnet. - Est
aqui muito calor.
 Saram os trs. Hercule Poirot voltou a cabea,
pensativo. O seu olhar pousou-se, durante alguns minutos,
sobre as costas de Mr. Fanthorp, indo depois
fixar-se em Mr. Ferguson, que continuava na sua posio
despreocupada, assobiando baixinho.
 Finalmente, o detective olhou para a empertigada
Miss Van Schuyler, que continuava sozinha no seu
canto. A velhota fulminava Ferguson com o olhar.
 A porta abriu-se e Cornlia apareceu, muito esbaforida.
 - Demorou-se muito - disse a velha, secamente.
 - Onde esteve?
 - Desculpe-me, prima Marie. A l no estava onde a senhora
me disse que a procurasse.
 - Minha amiga, voc nunca encontra nada! Reconheo-lhe a boa
vontade, mas precisa de fazer um esforo para ser mais
inteligente e mais esperta. Basta
concentrar-se um pouco mais.
 - Sinto muito, prima Marie. Sei que sou muito
tola.
 - Pois esforce-se por no o ser. Convidei-a para
esta viagem e espero em troca um pouco de ateno.
 Cornlia corou.
 - Desculpe-me, prima Marie.
 - E onde est Miss Bowers? H dez minutos que
eu devia ter tomado as minhas gotas! Faa o favor de
ir procur-la imediatamente. O mdico disse que 
importantssimo...
 Nesse momento, Miss Bowers apareceu, trazendo
um copo com o remdio.
 - As suas gotas, Miss Van Schuyler.
 - Eu devia ter tomado este remdio h dez minutos - exclamou
a velhota secamente. - Se h coisas
que me irritam, a falta de pontualidade  uma delas.
 - Perfeitamente - concordou Miss Bowers. Consultou o relgio
de pulso e declarou: - Falta meio minuto para as onze.
 - Pelo meu relgio so onze e dez.
 - Poder verificar que o meu est certo.  uma
ptima marca. No se adianta nem se atrasa um segundo.
 Miss Bowers continuava imperturbvel.
 Miss Van Schuyler tomou o remdio e disse asperamente:
 - Estou muito pior.
 - Sinto muito, Miss Van Schuyler.
 Apesar disso, Miss Bowers no parecia demasiado
pesarosa. A sua atitude era completamente desinteressada.
Dera, maquinalmente, a resposta que devia dar.
 - Est quente de mais aqui - disse Miss Van
Schuyler. - Arranje-me uma cadeira no tombadilho,
Miss Bowers. E voc, Cornlia traga o meu tricot, mas
no v deix-lo cair! Depois quero que me desmanche
uma meada.
 A pequena procisso saiu.
 Mr. Ferguson suspirou, mudou de posio e observou para os
circunstantes:
 - Cus, como eu gostaria de torcer o pescoo a esta
criatura!
 Poirot perguntou, em tom interessado:
 -  um tipo que lhe desagrada, hem?
 - Desagrada? Se desagrada! Que bem faz esta
mulher a quem quer que seja? Nunca trabalhou, nunca levantou
um dedo para ajudar ningum. Aproveitando-se sempre dos
outros...  uma parasita... e uma
parasita bem pouco simptica, ainda por cima. H
muita gente neste navio que no faria falta, se desaparecesse
do mundo!
 - Acha?
 - Claro que acho. Aquela rapariga, por exemplo,
que estava h pouco ali, a assinar transferncias de aces e
fazendo-se importante! Centenas e centenas de
criaturas matando-se por uma ninharia para que ela
possa usar meias de seda e vestidos luxuosos! Uma das
mulheres mais ricas de Inglaterra, disseram-me, e uma
que nunca ajudou ningum.
 - Quem lhe disse que  uma das mulheres mais
ricas da Inglaterra?
 Mr. Ferguson fitou Poirot com ar belicoso e replicou:
 - Um homem com quem o senhor no gostaria de
falar! Um homem que trabalha com as suas prprias
mos e no se envergonha disso! Muito diferente dos
seus bonecos bem vestidos que no valem nada.
 O olhar do rapaz examinou com desagrado a gravata borboleta
e a camisa cor-de-rosa de Poirot.
 - Pois eu, eu trabalho com a inteligncia e no tenho
vergonha disso! - exclamou Poirot devolvendo o
olhar do socialista.
 - Deviam ser mortos  bala, todos eles! - rosnou
o homem.
 - Meu caro, que paixo tem pela violncia!
 - Diga-me: que bem se pode conseguir sem ela?
A gente tem de quebrar e destruir, antes de edificar
coisa que preste.
 -  certamente mais fcil, e mais barulhento e
mais espectacular!
 - Que faz o senhor para ganhar a vida? Nada, garanto. Com
certeza, considera-me um homem mdio...
 - De maneira nenhuma! Estou por cima! - declarou Poirot com
ligeira arrogncia.
 - Quem  o senhor?
 - Sou detective - disse Poirot com o ar modesto
de quem dissesse: "Sou rei."
 - Deus do Cu! - exclamou o rapaz parecendo
realmente atnito. - No me diga que aquela rapariga arrasta
atrs de si um pateta de um polcia? Tem
assim tanto cuidado com a pele?
 - No tenho relaes algumas com Mister e Mistress Doyle -
declarou Poirot secamente. - Viajo por prazer.
 - Divertindo-se com umas frias, hem?
 - E o senhor? No est tambm de frias?
 - Frias? - repetiu Mr. Ferguson com ar de desprezo. -
Estudo as condies da vida.
 - Muito interessante - disse Poirot, saindo dali
discretamente e dirigindo-se para o tombadilho.
 Miss Van Schuyler instalara-se no melhor canto.
Cornlia estava ajoelhada em frente dela, com uma
meada de l  volta dos braos estendidos. Miss Bowers,
sentada muito direita, lia o Saturday Evening Post.
 Poirot vagueou por ali, indo at ao tombadilho de
estibordo. Ao passar pela popa, quase colidiu com
uma mulher, que se voltou assustada para ele. Morena,
provocante, tipo latino, vestida de preto. Estivera
a conversar com um homem fardado, que parecia ser
um dos maquinistas. Havia uma estranha expresso no
rosto de ambos - de culpa e alarme. Poirot ficou a fazer
conjecturas sobre o assunto que tinham estado a
discutir...
 Continuou o seu caminho. Abriu-se a porta de
uma cabina e, metida num roupo de cetim escarlate,
Mrs. Otterbourne quase lhe caiu nos braos.
 - Desculpe-me - disse ela. - Meu caro Mister Poirot,
desculpe-me! O balano... O balano, o senhor
compreende! Nunca fui bom marinheiro. Se ao menos
o navio parasse de jogar... - Agarrou o brao do detective e
continuou: - Nunca me sinto bem, a bordo.
E fico aqui, sozinha, horas e horas... Aquela minha filha...
no tem nenhuma considerao... nenhum cuidado com a sua pobre
me, que tudo tem feito por
ela. - Aqui, Mrs. Otterbourne comeou a chorar,
mas sem interromper as queixas. - Tenho trabalhado
para ela como uma escrava, como uma verdadeira escrava. Uma
grande amoureuse... que eu poderia ter
sido! Uma grande amoureuse! Sacrifiquei tudo... ningum se
incomoda! Mas direi a todo o mundo... agora
mesmo... como minha filha me abandona...
 Fez um movimento para a frente, mas Poirot procurou det-la
delicadamente.
 - Irei procur-la, madame. O rio est agitado.
A senhora poderia ter sido varrida pela borda fora.
 Mrs. Otterbourne fitou-o com ar incrdulo.
 - Acha?
 - Sem dvida nenhuma.
 Poirot conseguiu o seu intento. Mrs. Otterbourne
parecia vacilar, mas depois entrou, tropeando, na cabina.
 As narinas de Poirot estremeceram uma ou duas
vezes. Depois, foi procurar Rosalie, que estava sentada entre
Tim e Mrs. Allerton.
 - Sua me reclama a sua presena, mademoiselle.
 A jovem estivera a rir-se, feliz e despreocupada.
 Uma sombra passou-lhe pelo rosto... Lanou um olhar
suspeito ao detective e saiu apressadamente dali.
 - No posso compreender esta menina - disse
Mrs. Allerton. - Varia tanto! Mostra-se um dia amvel... e no
outro francamente indelicada.
 - Completamente estragada e mal-humorada - declarou Tim.
 Mrs. Allerton abanou a cabea e replicou:
 - No o creio. Na minha opinio,  muito infeliz.
 Tim encolheu os ombros.
 - Oh, bom, com certeza todos ns temos os nossos
aborrecimentos - disse ele em tom seco e duro.
 Neste momento, ouviu-se o som de um gongo.
 - Almoo! - exclamou Mrs. Allerton, encantada.
 - Estou a morrer de fome.
 Naquela noite, Poirot notou que Mrs. Allerton conversava com
Miss Van Schuyler. Ao passar por ali, viu a
me de Tim piscar os olhos disfaradamente para ele.
 - Naturalmente, no castelo de Cafries... O duque... - dizia
ela.
 De folga por algum tempo, Cornlia estava no
tombadilho, ouvindo o Dr. Bessner, que, com frases
inspiradas, lhe falava sobre as coisas do Egipto. A rapariga
parecia encantada.
 Debruado na amurada, Tim dizia:
 - De qualquer maneira,  um mundo infame...
 - Algumas pessoas tm tudo. No  justo - replicou Rosalie.
 Poirot suspirou.
 Ainda bem que j no era novo...



CAPTULO 9

Naquela manh de segunda-feira, foram ouvidas
vrias exclamaes de prazer no tombadilho do Karnak. O navio
estava ancorado; em frente dele podia
ver-se, banhado pelo Sol da manh, um grande templo
talhado na rocha. Quatro enormes figuras fitavam
eternamente o Nilo e o nascente.
 Cornlia exclamou, entusiasmada:
 - Oh, Mister Poirot, isto  uma maravilha! Quero
dizer... So to grandes e serenos... Olhando para eles
a gente sente-se to pequena... como um insecto... e
nada parece ter importncia, no  verdade?
 Mr. Fanthorp, que estava perto deles, murmurou:
 - Sim... hummmm...  realmente impressionante.
 - Que colosso, hem? - disse Simon Doyle, aproximando-se. E
em tom confidencial, dirigindo-se a
Poirot: - Sabe uma coisa, no sou muito amigo de visitar
templos e admirar vistas, mas um espectculo como este
impressiona, empolga, se  que compreende o
que quero dizer. Aqueles faras devem ter sido uns
sujeitos extraordinrios.
 Os outros afastaram-se. Simon baixou a voz e continuou:
 - Estou satisfeitssimo por ter feito esta viagem.
 As nuvens dissiparam-se. Extraordinrio que isto tenha
acontecido, mas  verdade. Os nervos de Linnet
voltaram ao normal. Diz ela que  porque enfrentou
finalmente a situao.
 - Acho muito provvel - declarou Poirot.
 - Diz que, quando viu Jackie no navio, sentiu um
choque horrvel. Mas depois... sem saber como, deixou de se
importar com isso. Combinmos no a evitar
mais. Enfrentaremos Jackie no seu prprio campo,
mostrando-lhe que a sua atitude ridcula j no nos
impressiona.  apenas falta de dignidade da parte dela; nada
mais do que isso. Pensou que iramos atormentados, enervados,
mas... Bom, agora j no nos
impressionamos. Que isto lhe sirva de lio!
 - Muito bem - disse Poirot, com ar pensativo.
 - E, portanto, est tudo em ordem, no  verdade?
 - Sim, sim...
 Linnet surgiu neste momento, bela e sorridente,
de vestido de linho cor de damasco.
 Saudou Poirot sem grande entusiasmo, com uma
ligeira inclinao de cabea; depois levou o marido
dali.
 Poirot sorriu intimamente, reconhecendo que a sua
atitude crtica no fora muito apreciada. Linnet estava
acostumada a ser admirada, tanto pela sua pessoa como pelos
seus actos. Hercule Poirot cometera um crime de
lesa-majestade.
 Mrs. Allerton veio procur-lo.
 - Que diferena, nesta jovem! - murmurou. - Parecia
aborrecida, nada feliz, em Assuo. Hoje est
to contente que a gente tem medo at que ela esteja...
 Antes que Poirot pudesse responder, foi feita a
chamada para todos se reunirem. O guia oficial levou
os passageiros para terra, para visitarem Abu Simbel.
 Poirot estava agora ao lado de Andrew Pennington.
 -  esta a sua primeira viagem ao Egipto? - perguntou ao
americano.
 - No. Estive aqui em 1923. Isto , estive no
Cairo. Mas  a primeira vez que fao esta viagem pelo Nilo.
 - Veio pelo Carmanic, creio eu? Pelo menos foi o
que me disse Mistress Doyle.
 Pennington lanou ao detective um olhar penetrante e
respondeu:
 - Vim, sim.
 - Estive a pensar que talvez o senhor tenha conhecido uns
amigos meus que estavam tambm a bordo: a famlia Rushington
Smith.
 - No me lembro de ningum com esse nome.
O navio estava cheio e tivemos mau tempo: muitos
dos passageiros quase no saram das cabinas. E, de
qualquer maneira, a viagem  to curta que a gente
no chega a saber quem est ou no a bordo.
 - Sim, tem razo. Que agradvel surpresa, encontrar-se com
Mistress Doyle e o marido! No tinha a
menor ideia de que estavam casados?
 - No. Mistress Doyle tinha-me escrito, mas a
carta chegou  Amrica depois de eu ter partido, e foi-me
reenviada de l. S a recebi alguns dias depois do
nosso inesperado encontro no Cairo.
 - Conhece Mistress Doyle h muitos anos, no 
verdade?
 - Oh, sim, Mister Poirot. Conheo Linnet Ridgeway desde que
era deste tamanho - disse ele, fazendo
um gesto para ilustrar o que dissera. - O pai dela e
eu ramos grandes amigos. Um homem extraordinrio, Melhuish
Ridgeway, e que teve grande xito na vida.
 - A filha herdou uma fortuna considervel, pelo
que ouvi dizer... Oh, pardon, no estou a ser muito
discreto!
 Andrew Pennington sorriu ligeiramente.
 - Oh, isso no  segredo. Sim, Linnet  uma mulher muito
rica.
 - Creio, no entanto, que a ltima baixa lhe afectou o valor
das aces, por mais seguras que sejam?
 Pennington levou um ou dois segundos para responder:
 - Isso, naturalmente, , at certo ponto, verdadeiro. As
coisas esto muito difceis, hoje em dia.
 - Parece-me, no entanto, que Mistress Doyle tem
boa cabea para os negcios - murmurou Poirot.
 - Tem razo. Sim, tem razo. Linnet  uma mulher prtica e
inteligente.
 Pararam. O guia comeou a falar sobre o templo
construdo pelo grande Ramss. As quatro gigantescas
imagens do prprio Ramss, talhadas na rocha, duas
de cada lado da entrada, pareciam encarar o pequeno
grupo de turistas.
 Desdenhando as explicaes do dragomano, Richetti 
examinava a base dos gigantes, onde se viam em
relevo as imagens dos escravos negros e srios.
 Quando entraram no templo, pareceu experimentarem todos uma
sensao de tranquilidade e paz.
O guia continuava a chamar a ateno de todos para as
imagens em relevo, de colorido vivo, nas paredes internas, mas
os turistas separaram-se em grupos de
duas ou trs pessoas.
 Em alemo sonoro, o Dr. Bessner lia o seu Baedeker,
parando de vez em quando para traduzir uma passagem
ou outra para Cornlia, que docilmente se conservava a
seu lado. Mas no por muito tempo... Miss Van Schuyler entrou
pelo brao da fleumtica Miss Bowers e ordenou: "Venha c,
Cornlia" - interrompendo assim a aula.
 Depois dela partir, o alemo ainda continuou, a sorrir
vagamente, atravs das grossas lentes dos culos.
 - Rapariga simptica - disse ele a Poirot. - No
tem a aparncia faminta das magricelas de hoje... Belas
curvas... Sabe tambm ouvir inteligentemente, e 
um prazer dar-lhe explicaes.
 Poirot no pde deixar de refletir que era sina
de Cornlia ter sempre que obedecer ou ouvir.
 Dispondo de alguns momentos de liberdade, depois da
peremptria ordem dada a Cornlia, Miss Bowers estava de p no
meio do templo, examinando-o com o seu olhar frio e pouco curioso, no parecendo muito impressionada 
com as maravilhas do passado.
 Havia um santurio interno, onde estavam quatro
imagens, sentadas em atitude de grande dignidade.
Linnet e Simon estavam ali a examin-las. A jovem
passara o brao pelo do marido e estava de rosto erguido -
rosto tpico da moderna civilizao; inteligente,
curioso, sem nada que lembrasse o passado.
 - Vamos sair daqui - disse Simon. - No gosto
destes sujeitos, principalmente daquele de chapu alto.
 -  Amon, com certeza. E o outro  Ramss.
Porque no gosta deles? Acho-os muito imponentes.
 - Imponentes de mais, na minha opinio. H neles algo de
sobrenatural... Vamos para o sol.
 Linnet riu-se, mas acompanhou-o.
 Saram para fora, pisando a areia amarela e quente.
Linnet comeou a rir... Aos ps deles, em fila, estavam as
cabeas de seis meninos nbios, parecendo
separadas dos corpos. Viravam os olhos, as cabeas
moviam-se no mesmo ritmo, enquanto eles diziam.
 - Hip, hip, hurrah! Muito bom, muito bom. Muito obrigado.
 - Que absurdo! Como conseguem uma coisa destas? Esto
enterrados muito profundamente? - perguntou Linnet.
 Simon atirou algumas moedas e imitou os garotos:
 - Muito bom, muito bonito, muito caro!
 Dois rapazitos, a cargo do show, apanharam as
moedas.
 Linnet e Simon continuaram o seu caminho.
 No tinham vontade de voltar para o navio e estavam cansados
de apreciar vistas e antiguidades. Sentaram-se de costas para
a rocha, aquecendo-se ao sol.
 - Como  lindo o Sol! - exclamou Linnet. To
bom... E que tranquilidade, que sensao de segurana! Como 
bom ser feliz... Como  bom ser eu, eu,
eu, Linnet Doyle...
 Fechou os olhos. Estava meio acordada, meio
adormecida, com pensamentos que no fugiam nem se
fixavam, como a areia que a brisa levantava e de novo
deixava cair.
 Simon no fechara os olhos. Tambm neles havia
uma expresso de contentamento. Que tolo fora em
aborrecer-se, aquela primeira noite! No havia motivo
para se preocupar. Tudo ia bem... Afinal de contas, a
gente podia confiar em Jackie...
 Um grito... Algum a correr para aquele lado, gesticulando,
gritando...
 Durante alguns segundos, Simon pareceu estupefacto. Em
seguida ergueu-se de um salto, arrastando
Linnet consigo.
 Um minuto depois teria sido tarde de mais. Um
grande bloco de pedra, que rolara do penhasco, passou
fragorosamente por eles. Se tivesse ficado onde estava, 
Linnet teria sido esmagada.
 Plidos, sem fala, os dois continuaram agarrados um
ao outro. Tim Allerton e Poirot chegaram, a correr.
 - L foi, madame, escapou por pouco!
 Instintivamente, os quatro ergueram os olhos. No
viram coisa alguma. Mas l em cima havia uma senda... Poirot
lembrou-se de ter visto alguns nativos seguirem por ali,
quando o grupo de turistas desembarcara.
 Olhou para o casal Doyle. Linnet parecia atordoada,
perplexa. Simon estava francamente furioso.
 - Que Deus a amaldioe - exclamou ele.
 Interrompeu-se, lanando um rpido olhar ao companheiro de
Poirot.
 - Safa, que foi por um triz! - exclamou Tim. - Algum idiota
que soltou a pedra, ou ter ela rolado por acaso?
 Ainda muito plida, Linnet balbuciou:
 - Creio que... algum idiota soltou a pedra.
 - Poderia ter ficado reduzida a p. Parece-lhe que
no tem nenhum inimigo, Linnet?
 Duas vezes ela engoliu em seco, sem poder responder 
pergunta.
 - Venha para o navio, madame - disse Poirot vivamente. -
Precisa de tomar um estimulante.
 Caminharam alguns segundos em silncio. Via-se
que Simon mal podia conter a clera, mas Tim comeou a falar
em tom de gracejo, procurando distrair a
ateno de Linnet do perigo de que ela escapara. Poirot estava
mudo, srio.
 E ento, quando chegaram ao passadio, Simon estacou
subitamente, estupefacto.
 Jacqueline de Bellefort vinha descendo para terra.
Com o seu vestido de fusto azul, parecia uma criana
naquela manh.
 - Deus do cu! - murmurou Simon em tom abafado. - Ento foi
um acidente.
 A clera desaparecera-lhe do rosto, sendo substituda por
tal expresso de alvio que Jacqueline notou
que acontecera alguma coisa de anormal.
 - Bom dia - disse ela. - Creio que estou atrasada.
 Com uma inclinao de cabea para todos em geral, tomou a
direco do templo.
 Simon agarrou o brao de Poirot. Tim e Linnet
iam na frente.
 - Meu Deus, que alvio! Pensei... pensei...
 - Sim, sim, sei o que pensou - disse Poirot.
 Mas ainda continuava preocupado e grave.
 Voltou a cabea, observando cuidadosamente a posio de
todos os outros membros do grupo.
 Miss Van Schuyler vinha pelo brao de Miss Bowers.
 Um pouco adiante, de p, Mrs. Allerton ria dos
garotos nbios. Mrs. Otterbourne estava ao lado dela.
 No viu nenhum dos outros.
 Poirot abanou a cabea e lentamente acompanhou
Simon, que subia para o vapor.



CAPTULO 10

 - Quer fazer-me o favor, madame, de me explicar
o sentido da palavra f?
 A pergunta pareceu causar surpresa a Mrs. Allerton. Ela e
Poirot subiam lentamente o rochedo que dava para a Segunda
Catarata. Quase todos os outros tinham ido de camelo, mas
Poirot achou que o balano do animal poderia lembrar o de um navio. Mrs. Allerton dera como desculpa a 
preservao da sua dignidade pessoal.
 Tinham chegado na noite anterior a Uadi Halfa.
Duas lanchas haviam, nessa manh, levado todo o grupo at 
Segunda Catarata, com excepo de Richetti,
que insistira em ir sozinho a um lugar deserto chamado Semna
que, dissera ele, era muito importante por
ter sido a porta da Nbia no tempo de Amenemhet III, e onde
havia uma laje na qual se lia que, ao
entrar no Egipto, os negros tinham de pagar direitos
aduaneiros. Os outros passageiros fizeram tudo para o
dissuadir, embora sem resultado. Signor Richetti estava
resolvido e afastou todas as objeces: 1) que a excurso no
valia a pena; 2) que no seria possvel conseguir um carro; 3)
que no poderia obter outro meio
de conduo; 4) que o preo seria proibitivo. Tendo
zombado de 1; manifestado incredulidade quanto a 2;
tendo-se prontificado a procurar ele mesmo o carro
quanto a 3; e pedinchando animadamente, em rabe,
ao chegar a 4, finalmente o italiano abalara, arranjando a
partida de maneira furtiva e secreta, para evitar
que algum outro turista se lembrasse de lhe fazer companhia.
 - Pey? - Mrs. Allerton inclinou a cabea de
lado, como quem reflecte. - Bom,  realmente uma
palavra escocesa. Indica uma espcie de exagerada felicidade
que precede o desastre. O senhor sabe o que
quero dizer...  bom de mais para poder durar, e essa
histria toda...
 E ela continuou no mesmo tom, tentando explicar o melhor que
podia e sabia. Poirot ouvia-a atentamente:
 - Agradecido, madame. Agora compreendo.  esquisito que
tivesse dito isso ontem, sem prever que,
por pouco, Madame Doyle ia escapar  morte.
 Mrs. Allerton estremeceu ligeiramente.
 - Deve ter sido por um triz. Acha que algum daqueles
negrinhos fosse capaz de empurrar a pedra por
brincadeira?  o que as crianas de todo o mundo gostam mais
de fazer... sem m inteno,  claro.
 Poirot encolheu os ombros.
 - Talvez, madame.
 Mudou de assunto, falando de Maiorca, e fazendo vrias
perguntas, sob o pretexto de uma possvel
visita.
 Mrs. Allerton j gostava muito de Poirot - talvez
por esprito de contradio. Percebera que Tim fazia o
possvel para que ela no se mostrasse to camarada do
detective, que ele qualificava de "homem sem eira
nem beira". Mas Mrs. Allerton no compartilhava dessa
opinio. Provavelmente era a extica maneira de
Poirot se vestir que aumentava a preveno de Tim.
Mas Mrs. Allerton achava-o inteligente, e interessante
a sua companhia. Muito compreensivo, tambm...
Viu-se de repente a fazer-lhe confidncias, contando-lhe a
antipatia que tinha por Joana Southwood. Sentiu um grande
alvio em falar sobre isso. E porque
no? Ele no conhecia Joana, provavelmente nunca viria a
conhec-la. Que mal havia em desabafar?
 Neste momento, Tim e Rosalie falavam dela.
 Tim estivera a queixar-se, em tom meio brincalho. Sade m,
no o bastante para despertar interesse; nem boa to-pouco, a
ponto de lhe permitir que levasse a vida que desejaria levar. Pouco dinheiro - nenhuma ocupao atraente.
 - Vida completamente inspida - terminou ele
em tom descontente.
 Rosalie replicou bruscamente:
 - Voc tem uma coisa que muita gente invejaria.
 - E isso ...?
 - Sua me.
 Tim ficou agradavelmente surpreendido.
 - Minha me?... Sim,  extraordinria.  muito
amvel da sua parte dizer-me isso.
 - Acho-a encantadora. Bonita... distinta, calma...
como se nada pudesse atingi-la... E, no entanto, sempre pronta
a achar graa e a divertir-se.
 Rosalie balbuciava, tal a sua espontaneidade.
 Tim sentiu uma onda de simpatia pela rapariga.
Desejou poder retribuir o elogio, mas infelizmente
Mrs. Otterbourne era, na sua opinio, um dos maiores
perigos para a Humanidade. Ficou embaraado por
no poder responder.
 Miss Van Schuyler ficara na lancha. No podia arriscar-se a
subir de camelo, nem to-pouco a p. Dissera, em tom brusco:
 - Sinto ter de lhe pedir que fique comigo, Miss Bowers. Era
minha inteno dizer-lhe que fosse, e Cornlia que ficasse,
mas as raparigas de hoje so to egostas! Fugiu sem me dar 
a mnima satisfao. E vi-a a conversar com aquele sujeito desagradvel e mal-educado, o tal Ferguson. 
Cornlia desapontou-me bastante. No tem a menor
noo dos hbitos da sociedade. 0 Miss Bowers replicou, 
na sua voz desinteressada:
 - No tem importncia, Miss Van Schuyler. Est
muito quente para se ir a p, e eu no sinto atraco
alguma pelas selas daqueles camelos. Com certeza, esto cheias
de pulgas.
 Ajeitou os culos, semicerrou os olhos para examinar o grupo
que vinha descendo o morro e observou:
 - Miss Robson no est com aquele rapaz. Est
com o doutor Bessner.
 Miss Van Schuyler rosnou, apenas.
 Desde que descobrira que Bessner tinha uma clnica na
Checoslovquia e era dos mdicos mais afamados
da Europa, tratava-o com mais cordialidade. Alm do
mais, talvez viesse a precisar dos seus servios
profissionais, antes de ver terminada aquela viagem.
 Quando voltaram para o navio, Linnet deixou escapar uma
exclamao de prazer.
 - Um telegrama para mim!
 Agarrou-o vivamente e abriu-o.
 - Mas... no compreendo... batatas.... beterrabas... que
significa tudo isto, Simon?
 Simon ia aproximar-se para ler por sobre o ombro
dela, quando uma voz furiosa exclamou:
 - Desculpe-me, esse telegrama  para mim.
 Ao dizer isto, Richetti arrancou-o bruscamente das
mos de Linnet, fulminando-a ao mesmo tempo com o olhar.
 A jovem fitou-o, admirada, depois virou o sobrescrito.
 - Oh, Simon, que tolice a minha!  Richetti, no
Ridgeway... Alm disso, o meu nome j no  Ridgeway. 
 Peo desculpa.
 Linnet seguiu o arquelogo, que se dirigia para a
popa.
 - Peo-lhe que me desculpe, Signor Richetti.
O meu nome era Ridgeway, antes de me casar, e no
estou casada h muito tempo...
 Interrompeu-se, sorridente, convidando-o tambm
a sorrir do faux pas de uma recm-casada.
 Mas no havia dvida que Richetti no achara graa. Nem
mesmo a rainha Vitria, nos seus momentos
de maior severidade, poderia ter-se mostrado to descontente.
 - Deve ter-se cuidado, ao ler um nome. Qualquer
desleixo neste sentido  imperdovel.
 Linnet mordeu os lbios, sentindo o sangue vir-lhe ao
rosto. No estava habituada a ver as suas desculpas recebidas
daquela forma. Voltou-se e, aproximando-se do marido, disse em
tom colrico:
 - Estes italianos so insuportveis.
 - No faa caso, querida. Vamos ver o grande
crocodilo de marfim que chamou a sua ateno.
 Desceram juntos para terra.
 Poirot, que os observava, ouviu a seu lado uma
respirao ofegante. Voltou-se e deu com Jacqueline
de Bellefort, de mos agarradas  amurada do navio.
A expresso do seu rosto alarmou Poirot... J no era
alegre ou maliciosa. Como se dentro dela ardesse um
fogo consumidor...
 - Eles j no ligam importncia - disse ela, falando
baixinho e depressa. - J no os posso atingir...
No se importam que eu esteja ou no aqui... No
posso... no posso feri-los mais.
 Poirot notou que as mos de Jacqueline tremiam.
 - Mademoiselle...
 Ela no se pde conter.
 - Oh, agora  tarde... tarde de mais. O senhor tinha razo.
Eu no devia ter vindo. No nesta viagem... Como foi que a
classificou? Viagem da alma?
No posso voltar atrs... tenho que continuar. Eles
no sero felizes juntos... no sero! Prefiro matar...
 Afastou-se bruscamente, sem terminar a frase. Poirot
seguiu-a com o olhar. Nisto sentiu uma mo sobre
o ombro.
 - A sua amiguinha parece muito perturbada, Mister Poirot.
 O detective voltou-se, admirando-se ao dar com
um velho conhecido. - Coronel Race!
 O homem, de rosto bronzeado, sorriu.
 - Que surpresa, hem?
 Hercule Poirot vira Race um ano antes, em Londres. Convivas
do mesmo jantar - reunio que terminara com a morte de um
estranho sujeito, o dono da casa.
 Poirot sabia que Race era um homem que tanto
podia estar aqui como ali. Geralmente, era encontrado
num dos postos avanados do Imprio, onde havia perigo de
alguma sublevao.
 - Ento est em Uadi Halfa - comentou Poirot
com ar pensativo.
 - Estou aqui neste navio.
 - Quer dizer?.
 - Que vou voltar com vocs para Shelll.
 Poirot ergueu as sobrancelhas.
 - Muito interessante. Posso, talvez, oferecer-lhe
um drink?
 Foram para o salo envidraado, agora completa mente
deserto. Poirot encomendou um whiskey para o
 coronel e para si uma laranjada bem aucarada.
 - Ento vai voltar connosco? - disse o detective, depois do primeiro gole. - Iria mais depressa se fosse
 pelo navio do governo, que viaja tanto de noite como
 de dia, no  verdade?
 O rosto de Race enrugou-se num sorriso.
 - Acertou, como sempre, Mister Poirot - disse ele.
 - Os passageiros, ento?
 - Um deles.
 - Qual? Eu gostaria de saber?! - perguntou Poirot erguendo
os olhos para o tecto.
 - Infelizmente nem eu sei.
 Poirot fitou-o com ar interessado e o coronel continuou:
 - No h motivo para no lhe contar. Ultimamente, temos tido
muitos aborrecimentos aqui, de uma forma ou de outra. 
No queremos apanhar as pessoas que promovem abertamente as agitaes e sim os homens que, 
inteligentemente, chegam 
o fogo  plvora.
Eram trs. Um morreu. Outro est na cadeia. Quero o
terceiro... um homem que j cometeu cinco ou seis assassnios
a sangue-frio.  um dos mais inteligentes agitadores pagos que
jamais existiram... E acha-se neste navio. Sei disso, pelo trecho de uma carta que esteve nas nossas 
mos. Depois de decifrada pudemos ler:
"X estar a bordo do Karnak. Fev. de 7 a 13." No dizia sob
que nome viajaria.
 - Alguma descrio do sujeito?
 - No. De ascendncia americana, francesa e irlandesa. Meio
mestio. Isto no nos ajuda muito! Tem alguma ideia?
 - Uma ideia... no  muita coisa - disse Poirot,
pensativo.
 Conheciam-se to bem que Race no insistiu. Sabia
 que Poirot no falava a no ser que tivesse a certeza do
 que dizia.
 O detective coou o nariz e disse, em tom descontente:
 - Passa-se alguma coisa neste navio que me causa
inquietao.
 Race fitou-o com ar indagador, mas nada disse.
Poirot continuou:
 - Imagine uma pessoa, digamos: A, que prejudicou seriamente
uma segunda pessoa, B. Esta pessoa
B deseja vingar-se. Faz algumas ameaas...
 - A e B esto neste navio?
 - Exactamente - disse Poirot.
 - E B, presumo,  uma mulher?
 - Acertou.
 Race acendeu um cigarro e disse:
 - Se eu fosse voc, no me preocuparia. As pessoas que dizem
que vo fazer isto e mais aquilo geralmente no fazem nada.
 - Principalmente quando se trata das mulheres,
no  o que quer dizer?
 Mas Poirot no parecia nada satisfeito.
 - H mais alguma coisa? - perguntou Race.
 - H, sim. Ontem, A escapou milagrosamente da
morte. Espcie de morte que muito convenientemente
poderia ter sido considerada acidente.
 - Tentativa feita por B?
 - No;  justamente isso que no compreendo.
B no podia ter tido ligao alguma com o caso.
 - Ento foi acidente?
 - Creio que sim... mas no gosto desse tipo de
acidentes.
 - Tem a certeza de que B est inocente?
 - Absoluta.
 - Bom, existem dessas coincidncias. Por pensar
nisso: quem  A? Uma pessoa desagradvel?
 - Pelo contrrio. Uma rapariga encantadora, rica
e bonita.
 - At parece um romance - comentou Race, sorrindo.
 - Peut-tre. Mas, repito, no estou nada satisfeito,
meu amigo. Se no me engano, e, para ser exacto, 
raramente me engano...
 O coronel Race sorriu intimamente deste to tpico
comentrio.
- Ento h realmente motivo para me inquietar
- Continuou Poirot. - E agora voc aparece-me com outra
complicao. Vem dizer-me que h um assassino a
bordo do Karnark!
 - Mas as suas vtimas em geral no so raparigas
encantadoras.
 Poirot abanou a cabea com ar descontente.
 - Tenho medo... Tenho medo... Aconselhei hoje
essa senhora, Mistress Doyle, a ir com o marido para
Cartum, a no voltarem neste navio. Mas no concordaram. Peo
a Deus que nos deixe chegar a Shelll
sem que acontea uma desgraa.
 - No est a ser muito pessimista?
 - Tenho medo - disse o detective simplesmente. - Sim, eu, Hercule Poirot, tenho medo...



CAPTULO 11

 No dia seguinte. Noite parada e quente.
 Cornlia Robson admirava o interior do templo.
 O Karnak ancorara novamente em Abu-Simbel, para
que os passageiros pudessem visitar o templo, desta
vez com luz artificial. Extraordinria diferena! Cornlia
comentou o facto com Mr. Ferguson, que estava a
seu lado.
 - Imagine, a gente v muito melhor  noite! - exclamou ela. - Todos os inimigos do rei, que foram
degolados por ordem dele... bem visveis, agora. E ali
est um lindo castelo que eu no tinha notado antes.
Gostaria que o doutor Bessner estivesse aqui, para me
explicar o que .
 - No compreendo como tolera aquele velho idiota - exclamou
Ferguson em tom desanimado.
 - No diga isso.  um dos homens mais bondosos
que tenho conhecido.
 - Velho pedante.
 - Acho que no devia falar dessa forma.
 O rapaz segurou-a pelo brao. Iam saindo do templo, para a
noite quente e enluarada.
 - Como  que consente em ser apoquentada por
aquele velhote, e dominada e pisada por aquela megera?
 - Mister Ferguson!
 - No tem um pouco de personalidade? No sabe
que  to boa como ela?
 - No sou, no! - exclamou Cornlia com sincera convico.
 - No  to rica... foi o que quis dizer.
 - No foi, no. A prima Marie  muito culta e...
 - Culta! - exclamou o rapaz soltando o brao to
bruscamente como o agarrara. - Essa palavra repugna-me.
 Cornlia fitou-o, alarmada.
 - Ela no gosta que voc converse comigo, no 
verdade? - continuou o rapaz.
 Cornlia corou, muito embaraada, mas nada respondeu.
 - E porqu? Por pensar que no sou do seu nvel
social? Bah... No sente o sangue ferver-lhe nas veias?
 - Gostaria que no fosse to exaltado - balbuciou Cornlia.
 - No compreende ento, voc, uma americana,
que todos nascem livres e iguais?
 - De maneira nenhuma! - protestou Cornlia.
 - Minha menina, isso faz parte da sua Constituio!
 - A prima Marie diz que os polticos no so cavalheiros. E,
naturalmente, no somos todos iguais.
Que tolice! Sei que no sou bonita. Isso s vezes
entristecia-me, mas j me conformei. Gostaria de ser bela e
elegante como Mistress Doyle, mas no sou assim,
e de nada vale ficar aborrecida.
 - Mistress Doyle! - exclamou Ferguson em tom
 de profundo desprezo. -  um tipo de mulher que
 devia ser morta para exemplo.
 Cornlia fitou-o com ar ansioso.
 - Com certeza  por causa da sua digesto - diagnosticou ela.
 - Tenho uma pepsina especial, que
 a prima Marie j experimentou. Quer tambm experimentar?
 - Voc  impossvel! - exclamou Ferguson, afastando-se dali.
 Cornlia dirigiu-se para o navio. Ia a chegar ao
passadio quando Ferguson a alcanou de novo.
 - Voc  de facto a melhor pessoa neste navio - disse ele. -
No se esquea disso!
 Corada de prazer, Cornlia dirigiu-se para o salo
envidraado.
 Miss Van Schuyler conversava com o Dr. Bessner
- conversa agradvel, a respeito de certos aristocrticos
clientes do mdico.
 Cornlia disse em tom contrito:
 - Espero no me ter demorado de mais, prima Marie.
 A velhota consultou o relgio e replicou secamente:
 - No foi l muito rpida, minha amiga. E onde
ps a minha charpe de veludo?
 Cornlia procurou  sua volta, oferecendo-se depois
para ir ver na cabina.
 - Claro que no a encontrar na cabina! - exclamou a velha.
 - Estava aqui a meu lado depois do jantar, e eu no sa deste
salo. Estive sentada ali, naquela cadeira.
 Cornlia iniciou nova busca.
 - No consigo encontr-la, prima Marie.
 - Tolice. Procure de novo.
 Mais parecia uma ordem dada a um co; e, como
sempre, Cornlia obedeceu humildemente.
 O silencioso Mr. Fanthorp, que estava sentado ali
perto, ergueu-se para a ajudar. Mas a charpe no apareceu.
 O dia fora to quente e abafado que muita gente se
retirara cedo, depois de ter ido a terra admirar o templo.
Os Doyle jogavam o brdege, a uma mesa de canto, com
Pennington e Race. O nico ocupante do salo era
Hercule Poirot, que parecia morto de sono.
 Ao passar por ele (rainha com a sua comitiva!)
Miss Van Schuyler parou para lhe dizer algumas palavras. 
O detective ergueu-se prontamente, reprimindo
um enorme bocejo.
 - S agora fiquei a saber quem , Mister Poirot
- disse a americana. - Um velho amigo meu, Rufus
Van Aldin, j me falara do senhor. Preciso que me
conte uma das suas aventuras, quando tiver ocasio.
 Dito isto, passou adiante com uma amvel, se bem
que condescendente, inclinao de cabea.
 De olhos reluzentes, apesar da sonolncia, Poirot
inclinou-se exageradamente diante dela.
 Depois bocejou de novo. Sentia-se pesado e embrutecido de
tanto sono e mal podia ficar de olhos
abertos. Olhou de relance para os jogadores de brdege,
absortos no jogo, depois para Fanthorp, que parecia
muito interessado na leitura de um livro. No havia
mais ningum no salo.
 Passou pela porta giratria, entrando no tombadilho.
Jacqueline de Bellefort, que vinha apressadamente em direco
contrria, quase colidiu com ele.
 - Pardon, mademoiselle.
 - Est com cara de sono, Mister Poirot.
 - Sim - confessou ele francamente. - Mal
posso abrir os olhos. Tivemos um dia muito abafado,
opressivo.
 - Sim... - disse ela, parecendo reflectir alguns
 segundos. - Sim, dia em que tudo parece... estalar!
 Quebrar! A gente no pode mais...
 A sua voz era rouca e apaixonada. Jackie olhara,
no para Poirot, mas para a areia da costa. As suas
mos estavam convulsas, rgidas. Sbito, a tenso pareceu
diminuir.
 - Boa noite, Mister Poirot.
 - Boa noite, mademoiselle.
 Os olhos de ambos encontraram-se, mas somente
durante uns segundos. No dia seguinte, ao relembrar
este olhar, Poirot chegou  concluso de que nele houvera um
apelo...
 Poirot dirigiu-se para a sua cabina e Jacqueline entrou no
salo.
Depois de ter atendido Miss Van Schuyler em mui tas coisas
teis e inteis, Cornlia pegou num bordado
e voltou para o salo. No sentia sono. Pelo contrrio,
estava bem acordada e ligeiramente excitada.
 Os jogadores de brdege continuavam absortos no
jogo. Fanthorp ainda lia tranquilamente. Cornlia sentou-se e
comeou a bordar.
 De repente, a porta abriu-se e Jacqueline apareceu.
Ficou ali parada, a cabea lanada para trs. Depois
tocou a campainha e aproximou-se de Cornlia, sentando-se a
seu lado.
 - Esteve em terra?
 - Estive - respondeu Cornlia. - Achei tudo
lindo ao luar.
 - Sim,  uma noite linda... Verdadeira noite de
lua-de-mel.
 O seu olhar procurou a mesa do brdege, descansando um
momento sobre Linnet Doyle.
 O criado veio atender a campainha.
 Jacqueline encomendou um gin duplo. Ao ouvir a
ordem, Simon lanou-lhe um olhar rpido, onde havia
uma expresso ligeiramente ansiosa.
 - Simon, esperamos a sua marcao - disse Linnet.
 Jacqueline ps-se a cantarolar baixinho. Quando o
criado voltou, ela ergueu o copo e exclamou: "Ao crime!"
Bebeu de um s trago e encomendou outro.
 Simon olhou de novo para aquele lado. Comeou a
distrair-se nas marcaes; Pennington, seu parceiro,
chamou-lhe duas ou trs vezes a ateno.
 Jacqueline comeou de novo a cantarolar, a princpio
baixinho, depois um pouco mais alto:
 Ele era dela, e abandonou-a...
 - Perdo - disse Simon a Pennington. - Foi tolice minha no
voltar ao seu naipe. E assim eles ganharam o rubber.
 Linnet ergueu-se.
 - Estou com sono. Acho que vou para a cama.
 - Est mesmo na hora - declarou o coronel Race.
 - De acordo - disse Pennington.
 - Voc vem, Simon?
 Doyle respondeu lentamente:
 - Ainda no. Creio que vou primeiro tomar um drink.
 Linnet inclinou a cabea e saiu com Race. Pennington acabou
o seu whiskey e acompanhou-os.
 Cornlia comeou a recolher as linhas e o bordado.
 - No v ainda, Miss Robson - pediu Jacqueline. - No v por
favor. Estou com vontade de fazer
desta noite uma noite e tanto! No me abandone.
 Cornlia sentou-se novamente.
 - Ns, raparigas, precisamos ficar solidrias! - disse
Jacqueline, atirando a cabea para trs e soltando
uma gargalhada sem alegria alguma.
 O criado trouxe o segundo gin.
 - Tome alguma coisa - ofereceu Jacqueline.
 - No, muito agradecida - respondeu Cornlia.
 Jacqueline inclinou a cadeira para trs e recomeou
a cantarolar, mais alto agora:
 Ele era dela, e abandonou-a...
 Mr. Fanthorp virou uma pgina do livro: Europe
 from Within.
 Simon apanhou uma revista.
 - Acho que vou para a cama - disse Cornlia. - Est a
fazer-se tarde.
 - No pode ir j - disse Jacqueline. - No lho
 permito sem que me conte a sua vida.
 - Bom... No h muito que contar... - balbuciou Cornlia. -
Tenho vivido sempre em casa, quase
 no viajo.  esta a minha primeira viagem  Europa.
 Estou encantada...
 Jaqueline soltou nova gargalhada.
 -  uma criatura feliz, no ? Cus, eu gostaria
 de ser assim.
 - Oh, gostaria? Mas garanto-lhe que...
 Cornlia no terminou, parecendo muito embaraada.
 No havia dvida que Miss de Bellefort estava a
beber de mais. Bom, isso no era novidade para Cornlia. Tinha
visto muita gente beber no tempo da Lei
Seca. Mas havia alguma coisa... Jacqueline falava com
ela... olhava para ela... e no entanto Cornlia sentia
que as suas palavras eram dirigidas a outra pessoa.
 Mas s havia duas pessoas no salo: Mr. Fanthorp
e Mr. Doyle. O primeiro parecia absorto na leitura; o
segundo tinha um ar esquisito... uma expresso vigilante no
olhar...
 Jacqueline disse de novo:
 - Conte-me a sua vida.
 Obediente, como sempre, Cornlia fez-lhe a vontade.
Conversou pesadamente, dando pormenores inteis da sua vida
quotidiana. Estava to pouco habituada a ser ouvida! O seu
papel era ouvir, ouvir sempre.
 E, no entanto, Jacqueline parecia querer saber.
Quando Cornlia parava, a outra animava-a a continuar:
 - Vamos, conte-me mais alguma coisa.
 E, portanto, Cornlia continuou ("A mam, naturalmente, tem
uma sade muito delicada; em certos dias s come cereais!") sabendo, infelizmente, que tudo o que
dizia era supinamente desinteressante, mas
apesar disso lisonjeada pela ateno que a outra lhe
dispensava. Mas estaria Jacqueline realmente interessada? No
estaria, por acaso, ouvindo alguma outra
coisa, ou antes: esperando ouvir outra coisa? Olhava
para Cornlia, sim, mas no haveria algum naquela sala...
 - E, naturalmente, temos aulas de arte, e o ano
passado fiz um curso de... (Que horas seriam? Tardssimo, com
certeza. Estivera falando, falando sem parar. Se ao menos
acontecesse alguma coisa...)
 Imediatamente, como para que o seu desejo ficasse
satisfeito, alguma coisa aconteceu que, no primeiro
momento, lhe pareceu muito natural.
 Jacqueline voltou a cabea, e disse a Simon Doyle:
 - Toque a campainha, Simon. Quero outro drink.
 O rapaz ergueu os olhos da revista que folheava e
disse calmamente:
 - Os criados j foram para a cama. J passa da
meia-noite.
 - Estou a dizer-lhe que quero outro drink.
 - Voc j bebeu de mais, Jackie.
 Ela voltou-se bruscamente para o rapaz.
 - Que diabo tem voc com isso?
 Ele encolheu os ombros e respondeu:
 - Nada.
 A rapariga observou-o durante um ou dois minutos. Depois:
 - Que aconteceu, Simon? Est com medo?
 Ele no respondeu, e pegou de novo na revista,
com exagerada calma.
 Cornlia murmurou:
 - Cus... to tarde, j... Preciso...
 Comeou a remexer nas suas coisas, deixou cair o dedal.
 - No v ainda - disse Jacqueline. - Quero ter
outra mulher aqui ao meu lado, para me apoiar. - Deu uma
gargalhada e continuou: - Sabe por que
motivo Simon est com medo? Receia que lhe conte a
histria da minha vida.
 - Oh!... - balbuciou Cornlia.
 Jacqueline disse em voz bem clara:
 - Porque, sabe voc, ns fomos noivos.
 - Oh, no diga isso!
 Cornlia estava dominada por emoes contrrias.
Sentia-se profundamente embaraada, mas ao mesmo
tempo estava excitada, curiosa. Que expresso... sombria, no
rosto de Simon Doyle!
 - Sim,  uma histria muito triste - disse Jacqueline em 
voz abafada e irnica. - Ele tratou-me muito mal; 
no  verdade, Simon?
 Simon Doyle disse asperamente:
 - V para a cama, Jackie. Voc est bbeda.
 - Se est constrangido, meu caro Simon, pode
sair da sala.
 Simon olhou para ela. A mo que segurava a revista tremia
ligeiramente. Mas declarou em tom firme:
 - No saio.
 Cornlia murmurou pela terceira vez:
 - Tenho de ir...  to tarde...
 - Voc no vai - disse Jacqueline, estendendo a
mo e obrigando-a a sentar-se. - Vai ficar e ouvir
o que tenho para lhe dizer.
 - Jackie, voc est a fazer um papel ridculo! - exclamou
Simon asperamente. - Pelo amor de Deus,
v para a cama.
 Jacqueline endireitou-se na cadeira. Dos seus lbios saiu,
sibilante, uma torrente de palavras encolerizadas:
 - Est com medo de uma cena, no est? Isso
porque voc  to ingls... to reservado! Quer que eu
proceda "correctamente", no  verdade? Mas pouco
me importo de ser correcta ou no!  melhor sair daqui, 
porque vou falar... e muito.
 Jim Fanthorp fechou com cuidado o livro, bocejou
discretamente, consultou o relgio, levantou-se e saiu.
 Atitude muito inglesa e muito pouco convincente.
 Jacqueline deu uma reviravolta na cadeira e de novo fitou
Simon.
 - Seu grandssimo idiota, pensou que podia tratar-me como me
tratou, sem sofrer coisa alguma? - exclamou em voz rouca e
pesada.
 Simon abriu os lbios, mas resolveu calar-se. Continuou
imvel, como se achasse que a clera se extinguiria por si,
caso nada dissesse para provocar Jacqueline.
 A voz dela era pesada, confusa. Cornlia parecia
fascinada, pois no estava habituada a ver emoes to
fortes assim postas a nu.
 - Disse-lhe que seria mais fcil mat-lo do que permitir 
que pertencesse a outra mulher... Acha que falei s
por falar? Engana-se. Estive apenas...  espera, voc
pertence-me! Ouve?  meu.
 Nem assim Simon falou. A mo de Jacqueline procurou qualquer
coisa na bolsa. A rapariga inclinou-se para a frente.
 - Eu disse-lhe que o mataria, e disse a verdade...
- Jacqueline ergueu a mo, onde brilhou qualquer coisa. - Vou
mat-lo como a um co, co que voc ...
 Finalmente, Simon pareceu acordar. Ergueu-se de
um salto, mas no mesmo instante ela premiu o gatilho...
 Simon torceu-se, caindo na cadeira. Cornlia deu
um grito e correu para o tombadilho. Jim Fanthorp
estava ali, debruado sobre a amurada.
 - Mister Fanthorp... Mister Fanthorp...
 O rapaz correu. Cornlia agarrou-lhe as mos, falando
incoerentemente.
 - Ela matou-o! Oh, ela matou-o!
 Simon Doyle estava imvel na cadeira onde havia
cado meio atravessado. Jacqueline parecia paralisada.
Tremia violentamente e com os olhos dilatados fitava a
mancha rubra que, pouco a pouco, se espalhava pela
cala de Simon, bem abaixo do joelho, no ponto onde
ele comprimia um leno.
 Jacqueline balbuciou:
 - Eu no tinha inteno... Oh, meu Deus, eu no
tinha inteno...
 O revlver desprendeu-se-lhe dos dedos nervosos,
caindo no cho com um rudo seco. Ela deu-lhe um
pontap e a arma foi parar debaixo de uma poltrona.
 Simon murmurou em voz fraca.
 - Fanthorp, pelo amor de Deus... vem gente...
Diga que no foi nada... um acidente... ou seja l o
que for...  preciso evitar o escndalo.
 Fanthorp inclinou a cabea, como quem compreendeu
perfeitamente. Virou-se para a porta, dizendo ao assustado
nbio que apareceu neste momento:
 - Muito bem... muito bem... Foi uma brincadeira!
 O negro pareceu perplexo; depois, tranquilizou-se.
 Sorriu, arreganhando os dentes e saiu.
 Fanthorp voltou-se para os outros:
 - Est certo. No creio que ningum mais tenha
ouvido. Mais pareceu o estalo de uma rolha, ao saltar.
Agora...
 Parou, sobressaltado. Jacqueline comeara a chorar
histericamente.
 - Oh, meu Deus, eu preferia estar morta... Vou
matar-me... Oh, que fiz eu, que fiz eu?
 Cornlia correu para o seu lado.
 - Calma, menina, calma.
 De testa hmida e rosto contrado de dor, Simon
disse, ansiosamente: - Levem-na daqui. Pelo amor
de Deus, levem-na daqui! Fanthorp, obrigue-a a ir para a
cabina. Por favor, Miss Robson, v chamar aquela
sua enfermeira.
 Olhou, suplicante, para um e para outro e continuou:
 - No a deixem sozinha... Faam com que a enfermeira fique
com ela. Depois vo chamar Bessner.
Pelo amor de Deus, no deixem que minha mulher venha a saber
disto.
 Jim Fanthorp inclinou a cabea. Aquele silencioso
rapaz sabia mostrar-se calmo e competente numa crise.
 Ele e Cornlia levaram a chorosa Jacqueline para a
cabina. Ela continuava a lutar, os soluos pareceram
recrudescer.
 - Vou afogar-me... Vou afogar-me... No mereo
viver... Oh, Simon... Simon...
 - V chamar Miss Bowers - disse Fanthorp a
Cornlia - Fico aqui  espera.
 Cornlia inclinou a cabea e apressou-se a obedecer.
 Assim que ela saiu, Jacqueline agarrou o brao de
Fanthorp.
 - A perna de Simon... est a sangrar... quebrada... Ele pode
morrer. Preciso ir v-lo... Oh, Simon...
Simon... Como  que fui fazer aquilo?
 Ela erguera a voz. Fanthorp recomendou:
 - Calma... calma... Nada acontecer a Mister Doyle.
 A jovem comeou a lutar.
 - Deixe-me. Quero atirar-me  gua... Quero
morrer.
 Segurando-a pelos ombros, Fanthorp obrigou-a de
novo a deitar-se.
 - Fique quieta. No faa barulho. Procure dominar-se. No
vai acontecer coisa alguma, garanto-lhe.
 Com grande alvio de Fanthorp, Jacqueline pareceu
acalmar-se. Ele deu graas a Deus quando as cortinas se
abriram e a competente Miss Bowers, metida
num horrvel quimono, entrou, acompanhada por Cornlia.
 - Ento, ento, que  isto? - perguntou vivamente a
enfermeira, tomando conta da situao, sem
demonstrar surpresa ou alarme.
 Fanthorp deu-se por feliz por deixar Jacqueline entregue aos
seus cuidados e apressou-se a ir procurar o
Dr. Bessner.
 Bateu, entrando quase imediatamente.
 - Doutor Bessner?
 Ouviu um ronco terrvel e logo em seguida uma
voz assustada:
 - Sim? Que houve?
 Fanthorp acendera a luz. O mdico piscou os
olhos, parecendo uma coruja enorme.
 - Doyle... Foi ferido. Miss de Bellefort deu-lhe
um tiro. Est no salo. O senhor pode vir examin-lo?
 O mdico agiu prontamente. Fez algumas rpidas
perguntas, enfiou um roupo e os chinelos, pegou na
maleta e acompanhou o ingls at ao salo.
 Simon conseguira abrir uma janela a seu lado,
apoiando ali a cabea, procurando respirar o ar puro
da noite. O rosto dele tinha uma palidez impressionante.
 O mdico aproximou-se.
 - Ento? Que aconteceu?
 Um leno ensanguentado estava cado no cho, e
no tapete havia uma mancha rubra.
 O exame do mdico foi pontilhado de exclamaes
e grunhidos teutnicos.
 - Sim, isto  grave... Fractura... E grande perda
de sangue. Herr Fanthorp, precisamos de o levar para
a cabina. Assim... Ele no pode andar. Temos que pegar nele...
assim.
 Quando levantavam Simon, Cornlia apareceu  porta.
 O mdico deixou escapar um grunhido de satisfao.
 - Ach,  a senhora? Goot. Venha connosco. Tenho
necessidade de quem me auxilie. A senhora ser-me-
mais til do que aqui o nosso amigo. Ele j est plido.
 Fanthorp perguntou com um sorriso amarelo:
 - Quer que v chamar Miss Bowers?
 O mdico lanou a Cornlia um olhar crtico e declarou:
 - Esta senhora servir. No vai desmaiar, ou coisa
parecida, hem?
 - Farei o que me disser que faa - replicou Cornlia
vivamente.
 Bessner inclinou a cabea com ar satisfeito.
 A pequena procisso seguiu pelo tombadilho.
 Os dez minutos seguintes foram dedicados ao tratamento; Mr.
Fanthorp no os apreciou em absoluto.
Sentia-se intimamente envergonhado da coragem demonstrada por
Cornlia.
 - Bom,  s o que posso fazer - disse Bessner finalmente. E
batendo no ombro de Simon, com ar
aprovador: - Foi um heri, meu amigo.
 Depois enrolou a manga da camisa do ferido e tirou uma
seringa da maleta.
 - Vou agora dar-lhe um sedativo, para poder dormir. E 
quanto  sua mulher?
 - Ela no precisa saber at amanh - disse Simon,
fracamente. - Eu... ningum deve censurar
Jackie... Foi tudo por culpa minha. Tratei-a muito
mal... pobre menina... no sabia o que estava a fazer.
 O mdico inclinou a cabea.
 - Sim, sim, compreendo.
 -  minha a culpa - insistiu Simon. Os seus
olhos procuraram os de Cornlia. - Algum precisa
ficar com ela... Poderia... fazer alguma loucura...
 O mdico deu-lhe uma injeco. Cornlia disse,
muito compenetrada:
 - No se preocupe, Mister Doyle. Miss Bowers
vai ficar com ela toda a noite.
 Os olhos de Simon tiveram um brilho de gratido.
Relaxou os msculos e cerrou as plpebras. De repente,
abriu-os novamente.
 - Fanthorp? O revlver... no devem deix-lo...
por ali... os criados iriam encontr-lo... de manh.
 O ingls inclinou a cabea.
 - Est certo. Vou eu mesmo busc-lo.
 Saiu e percorreu o tombadilho. Miss Bowers apareceu  porta
da cabina de Jacqueline.
 - Est bem. Dei-lhe uma injeco de morfina - anunciou a
enfermeira.
 - Mas a senhora vai ficar ao lado dela?
 - Sim. A morfina tem um efeito excitante sobre
certas pessoas. Ficarei com ela toda a noite.
 Fanthorp foi para o salo.
 Alguns minutos mais tarde, o mdico ouviu uma
pancada na sua porta.
 - Doutor Bessner?
 - Sim - respondeu o interpelado, aparecendo
imediatamente.
 Fanthorp chamou-o para o tombadilho.
 - Oia... No consigo encontrar o revlver...
 - Que me diz?
 - O revlver. Caiu da mo da rapariga... Ela deu-lhe um
pontap e ele foi parar debaixo de uma das
poltronas. Mas no est ali.
 Entreolharam-se por segundos.
 - Mas quem poderia t-lo apanhado?
 Fanthorp encolheu os ombros.
 Bessner continuou:
 - Esquisito... Mas, quanto a isso, no vejo o que
possamos fazer.
 Perplexos e ligeiramente alarmados, os dois homens
separaram-se.



CAPTULO 12

 Hercule Poirot acabava de tirar a espuma do rosto
recm-barbeado, quando ouviu uma pancada na porta.
Quase que imediatamente Race entrou sem cerimnia
alguma.
 - O seu instinto no o enganou. Aconteceu! - disse 
ele ao detective.
 Poirot endireitou-se e perguntou bruscamente:
 - Aconteceu o qu?
 - Linnet Doyle morreu; levou um tiro na cabea
ontem  noite.
 Poirot ficou uns minutos em silncio. Duas cenas
apareceram vivamente diante dos seus olhos... Uma jovem, em
Assuo, dizendo em tom ofegante: "Gostaria de lhe encostar o
revlver  cabea e premir o gatilho..." E outra, mais
recente, a mesma voz dizendo:
"A gente sente que no pode continuar... que qualquer coisa
vai estalar. " E aquela fugidia expresso de
splica no olhar. Que acontecera com ele, que no respondera
ao apelo? Estivera cego, surdo, imbecilizado,
com aquela vontade de dormir.
 Race continuou:
 - Como tenho certa posio oficial, mandaram-me
chamar, entregando-me o caso. O navio devia partir
daqui a meia hora, mas s partir com ordem minha.
H, naturalmente, a possibilidade de o assassino ter
vindo de terra.
 Poirot sacudiu negativamente a cabea. Race pareceu
concordar com ele.
 - Tem razo. A hiptese deve ser afastada. Bom,
meu amigo, assuma o comando. Voc entende mais do
que eu do assunto.
 Poirot, que se vestira com grande rapidez, voltou-se para 
o amigo, dizendo:
 - Estou s suas ordens.
 Saram para o tombadilho.
 - Bessner j deve estar l - disse Race. - Mandei-o chamar
imediatamente.
 Havia, no navio, quatro cabinas de luxo, com casa
de banho. Das duas a bombordo, uma era ocupada por
Bessner, a outra por Andrew Pennington. A estibordo, a
primeira era de Miss Van Schuyler e a seguinte
de Linnet Doyle. A de Simon ficava contgua a esta.
 Um criado muito plido e nervoso, do lado de fora
da cabina de Linnet, abriu a porta para os dois homens
entrarem. Bessner estava debruado sobre a cama,
mas ergueu a cabea e grunhiu quando os viu chegar.
 - Que nos diz, doutor Bessner, deste negcio? - perguntou
Race.
 O mdico coou com ar pensativo o queixo ainda
no barbeado.
 - Ach! Ela levou um tiro  queima-roupa. Veja...
aqui... por cima da orelha... onde a bala entrou. Uma
bala muito pequena, de calibre vinte e dois, diria eu.
O revlver quase encostado  cabea... Veja, a pele est
chamuscada.
 De novo, e com tristeza, Poirot se lembrou das palavras que
ouvira em Assuo.
 Bessner continuou:
 - Ela estava a dormir... No houve luta... O assassino
entrou no escuro e matou-a, sem que ela tivesse percebido
coisa alguma.
 - Ah! Non! - exclamou Poirot, sentindo-se ultrajado no seu
senso psicolgico. (Jacqueline de Bellefort, de revlver em
punho, entrando sorrateiramente numa cabina s escuras... No, isto no estava "certo".)
 Bessner fitou-o atravs das grossas lentes dos culos
e declarou:
 - Mas garanto-lhe que foi o que aconteceu.
 - Sim, sim. No estava a pensar no que me disse.
No quis contradiz-lo.
 Bessner deixou escapar um grunhido de satisfao.
 Poirot adiantou-se. Linnet Doyle estava deitada de
lado, em posio natural e calma. Mas, acima do ouvido havia
um pequeno orifcio, e um crculo de sangue
seco  volta dele.
 O detective sacudiu tristemente a cabea. Nisto, o
seu olhar fixou-se na parede, deixando escapar uma
exclamao de espanto.
 A brancura da parede estava maculada por uma
grande letra J traada com um lquido escuro.
 Durante segundos, Poirot no pde desviar os
olhos; inclinou-se depois e com muito cuidado ergueu
a mo direita da morta. Um dos dedos estava manchado de
vermelho escuro...
 - Nom d'un nom d'un nom!
 - Hem? Que sucedeu? - perguntou Race.
 O mdico ergueu os olhos e disse:
 - Ach! Isso a?
 - Com os diabos! - exclamou Race. - Que me
diz a isto, Poirot?
 - Voc pergunta-me o que  isto? Eh bien,  muito simples,
no ? Mistress Doyle est a morrer, deseja
indicar o seu assassino, e escreve com o dedo molhado
no prprio sangue a inicial de quem a matou. 
Oh, sim,  simplicssimo.
 - Ach! Mas...
 O mdico ia dizer qualquer coisa, mas um gesto
brusco do coronel deteve-o.
 - Ento  essa a sua opinio? - perguntou Race
lentamente.
 Poirot voltou-se para ele, inclinando afirmativamente a
cabea.
 - Sim, sim.  como j disse, de uma incrvel simplicidade.
To conhecido, no  verdade? Acontece
tantas vezes em romances policiais!  mesmo um pouco vieux
jeu! Faz-me acreditar que o assassino seja um
pouco... antiquado!
 Race respirou profundamente.
 - Compreendo. A princpio, pensei...
 Poirot interrompeu-o, sorrindo:
 - Que eu acreditava nos velhos clichs melodramticos? Mas,
perdo, doutor Bessner; o senhor ia a
dizer?...
 O mdico exclamou na sua voz gutural:
 - Que diz? Bah!  absurdo! Tolice! A pobre senhora morreu
instantaneamente. Embeber o dedo no
sangue (como os senhores podem ver, h muito pouco
sangue!) e escrever a letra J na parede... Que tolice!
Que melodramtica tolice!
 - C'est de l'enfantillage.
 - Mas foi feito com alguma inteno - disse Race.
 - Naturalmente - declarou Poirot, com uma expresso grave.
 - Que significa esta letra J? - perguntou Race.
 - Jacqueline de Bellefort - declarou prontamente o
detective. - Uma jovem que h menos de uma
semana me disse que nada lhe daria maior prazer do
que... - Interrompeu-se, depois citou deliberadamente: -
"encostar-lhe o meu querido revlver  cabea e
apertar o gatilho..."
 - Gott in Himmel! - exclamou o mdico.
 Houve um momento de silncio. Race respirou
profundamente e perguntou:
 - E foi exactamente o que aconteceu?
 Bessner inclinou a cabea.
 - Sim, foi. Revlver de calibre muito pequeno,
provavelmente vinte e dois. A bala, naturalmente, tem
que ser extrada, mas podemos dar isso como certo.
 - Qual a hora da morte?
 De novo Bessner coou o queixo, fazendo um rudo spero.
Disse:
 - No posso ser muito preciso. So agora oito horas. Acho
que, levando-se em conta a temperatura de
ontem  noite, ela est morta no mnimo h seis horas
e no mximo h oito.
 - Isso fixa a hora da morte entre a meia-noite e as
duas da manh?
 - Exactamente.
 Houve uma pausa. Race olhou  volta e perguntou:
 - E quanto ao marido? Com certeza dorme na cabina contgua.
 - No momento presente est a dormir na minha
cabina - disse o dr. Bessner.
 Os outros fitaram-no atnitos.
 Bessner abanou a cabea vrias vezes.
 - Ach, isso mesmo. Vejo que no sabem do incidente... Mister
Doyle levou um tiro, ontem  noite,
no salo.
 - Tiro? Mas, quem?...
 - Miss Jacqueline de Bellefort.
 - Est ferido gravemente? - perguntou Race em
tom brusco.
 - Sim, houve fractura. Tomei, no momento, as
providncias necessrias, mas, assim que for possvel,
Mister Doyle ter de tirar uma radiografia e procurar
receber tratamento adequado, que no lhe pode ser
dado neste navio.
 - Jacqueline de Bellefort... - murmurou Poirot.
 O seu olhar procurou de novo a letra J, na parede.
 Race disse bruscamente:
 - Se no h nada mais para se fazer aqui, vamos
ento para baixo. A gerncia ps a sala de fumo  nossa
disposio.  imperativo conhecer os pormenores
do que aconteceu ontem  noite.
 Saram da cabina. Race fechou a porta e tirou a
chave, dizendo:
 - Podemos voltar mais tarde. O mais urgente  ter
uma ideia exacta dos acontecimentos.
 Foram para o tombadilho de baixo, onde encontraram o gerente
do Karnak que, parecendo pouco  vontade, esperava  porta da
sala de fumo.
 O pobre homem estava muito perturbado, aflito
por deixar a responsabilidade ao coronel Race.
 - Acho que, levando em conta a sua posio oficial, no h
melhor soluo do que deixar tudo nas
suas mos. Recebi ordem de me pr  sua disposio
sobre aquele outro... assunto. Se quiser assumir o comando,
providenciarei para que tudo seja feito de
acordo com a sua vontade.
 - Muito bem. Para comear, gostaria que, durante o
inqurito, esta sala ficasse  minha disposio e de
Mister Poirot.
 - Perfeitamente.
 - Por enquanto,  s isto. Continue com o seu
trabalho. Sei onde devo procur-lo, se precisar de alguma
coisa.
 O gerente saiu, parecendo mais aliviado.
 Race voltou-se para o mdico:
 - Sente-se, Bessner, e conte-nos o que aconteceu
ontem  noite.
 Ele e Poirot ouviram em silncio a narrativa do
mdico.
 - Muito claro - comentou Race, depois de Bessner concluir. -
A rapariga estava excitada, mais ainda ficou depois de dois ou
trs drinks, acabando por disparar o revlver contra Doyle. Depois, foi  cabina de Mrs. Doyle e matou-a.
 Mas o mdico acenou com a cabea.
 - No, no concordo. No acho isso possvel. Para
comear, ela no teria escrito a sua prpria inicial na
parede. Seria ridculo, nicht wahr?
 - Poderia ter agido assim, se estivesse to cegamente
enciumada como parecia - disse Race. - Talvez tivesse querido
assinar... Bom, assinar o crime.
 Poirot abanou a cabea.
 - No; no creio que agisse assim to cruamente.
 - Ento s h outra explicao. Algum escreveu
aquele J, com inteno de atrair as suspeitas sobre a
jovem.
 O mdico concordou:
 - Sim, e o criminoso foi infeliz... porque, o senhor sabe,
no somente  improvvel que a jovem fraulein tenha cometido o
crime, mas impossvel, na minha opinio.
 - Como assim?
 Bessner falou do histerismo de Jacqueline, que os
obrigara a chamar Miss Bowers.
 - E creio... tenho a certeza, que Miss Bowers
passou com ela toda a noite.
 - Se foi assim, as coisas simplificam-se - disse
Race.
 - Quem descobriu o crime? - perguntou Poirot.
 - A criada de Mistress Doyle, uma tal Louise
Bourget. Foi hoje de manh chamar a patroa, como de
costume. Ao encontr-la morta, saiu horrorizada da cabina,
desmaiando nos braos de um criado que passava
nesse momento. O homem foi procurar o gerente e este veio
chamar-me. Avisei Bessner, depois fui para a
sua cabina, Poirot.
 O detective inclinou a cabea e Race continuou, dirigindo-se
agora ao mdico:
 - Doyle precisa de ser informado. O senhor disse
que ele ainda est a dormir?
 - Sim, na minha cabina. Dei-lhe um forte narctico a noite
passada.
 Race voltou-se para Poirot:
 - No creio que seja necessrio determos o doutor
Bessner por mais tempo, no  verdade?... Muito
agradecido, doutor.
 O mdico ergueu-se.
 - Sim, vou tomar o meu pequeno-almoo. Depois, voltarei 
minha cabina, para ver se Mister Doyle
est em condies de ser acordado.
 - Agradecido.
 Depois de Bessner sair, os dois homens entreolharam-se.
 - Ento, que me diz a isto, Poirot? - perguntou
Race. - Est tudo nas suas mos. Receberei as suas
ordens.  s dizer-me o que devo fazer.
 Poirot inclinou-se, dizendo:
 - Eh bien, precisamos de iniciar o inqurito. Em
primeiro lugar, acho que devemos verificar o incidente
de ontem  noite. Isto , temos que interrogar Fanthorp
e Miss Robson, que testemunharam o facto. O desaparecimento do
revlver  muito significativo.
 Race tocou a campainha e deu uma ordem ao criado que
apareceu.
 Poirot abanou tristemente a cabea, murmurando:
 -  grave,  grave...
 - Tem alguma ideia? - perguntou Race, com
certa curiosidade.
 - As minhas ideias so confusas. No esto em
ordem... No nos podemos esquecer de uma coisa
importantssima: que essa pequena odiava Linnet Doyle
e falou em mat-la.
 - Acha que seria capaz?...
 - Acho que sim... sim - disse Poirot sem muita
convico.
 - Mas no desta maneira?  isto que o aborrece?
No entraria no escuro, matando-a enquanto ela dormia? Acha
impossvel este absoluto sangue-frio?
 - Sim, at certo ponto.
 - Acha que essa rapariga, Jacqueline de Bellefort,
seria incapaz de um crime frio e premeditado?
 Poirot disse lentamente:
 - No tenho a certeza. Ela teria a inteligncia...
sim, mas duvido que chegasse a praticar o acto.
 - Sim, compreendo - declarou Race. - Bom,
de acordo com a histria de Bessner, teria sido 
materialmente impossvel.
 - E se for verdade, isso facilita muito as coisas.
Esperemos que seja verdade. - Poirot fez uma pausa
e acrescentou com simplicidade: - Ficarei contente,
porque tenho muita pena dela.
 Abriu-se a porta e Cornlia e Fanthorp apareceram.
 - No  horrvel? - exclamou Cornlia. - Pobre, pobre
Mistress Doyle! To bonita! S um monstro
a poderia ter ferido. E Mister Doyle vai ficar desesperado,
quando souber. Ainda ontem  noite estava to
preocupado, com medo que ela viesse a saber do incidente!
 -  justamente sobre isso que queremos certas informaes,
Miss Robson - disse Race. - Desejamos
saber exactamente o que se passou ontem  noite.
 Cornlia comeou a falar, um tanto confusamente,
mas, com uma ou outra pergunta, Poirot p-la no bom
caminho.
 - Ah, sim, compreendo. Depois do brdege, Madame Doyle
retirou-se. Mas teria ido para a sua cabina?
 - Foi, sim - disse Race. - Eu mesmo a acompanhei,
despedindo-me dela  porta da cabina.
 - A que horas?
 - Cus, isso no sei eu dizer - exclamou Cornlia.
 - Passavam vinte minutos das onze horas - disse Race.
 - Bien. Ento s onze e vinte, Madame Doyle estava viva.
Nessa ocasio, quais eram, exactamente, as
pessoas que estavam no salo?
 Desta vez foi Fanthorp quem respondeu:
 - Doyle, Miss de Bellefort, Miss Robson e eu.
 - Isso mesmo - confirmou Cornlia. - Mister Pennington
acabou o seu whiskey e retirou-se em seguida.
 - E isso foi... ?
 - Oh, trs ou quatro minutos depois.
 - Antes das onze e meia, ento?
 - Sim.
 - Ento s ficaram no salo: a senhora, Miss de
Bellefort, Mister Doyle e Mister Fanthorp. Que estavam todos a
fazer?
 - Mister Fanthorp estava a ler um livro; eu, a
bordar. Miss de Bellefort estava... estava...
 Fanthorp veio em auxlio de Cornlia.
 - Estava a beber muito.
 - Sim, conversava comigo, pedindo-me que lhe
contasse a minha vida. Mas dizia coisas esquisitas...
olhava para mim, mas as suas palavras pareciam dirigidas a
Mister Doyle. Ele estava furioso, mas no dizia
coisa alguma. Creio que achou que, se ficasse quieto,
ela se acalmaria.
 - Mas no foi o que aconteceu?
 Cornlia abanou a cabea.
 - Procurei retirar-me, uma ou duas vezes, mas ela
prendeu-me. Sentia-me constrangida... Depois, Mister
Fanthorp levantou-se e saiu...
 - Estava a ficar desagradvel - disse o rapaz. - Achei
prefervel sair discretamente. Miss de Bellefort
procurava armar abertamente uma cena.
 - E depois ela puxou o revlver - disse Cornlia.
- Mister Doyle deu um salto, mas a bala atingiu-o
na perna. E a ento Jacqueline comeou a chorar e
soluar... e eu fiquei apavorada, e corri atrs de Mister
Fanthorp e ele acompanhou-me, e Mister Doyle
pediu que no fizssemos escndalo, e um dos nbios
ouviu a detonao e veio saber o que era, e Mister
Fanthorp disse que no era nada, e ns levmos Jacqueline para
a cabina e Mister Fanthorp ficou com ela
enquanto fui chamar Miss Bowers!
 Cornlia parou, ofegante.
 - A que horas? - perguntou Race.
 Cornlia exclamou de novo:
 - Cus, isso no sei eu dizer!
 Mas Fanthorp respondeu prontamente:
 - Mais ou menos meia-noite e vinte. Sei que 
meia-noite e meia hora j eu estava na minha cabina.
 - Deixem-me ter a certeza sobre um ou dois pontos - disse
Poirot. - Depois que Mistress Doyle se
retirou, nenhum dos quatro saiu do salo?
 - No.
 - Tem a certeza de que Miss de Bellefort no saiu
dali?
 Fanthorp respondeu sem hesitar:
 - Absoluta. Nem Doyle, nem Miss de Bellefort,
nem eu ou Miss Robson samos do salo.
 - Muito bem. Isto prova que Miss de Bellefort
no poderia ter assassinado Mistress Doyle antes
de... digamos meia-noite e vinte. Agora, Miss Robson: a
senhora disse-nos que foi chamar Miss Bowers.
Miss de Bellefort ficou sozinha na cabina nesse perodo de
tempo?
 - No, Mister Fanthorp ficou com ela.
 - Muito bem. At agora, Miss de Bellefort tem
um libi perfeito. Miss Bowers  a prxima pessoa a
ser ouvida, mas antes de a mandar chamar, gostaria de
saber a sua opinio sobre um ou dois pontos. A senhora
disse-me que Mister Doyle estava ansioso para que
Miss de Bellefort no ficasse sozinha. Recearia ele por
acaso Que ela cometesse outro acto de loucura?
 -  essa a minha opinio - disse Fanthorp.
 - Acha que receava que ela atacasse Mistress Doyle?
 - No; no creio que fosse esse o seu receio - declarou
Fanthorp. - Na minha opinio, temia que
ela fizesse alguma loucura contra si prpria.
 - Suicdio?
 - Exactamente. O efeito do lcool parecia ter desaparecido e
ela estava desolada com o que fizera. Recriminava-se
veementemente, dizendo que preferia ter morrido.
 Cornlia disse timidamente:
 - Acho que Mister Doyle estava preocupado com
 ela. Falou muito suavemente... Que era culpa dele...
 que a maltratara. Foi muito... gentil.
 Hercule Poirot abanou a cabea, pensativo.
 - Agora, quanto ao revlver. Que fim levou?
 - Ela deixou-o cair - disse Cornlia.
 - E depois?
Fanthorp explicou que mais tarde fora procurar o
 revlver, no o tendo encontrado.
 - Ah! - exclamou Poirot. - Agora estamos perto. Por favor,
sejam precisos. Descrevam-me exacta mente o que aconteceu.
 - Miss de Bellefort deixou cair o revlver, dando -lhe em
seguida um pontap.
 - Como se sentisse repugnncia - disse Cornlia.
 - Compreendo exactamente como devia sentir-se.
 - E, conforme me disseram, o revlver foi parar
debaixo de uma poltrona. Agora, muita ateno: Miss de Bellefort no o apanhou, antes de sair do salo?
 Tanto Cornlia como Fanthorp foram positivos
neste ponto.
 - Precisamente. Apenas quero ter a certeza - disse Poirot. 
- Chegamos, ento, a este ponto. Quando Miss de Bellefort 
saiu do salo, o revlver estava sob a poltrona. E como 
depois disso Miss de Bellefort no ficou sozinha um s minuto, no teve oportunidade de ir ao salo para 
apanhar a arma. 
Que horas eram, Mister Fanthorp, quando voltou para o procurar?
 - Pouco antes da meia-noite e meia hora.
 - E quanto tempo se passou, desde o momento
em que o senhor e o doutor Bessner levaram Doyle
para fora do salo, at quele em que voltou para procurar
o revlver?
 - Cinco minutos... talvez um pouco mais.
 - Ento, nesses cinco minutos, algum tirou a arnuz
de debaixo da poltrona. Esse algum no era Miss de Bellefort.
Quem teria sido? Parece muito provvel que essa pessoa tenha
sido o assassino de Mistress Doyle.
Podemos tambm supor que essa pessoa viu ou ouviu
o que se passou no salo.
 - No sei por que motivo diz isso - interrompeu
Fanthorp.
 - Porque o senhor acabou de dizer que a arma estava debaixo
da poltrona, fora do alcance da vista de
quem quer que fosse. Acho, portanto, pouco provvel
que tivesse sido descoberta por acaso. Foi apanhada
por algum que sabia que estava ali. E, portanto, esse
algum deve ter assistido  cena.
 Fanthorp abanou a cabea.
 - No vi ningum quando sa para o tombadilho,
pouco antes de ser dado o tiro.
 - Ah, mas o senhor saiu pela porta a estibordo.
 - Sim, do mesmo lado da minha cabina.
 - Ento no teria visto uma pessoa que estivesse
a espiar pelos vidros da porta a bombordo?
 - No - confessou o rapaz.
 - Algum mais ouviu a detonao, a no ser
o criado nbio?
 - Que eu saiba, no.
 Depois de uma pequena pausa, Fanthorp continuou:
 - Lembro-me agora de que as janelas tinham sido
fechadas, porque Miss Van Schuyler sentira uma corrente de ar,
ao princpio da noite. As portas giratrias
tambm estavam fechadas. Duvido que a detonao
pudesse ser ouvida. Teria soado apenas como o estalo
de uma rolha ao saltar.
 - At agora ningum parece ter ouvido o segundo
tiro; aquele que matou Mistress Doyle - comentou Race.
 - Logo trataremos disso - disse Poirot. - Por
enquanto quero concentrar-me em Mademoiselle de
Bellefort. Precisamos de interrogar Miss Bowers. Mas
antes de sarem - com um gesto deteve Cornlia e
Fanthorp - desejo que me dem certas informaes
sobre as suas pessoas. Assim no ser necessrio 
cham-los novamente. Primeiro, o senhor: o seu nome,
completo?
 - James Lechdale Fanthorp.
 - Endereo?
 - Glasmore House, Market Donnington, Northamptonshire.
 - Profisso?
 - Sou advogado.
 - As suas razes para visitar este pas?
 Houve uma pausa. Pela primeira vez, o impassvel
Fanthorp pareceu desconcertado. Disse, finalmente,
quase balbuciando:
 - Hummm... por prazer.
 - Ah! - exclamou Poirot. - De frias, hem, de
frias?
 - Hummm... sim.
 - Muito bem, Mister Fanthorp. Queira dar-me
um resumo dos seus actos, depois dos acontecimentos
que acaba de expor.
 - Fui imediatamente para a cama.
 - A que horas?
 - Logo depois da meia-noite.
 - A sua cabina  a vinte e dois, a estibordo, a
mais prxima do salo?
 - Exactamente.
 - Mais uma pergunta. Ouviu alguma coisa... seja
o que for, depois de se retirar?
 Fanthorp pareceu reflectir.
 - Deitei-me imediatamente. Creio ter ouvido o
rudo de um baque na gua, quando ia a pegar no sono.
 - Ouviu? Perto?
 Fanthorp abanou a cabea.
 - Francamente, no o posso dizer. Eu estava meio
adormecido.
 - E a que horas devia ter sido isso?
 -  uma hora, mais ou menos. Francamente, no
posso precisar.
 - Muito agradecido, Mister Fanthorp. No quero
mais nada.
 Poirot voltou-se para Cornlia.
 - E agora, Miss Robson, o seu nome todo?
 - Cornlia Ruth. O meu endereo : The Red
House, Bellfield, Connecticut.
 - Porque veio ao Egipto?
 - Minha prima Marie, Miss Van Schuyler, convidou-me para vir
em sua companhia.
 - J conhecia Mistress Doyle, antes de a encontrar nesta
viagem?
 - No, no conhecia.
 - Que fez ontem  noite?
 - Fui imediatamente para a cama, depois de ter
ajudado o mdico a tratar da perna de Mister Doyle.
 - A sua cabina ...?
 - Quarenta e um, a bombordo, pegada  de Miss
de Bellefort.
 - Ouviu alguma coisa?
 - Nada, absolutamente nada.
 - Nenhum baque?
 - No. Nem poderia ouvir, pois do meu lado o
navio est encostado  margem.
 Poirot inclinou a cabea.
 - Muito agradecido, Miss Robson. Talvez possa
agora fazer-me a gentileza de me mandar Miss Bowers.
 Depois de Cornlia e Fanthorp sarem, Race voltou-se para
Poirot:
 - Parece claro. A no ser que trs testemunhas
independentes estejam a mentir, Jacqueline de Bellefort no
poderia ter reavido aquela arma. Mas algum
a apanhou. E algum presenciou a cena. E algum foi
bastante idiota para escrever a letra J na parede.
 Ouviu-se uma pancada na porta e Miss Bowers apareceu.
 A enfermeira sentou-se com a calma e correco
habituais. Respondeu s perguntas de Poirot, dizendo-lhe o
nome, endereo, profisso e acrescentando:
 - Estou ao servio de Miss Van Schuyler h mais
de dois anos.
 - A sade dessa senhora  realmente delicada?
 - No, no posso dizer que o seja - declarou
Miss Bowers. - J no  muito nova, e  nervosa
quanto  sua sade, de modo que gosta de ter sempre
uma enfermeira a seu lado. Mas no tem nenhuma
molstia grave. Gosta de ser servida, e est disposta a
pagar para isso.
 Poirot pareceu compreender.
 - Ouvi dizer que Miss Robson foi cham-la ontem,  noite,
Miss Bowers?
 - Foi, sim.
 - Pode dizer-me exactamente o que aconteceu?
 - Pois no! Miss Robson contou-me resumidamente a cena do
salo e eu acompanhei-a. Encontrei Miss de Bellefort num estado de grande excitao.
 - Fez alguma ameaa contra Mistress Doyle?
 - No, nada nesse gnero. Parecia tomada de
mrbido arrependimento. Tinha bebido muito, pelo
que me pareceu, e estava a sentir a reaco. Achei que
no devia ficar sozinha; dei-lhe uma injeco de morfina e
passei a noite a seu lado.
 - Agora, Miss Bowers, quero que me responda
francamente: Miss de Bellefort saiu da cabina?
 - No, no saiu.
 - E a senhora?
 - Fiquei com ela at hoje de manh.
 - Tem a certeza absoluta?
 - Absoluta.
 - Agradecido, Miss Bowers.
 Depois de a enfermeira sair os dois homens entreolharam-se.
 Jacqueline de Bellefort estava absolutamente inocente. Quem
teria assassinado Linnet Doyle?



CAPTULO 13

 Race disse:
 - Algum apanhou o revlver e esse algum no
foi Miss de Bellefort. Algum que sabia o bastante para pensar
que o crime seria atribudo a ela... Mas essa
pessoa ignorava que uma enfermeira iria ficar a seu lado toda
a noite, depois de lhe ter dado uma injeco
de morfina. E mais ainda: j houvera uma tentativa de
morte contra Linnet Doyle, quando aquela pedra rolou do
penhasco. Tambm disso Jacqueline de Bellefort estava
inocente. Quem, ento?
 - Ser mais simples procurarmos ver quem no
poderia ter sido - disse Poirot. - Mister Doyle, Mistress
Allerton, Mister Tim Allerton, Miss Van Schuyler e Miss Bowers
so inocentes, pois estavam ao alcance da minha vista naquele
momento.
 - Hummm - resmungou Race. - Ainda sobra
muita gente. E quanto ao motivo?
 - Acho que s Mister Doyle nos poder ajudar.
Houve vrios incidentes...
 A porta abriu-se e Jacqueline entrou. Estava muito
plida, e parecia atordoada.
 - No fui eu - disse em voz de criana amedrontada. - Oh,
por favor, acreditem em mim. Toda a gente vai pensar que 
fui eu... mas no fui... no fui!
 horrvel! Gostaria que no tivesse acontecido. A noite
passada, quase matei Simon... Creio que estava louca. Mas 
o outro tiro no fui eu que...
 Sentou-se, desatando a chorar.
 Poirot bateu-lhe levemente num ombro.
 - Vamos, vamos. Sabemos que no matou Mistress Doyle. Est
provado, sim, provado, mon enfant.
 Jackie endireitou-se bruscamente na cadeira.
 - Quem foi, ento?
 - Tambm gostaramos de o saber! - disse Poirot. - No pode
ajudar-nos em alguma coisa, minha menina?
 Jacqueline sacudiu a cabea.
 - No sei... No posso imaginar quem... No,
no tenho a menor ideia.
 Ficou alguns minutos de sobrancelhas contradas,
depois continuou:
 - No me posso lembrar de ningum que lhe desejasse a
morte... - aqui a voz de Jackie tremeu ligeiramente: -.. a
no ser eu.
 - Desculpem-me por um momento - interrompeu Race. - Acaba de
me ocorrer uma coisa.
 Saiu apressadamente.
 Jacqueline continuou sentada, de cabea baixa, torcendo
nervosamente as mos. De repente, exclamou:
 - A morte  uma coisa horrvel. Sim, horrvel.
Detesto lembrar-me dela.
 - Tem razo - disse Poirot. - No  agradvel, na verdade,
pensar que, agora, neste momento,
uma pessoa deve estar a regozijar-se com o xito do
seu crime.
 - No... diga isso! - exclamou Jackie. -  horrvel, dito
assim dessa maneira!
 Poirot replicou, encolhendo os ombros:
 -  verdade.
 Jackie murmurou baixinho:
 - Desejei a sua morte... e agora ela est morta...
E, mais ainda, morreu como eu disse que gostaria que
morresse!
 - Sim, mademoiselle. Levou um tiro na cabea.
 - Ento eu tinha razo, aquela noite, no Hotel
Catarata! Algum estava a ouvir.
 - Ah! Eu estava a pensar se se lembraria disso.
Sim,  demasiada coincidncia. Mistress Doyle ter morrido
exactamente da maneira que a senhora imaginou.
 Jackie estremeceu.
 - Aquele homem... quem poderia ter sido?
 Houve alguns minutos de silncio; depois, Poirot
perguntou em tom muito diferente:
 - Tem a certeza de que era um homem, mademoiselle?
 - Sim, naturalmente. Pelo menos...
 Ela franziu as sobrancelhas, fechou os olhos, esforando-se
por se lembrar melhor.
 - Pensei que fosse um homem - disse lentamente.
 - Mas agora j no tem a certeza?
 - No, no tenho a certeza. Julguei que fosse um
homem... mas era apenas um vulto... uma sombra...
 Fez uma pausa e, como Poirot nada dissesse, continuou:
 - Acha que talvez tenha sido uma mulher? Mas
nenhuma das mulheres deste navio pode ter motivos
para desejar a morte de Linnet, no  assim?
 Poirot no respondeu. A porta abriu-se e Bessner
apareceu.
 - Quer fazer o favor de vir ver Mister Doyle,
Monsieur Poirot? Ele deseja falar consigo.
 Jackie levantou-se de um salto, agarrando Bessner
pelo brao.
 - Como vai ele? Est... bem?
 - Claro que no est bem - respondeu o mdico
em tom de censura. - Houve fractura.
 - Mas no morrer?
 - Ach, quem falou em morrer? Quando chegarmos a um lugar
civilizado, ele tirar uma radiografia e
receber o tratamento adequado.
 A jovem torceu convulsivamente as mos, caindo
de novo na cadeira.
 Poirot saiu com o mdico. Nesse momento, Race
veio reunir-se a eles. Percorreram o tombadilho de
passeio, at  cabina de Bessner.
 Simon Doyle estava deitado, a sua palidez era
impressionante, tanto pela dor como pelo choque que levara.
Mas a expresso principal da sua fisionomia era
perplexidade - a penosa perplexidade de uma criana.
 - Entrem, por favor - disse ele. - O mdico
contou-me... a respeito de Linnet... No posso acreditar. No
posso acreditar que seja verdade.
 - Sim, deve ter sido um choque horrvel - disse
Race.
 Simon balbuciou:
 - Os senhores sabem... no foi Jackie. Tenho a
certeza de que no foi Jackie! As aparncias so contra
ela, no h dvida, mas tenho a certeza de que no 
culpada. Estava... um pouco embriagada, a noite passada, e
muito excitada; foi por isso que me alvejou.
Mas Jackie no cometeria um... assassnio... a sangue-frio...
 Poirot disse suavemente:
 - No fique assim perturbado, Mister Doyle.
No foi Miss de Bellefort quem matou sua esposa.
 Simon fitou-o com ar de dvida.
 - Est a falar srio?
 - Mas j que no foi Miss de Bellefort, pode dar-nos uma
ideia de quem poderia ter sido?
 Simon abanou a cabea, parecendo ainda atordoado.
 -  absurdo... impossvel. A no ser Jackie, ningum tinha
motivo para lhe desejar mal.
 - Reflicta, Mister Doyle. No tinha inimigos?
No existe ningum com razes de queixa contra ela?
 Simon sacudiu negativamente a cabea.
 -  absurdo, fantstico. H, naturalmente, Windlesham. Ela
desquitou-se dele para casar comigo. Mas
no vejo que um rapaz correcto como Windlesham possa
cometer um crime... Alm do mais, est a muitas milhas
de distncia daqui. O mesmo se aplica a Sir George
Wode. Tinha um pequeno ressentimento contra Linnet, reprovando
a maneira como ela modificou a casa,
mas tambm ele est longe; e, em todo o caso, seria ridculo
pensar em algum cometer um crime por motivo to ftil.
 - Oia, Mister Doyle. No primeiro dia, aqui, a
bordo do Karnak, fiquei impressionado com uma conversa que
tive com sua esposa - disse Poirot vivamente. - Estava muito
aborrecida, muito preocupada.
Disse: (preste ateno s minhas palavras!) disse que
toda a gente a odiava. Que estava com medo, que se
sentia em perigo, como se cada pessoa  sua volta fosse
um inimigo.
 - Ficou realmente perturbada quando viu Jackie
a bordo. O mesmo se deu comigo - disse Simon.
 -  verdade, mas isso no basta para explicar tais
palavras. Quando disse que estava cercada de inimigos, com
certeza exagerou, mas sem dvida nenhuma
referia-se a mais de uma pessoa.
 - Talvez nisso tenha razo - concordou Simon.
- Creio que posso explicar... Ficou muito perturbada
com um nome que viu na lista dos passageiros.
 - Um nome na lista dos passageiros? Que nome?
 - Bom, para falar a verdade, no sei. Eu no ouvi
com ateno, to preocupado ficara com a apario de
Jacqueline. Se bem me lembro, Linnet falou em prejuzos, em
negcios, e que no se sentia  vontade
quando encontrava algum que tinha uma queixa contra a sua
famlia. Embora no conhea muito bem a
histria da famlia, sei que a me de Linnet era filha
de um milionrio. Seu pai era apenas abastado, mas
depois do casamento naturalmente comeou a jogar na
Bolsa, ou seja l o que for. Como resultado destas
transaces, naturalmente muitas pessoas tiveram prejuzos. O
senhor sabe a histria: abastana num dia,
misria no outro. Muito bem: pelo que percebi, estava
a bordo o filho de um homem que sofrera um grande
desastre financeiro por causa do pai de Linnet. Lembro-me de
t-la ouvido dizer: " horrvel a gente saber
que  detestada por uma pessoa que nem ao menos
nos conhece. "
 - Sim... - disse Poirot com ar pensativo. - Isso
explica o que ela me disse. Pela primeira vez na vida
estava a sentir o peso, no as vantagens, da sua posio. Tem
a certeza, Mister Doyle, de que ela no disse
o nome do homem?
 Simon abanou a cabea com ar desanimado.
 - Francamente, no prestei muita ateno. Sei
que respondi: "Oh, hoje em dia ningum se incomoda
muito com o que aconteceu com os pais. A vida caminha
demasiadamente depressa para isso."
 Bessner disse secamente:
 - Ach, mas tenho um palpite. Existe a bordo um
rapaz que demonstra ressentimento.
 - Ferguson? - perguntou Poirot.
 - Sim. Falou uma ou duas vezes contra Mistress Doyle. Eu
mesmo o ouvi.
 - Que podemos fazer para ter a certeza? - perguntou Doyle.
 - Race e eu temos que interrogar todos os passageiros -
declarou Poirot. - At ouvirmos o que tm
a dizer, seria leviandade formar opinio. H ainda a
criada... Acho que deve ser a primeira a ser interrogada. A
presena de Mister Doyle talvez nos seja til.
 - Boa ideia - concordou Simon.
 - Estava h muito tempo ao servio de Mistress Doyle?
 - Mais ou menos dois meses.
 - S dois meses? - exclamou Poirot.
 - O senhor no supe...
 - Sua esposa tinha jias de valor?
 - Tinha o colar de prolas. Disse-me que valia
quarenta ou cinquenta mil libras. - Simon estremeceu
ligeiramente e exclamou: - Meu Deus, acha que
aquelas malditas prolas...
 - O mbil do crime pode ter sido o roubo - disse Poirot. -
Se bem que parea impossvel... Bom,
veremos. A criada que venha c.
 Louise Bourget era a moreninha viva que Poirot
vira, certa vez, no tombadilho.
 Mas agora a vivacidade desaparecera do seu rosto.
Via-se que tinha chorado e parecia amedrontada, e no
entanto havia no seu rosto uma expresso profundamente
astuciosa, que impressionou desagradavelmente os dois homens.
 - O seu nome  Louise Bourget?
 - Sim, monsieur.
 - Quando foi que viu Mistress Doyle com vida
pela ltima vez?
 - A noite passada, monsieur. Esperei para a ajudar
a despir-se.
 - Que horas eram?
 - Um pouco depois das onze, monsieur. No posso dizer a hora
exacta. Esperei que a senhora me dispensasse e depois sa.
 - Quanto tempo levou tudo isso?
 - Dez minutos, monsieur. A senhora estava cansada. Disse-me
que apagasse as luzes antes de sair.
 - Depois de a deixar, que fez voc?
 - Fui para a minha cabina, monsieur, no tombadilho de baixo.
 - E no viu nem ouviu nada que nos possa servir
de esclarecimento?
 - Como poderia eu, monsieur?...
 - Isso s voc nos poder dizer - replicou Poirot.
 A mulher olhou-o de soslaio e continuou:
 - Mas, monsieur, eu no estava perto... como poderia eu ver
ou ouvir alguma coisa? Eu estava no tombadilho de baixo. A
minha cabina fica do outro lado do navio. Teria sido impossvel ouvir qualquer coisa.
Claro que se no tivesse sentido sono, se tivesse subido
as escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro,
entrar ou sair da cabina de madame; mas, como
no foi assim...
 Ergueu as mos num gesto suplicante, dirigindo-se
a Simon:
 - Monsieur, por favor... Compreende a minha situao? Que
posso eu dizer?
 - Minha cara menina, no seja tola - repreendeu
Simon asperamente: - Ningum pensa que viu ou
ouviu coisa alguma. No se preocupe. Cuidarei de si.
Ningum pensa em acus-la...
 - Monsieur  muito bom - murmurou Louise,
baixando modestamente os olhos.
 - Podemos ter ento a certeza de que nada viu ou
ouviu? - perguntou Race com impacincia.
 - Foi o que eu disse, monsieur.
 - E no conhece ningum que tivesse alguma
queixa contra a sua patroa?
 Com grande surpresa de todos, Louise abanou vigorosamente a
cabea.
 - Oh, sim. Isso sei. A essa pergunta posso responder
"sim", com a maior certeza deste mundo.
 - Refere-se a Mademoiselle de Bellefort? - perguntou Poirot.
 - Quanto a ela, no h dvida. Mas no era em
Miss de Bellefort que eu pensava. H um homem neste navio que
no gostava de madame, e que estava
muito zangado porque ela o havia prejudicado.
 - Deus do Cu, que significa tudo isso? - exclamou Simon.
 Louise continuou, abanando enfaticamente a cabea:
 - Sim, sim,  como digo! O caso deu-se com a antiga criada
de madame, que a servira antes de mim.
Um homem, um dos maquinistas deste vapor, queria
casar-se com ela. A outra criada, Marie, era o seu nome,
estava disposta a casar-se com ele. Mas Madame
Doyle tirou informaes sobre o homem e descobriu
que esse tal Fleetwood j era casado... com uma mulher de cor,
os senhores compreendem, natural deste
pas. Ela voltara para viver com a famlia, mas continuava
ainda a ser mulher dele. Madame contou isto a
Marie, e ela ficou muito triste e no quis mais saber
de Fleetwood. O homem ficou furioso, e quando descobriu que
Madame Doyle se chamara Miss Linnet
Ridgeway, antes do casamento, disse-me que gostaria
de a matar! Estragara-lhe a vida, intrometendo-se onde no era
chamada; foi o que ele me disse.
 Louise parou, triunfante.
 - Interessante - comentou Race.
 Poirot voltou-se para Simon e perguntou:
 - Sabia disso, por acaso?
 - No - respondeu Simon com evidente sinceridade. - Duvido
mesmo que Linnet soubesse que o homem trabalhava neste navio. Provavelmente, ela j se esquecera do 
incidente.
 Voltou-se bruscamente para a criada e perguntou:
 - Falou sobre isso a Mistress Doyle?
 - No, monsieur, claro que no.
 - Sabe alguma coisa a respeito do colar da sua patroa? -
perguntou Poirot.
 - O colar? - exclamou Louise arregalando os
olhos. - Ontem  noite ainda o usou.
 - Voc viu o colar, quando Mistress Doyle se foi
deitar?
 - Sim, monsieur.
 - Onde foi que ela o guardou?
 - Na mesinha de cabeceira, como de costume.
 - Foi onde o viu pela ltima vez?
 - Sim, senhor.
 - Viu-o ali hoje de manh?
 Uma expresso assustada apareceu no rosto da rapariga.
 - Mon Dieu, nem me lembrei de olhar! Aproximei-me da cama,
depois vi... vi madame. Sa a correr e
desmaiei.
 Hercule Poirot inclinou gravemente a cabea.
 - Voc nem ao menos olhou. Mas eu tenho olhos
observadores, e digo-lhe que no havia nenhum colar
na mesinha de cabeceira, hoje de manh.



CAPTULO 14

 Poirot no se enganara. O colar no estava na mesinha de
cabeceira de Linnet.
 Louise Bourget foi encarregada de dar uma busca
nas coisas de Mrs. Doyle; estava tudo em ordem, segundo ela
disse. Somente haviam desaparecido as prolas.
 Saram da cabina. Um dos criados de bordo veio
dizer que a refeio estava pronta na sala de fumo.
 Quando percorriam o tombadilho, Race parou para
se debruar na amurada.
 - Ah! Vejo que tem uma ideia, meu amigo - exclamou Poirot.
 - Sim, ocorreu-me de repente, quando Fanthorp
disse que tinha ouvido um baque na gua. Tambm eu
acordei ontem  noite, pensando ter ouvido esse mesmo rudo. 
bem possvel que, depois do crime, o assassino tenha atirado a
arma fora.
 - Acha isso possvel, meu amigo?
 Race encolheu os ombros e replicou:
 -  apenas uma sugesto. Afinal de contas, a arma no foi
encontrada na cabina. Foi a primeira coisa
que procurei.
 - Assim mesmo, parece incrvel que tenha sido
atirada  gua.
 - Onde est, ento?
 - Se no est na cabina de Mistress Doyle, logicamente s h
um lugar onde poder ser encontrada.
 - E ...?
 - A cabina de Mademoiselle de Bellefort.
 - Sim, compreendo...
 Race parecia reflectir. E depois, em tom brusco:
 - A pequena no est na cabina agora. Vamos
examin-la?
 Mas no era essa a ideia de Poirot.
 - No, no, meu amigo. No sejamos precipitados. Talvez
ainda no tenha sido levada para l.
 - Que acha uma busca imediata a todo o navio?
 - Dessa maneira ficariam a saber o que pensamos. Precisamos
de agir com a maior cautela. A nossa
posio , neste momento, muito delicada. Vamos discutir a
situao enquanto comemos.
 Entraram na sala de fumo.
 - Ento? - disse Race servindo-se de caf. - Temos dois
indcios: o desaparecimento das prolas, e
aquele tal Fleetwood. Quanto ao colar, tudo leva a acreditar
em roubo, mas... no creio que concorde comigo...
 Poirot disse vivamente:
 - No acha que a escolha do momento foi um
tanto infeliz?
 - Exactamente. O roubo de um colar daquele valor acarretaria
uma busca rigorosa. Todos os passageiros teriam que ser
revistados: como poderia ento o
ladro esperar escapar?
 - Poderia ter ido a terra, escondendo-o em qualquer parte.
 - A companhia tem sempre um guarda na margem.
 - Ento no seria possvel... Teria o assassnio sido
cometido para distrair a ateno do roubo? No, isto 
um absurdo! Mas suponhamos que Mistress Doyle tenha acordado e
apanhado o ladro em flagrante?...
 - E o homem matou-a? Mas ela estava a dormir
quando levou o tiro.
 - Ento, tambm isso est fora de discusso. Sabe
uma coisa?... Tenho um palpite a respeito destas prolas... e
no entanto... no,  impossvel. Porque, se o
meu palpite estivesse certo, as prolas no teriam
desaparecido. Diga-me: qual  a sua opinio sobre a criada?
 - Achei que sabia mais do que quis dar a entender -
respondeu Race lentamente.
 - Ah, tambm voc teve essa impresso?
 - No  nada simptica.
 - Tem razo. Eu no poderia ter confiana naquela pequena.
 - Acha que teve alguma relao com o crime?
 - No, no o creio.
 - Com o roubo das prolas, ento?
 - Isso  mais provvel. H pouco tempo que estava ao servio
de Mistress Doyle. Pode ser que faa
parte de alguma quadrilha especializada em roubos de
jias; nestes casos, h sempre uma criada com ptimas
referncias. Infelizmente, no nos  possvel tirar
informaes a respeito dela. Alm do mais, esta explicao no
me satisfaz... Aquelas prolas... ah, sacr, o
meu palpite devia estar certo. E, no entanto, ningum
seria imbecil a ponto de...
 Poirot interrompeu-se bruscamente. Race perguntou:
 - E quanto a Fleetwood?
 - Precisamos de o interrogar. Talvez esteja a a
soluo. Se a histria de Louise  verdadeira, ele tinha
motivo para desejar vingar-se. Poderia ter assistido 
cena entre Jacqueline e Mister Doyle, entrando depois
no salo vazio para se apoderar da arma. Sim,  possvel. E
aquela letra J escrita com sangue... Tambm est de acordo com
a psicologia de uma criatura rude.
 - Quer dizer que  exactamente a pessoa que procuramos?
 - Sim... s se...
 Poirot coou o nariz e respondeu com uma careta:
 - V voc, reconheo as minhas fraquezas. Dizem
que gosto de tornar difceis os meus casos. A soluo
que voc sugere...  to simples... fcil de mais... No
acho possvel que tenha realmente sucedido dessa maneira. E,
no entanto, talvez seja simples preveno da minha parte.
 - Bom, talvez seja melhor chamarmos o homem aqui.
 Race tocou a campainha. Depois de o criado se retirar, Race
voltou-se novamente para Poirot:
 - Outras... probabilidades?
 - Muitas, meu amigo. Tomemos, por exemplo,
o procurador americano.
 - Pennington?
 - Sim, Pennington. Assisti, um dia destes, a uma
cena curiosa.
 Poirot contou a Race o que acontecera e continuou:
 - V, pois, que  significativo. Madame queria ler
todos os papis, antes de os assinar. E ele, ento, deu
a desculpa de um outro dia. E o marido fez uma observao
muito significativa!
 - Qual?
 - Disse: "Nunca leio documento algum. Assino onde
me mandam assinar." Percebe como  significativo?
Pennington percebeu. Foi como se eu tivesse lido isso
no seu olhar. Fitou Doyle como se uma ideia inteiramente nova
lhe tivesse passado pela cabea. Imaginemos, meu amigo, que
voc  procurador da filha de um homem imensamente rico. Talvez tenha usado o dinheiro para especular. 
Sei que  
o que acontece em novelas policiais, mas de vez em quando a gente l tambm sobre isso nos jornais.  
coisa que acontece,
meu amigo, acontece.
 - No duvido - declarou Race.
 - Talvez ainda haja tempo para especular loucamente. Talvez
a pupila ainda no tenha atingido a maioridade. E ento... ela casa-se! A administrao do dinheiro passa, 
de um momento para o outro, das suas mos para as dela! Catstrofe!... Mas ainda h uma esperana.
Ela est em lua-de-mel. Talvez se descuide...
Um documento enfiado no meio dos outros; assinado,
talvez, sem ser lido... Mas Linnet Doyle no era desse
tipo. Com ou sem lua-de-mel, era uma mulher de negcios. E
ento seu marido faz uma observao, e uma
nova ideia ocorre ao homem que desesperadamente
procura salvar-se da runa. Se Linnet morresse, a fortuna
passaria para as mos do marido, e com ele seria
to fcil lidar! Seria como uma criana nas mos de
um homem astuto como Andrew Pennington. Mon
cher coronel, garanto-lhe que vi o pensamento passar
pela mente de Pennington. "Se eu tivesse que tratar
com Doyle..." Sim, foi este o pensamento de Andrew
Pennington.
 - Talvez - disse Race secamente. - Mas voc
no tem provas.
 - No, infelizmente.
 - E h tambm aquele tal Ferguson. Fala com
bastante azedume... No que me impressione com palavras;
apesar disso,  possvel que ele seja o filho do
homem que foi levado  runa pelo pai de Linnet. Sei
que  arriscado, mas no impossvel. H gente que fica s
vezes a remoer injrias passadas.
 Race ficou em silncio por alguns minutos, e depois disse:
 - E h tambm o meu homem.
 - Sim, h o "seu homem", como voc diz.
 -  um assassino - declarou Race. - Quanto a
isso no h dvida. Por outro lado, no vejo que ligao 
possa ter tido com a famlia de Linnet. Vivem em
esferas completamente diversas.
 Poirot disse lentamente:
 - A no ser que, acidentalmente, Mistress Doyle
tenha descoberto a identidade dele.
 -  possvel, mas pouco provvel. - Race interrompeu-se ao
ouvir uma pancada na porta. Depois:
- Ah, aqui est o nosso quase bgamo.
 Fleetwood era um homem alto e de aparncia feroz. Olhou,
desconfiado, de um para o outro. Poirot
reconheceu nele o homem que vira no tombadilho a
conversar com Louise Bourget.
 Fleetwood perguntou:
 - Mandou-me chamar?
 - Mandei - disse Race. - Talvez tenha ouvido
dizer que foi cometido um crime neste vapor, ontem 
noite?
 O homem inclinou a cabea.
 - E creio que voc tinha motivos para no gostar
da mulher que foi assassinada.
 Uma expresso de alarme surgiu no olhar de Fleetwood.
 - Quem lhe disse isso?
 - Acho que Mistress Doyle se intrometera entre
voc e uma certa rapariga.
 - Sei quem lhe contou isso: aquela francesa vagabunda.  uma
grande mentirosa, essa rapariga.
 - Mas aconteceu que  verdade.
 -  mentira!
 - Diz isso sem saber ainda do que se trata.
 O alvo foi atingido. O homem enrubesceu, engolindo em seco.
 -  verdade, no , que ia casar-se com uma rapariga chamada
Marie, e que ela desmanchou o noivado quando soube que voc j
era casado?
 - Que tinha ela com isso?
 - Quer dizer: que tinha Mistress Doyle com isso?
Bom, voc sabe, bigamia  bigamia.
 - No foi nada assim. Casei-me com uma das nativas daqui.
Ela voltou para a sua famlia. No a vejo h seis anos.
 - Mas ainda est casado com ela.
 O homem ficou em silncio e Race continuou:
 - Mistress Doyle, ou Miss Ridgeway, como se
chamava naquele tempo, descobriu tudo...
 - Sim, e que Deus a amaldioe! Metendo-se naquilo que no
lhe dizia respeito... Eu teria sido bom
para Marie. Teria feito tudo pela sua felicidade. E ela
nunca teria sabido nada da outra, se no fosse por
aquela sua patroa intrometida. No nego que tinha esta razo
de queixa contra aquela senhora, e fiquei revoltado quando a
vi neste navio, toda bem vestida e
cheia de jias, mandando em Deus e toda a gente, sem
se lembrar que estragara para sempre a vida de um homem!
Fiquei revoltado, sim... Mas da a pensarem
que sou um miservel assassino... se pensam que peguei num
revlver e a matei... Bom, isso no passa de
uma grande mentira! Nunca lhe toquei. E que Deus
me sirva de testemunha.
 O homem parou, o suor escorria-lhe da testa.
 - Onde estava voc ontem, entre a meia-noite e as
duas da manh?
 - Na minha cama. E o meu companheiro poder
confirmar o que digo.
 - Veremos - disse Race, despedindo-o com uma
seca inclinao de cabea. - Por enquanto  s isto.
 - Eh bien? - disse Poirot quando a porta se fechou.
 Race encolheu os ombros.
 - Falou muito coerentemente. Est nervoso, 
claro, mas no excessivamente. Teremos que verificar
o seu libi, se bem que no creio que seja decisivo.
O companheiro dele provavelmente estava a dormir, e
este sujeito poderia ter entrado e sado sem que o outro
percebesse coisa alguma. Depende de sabermos se
mais algum o viu.
 - Sim, precisamos de averiguar.
 - O prximo facto a investigar, na minha opinio,
 se algum ouviu qualquer coisa que nos d uma ideia
da hora do crime. Bessner diz que ocorreu entre a
meia-noite e as duas da manh.  possvel que algum
dos passageiros tenha ouvido a detonao, mesmo que
no a tenham reconhecido como um tiro. Por mim,
no ouvi nada semelhante. E voc?
 Poirot sacudiu a cabea.
 - Dormi como um frade. No ouvi nada, absolutamente nada.
Mesmo que estivesse narcotizado, no
teria dormido mais profundamente.
 -  pena - disse Race. - Bom, esperemos obter
mais resultado com as pessoas que tm cabinas a estibordo. J
interrogmos Fanthorp. Em seguida, vm os
Allerton. Vou mandar cham-los.
 Mrs. Allerton entrou com muita vivacidade. Envergava um
vestido cinzento, de seda listrada.
 -  horrvel! - disse, ao aceitar a cadeira que
Poirot lhe ofereceu. - Mal posso acreditar... Aquela
linda criatura, com tudo para a prender  vida... morta desta
maneira! Mal posso realmente acreditar.
 - Sei como se sente, madame - disse Poirot em
tom compreensivo.
 - Ainda bem que o senhor est a bordo - disse
ela simplesmente. - Assim poder descobrir quem
cometeu o crime. Fiquei contente por saber que no
foi aquela pobre rapariga de rosto trgico.
 - Mademoiselle de Belleford? Quem lhe contou
que no foi ela?
 - Cornlia Robson - respondeu Mrs. Allerton
com a sombra de um sorriso. - Sabe, ela est excitadssima com
toda esta histria!  provavelmente a nica coisa fora do
comum que lhe aconteceu na vida e
que jamais acontecer. Mas  muito nova, e envergonha-se de
gozar com os acontecimentos. Acha que 
horrvel da sua parte.
 Mrs. Allerton fitou Poirot durante alguns segundos, depois
acrescentou:
 - Mas no devo tagarelar. O senhor tem algumas
perguntas a fazer-me?
 - Sim, por favor. A que horas se deitou, madame?
 - Logo depois das dez e meia.
 - E dormiu imediatamente?
 - Sim; estava com sono.
 - E ouviu alguma coisa... seja o que for, durante
a noite?
 Mrs. Allerton franziu as sobrancelhas.
 - Sim, creio que ouvi um baque e algum correr... ou teria
sido o contrrio? Estou um pouco confusa. Tive a vaga ideia de
que algum cara ao mar...
Sonho, o senhor compreende. Mas depois acordei e fiquei 
escuta, e nada mais ouvi.
 - E sabe a que horas foi isso?
 - No, infelizmente no. Mas no creio que tenha
sido muito depois de me ter deitado; isto , durante a
primeira hora ou pouco mais tarde.
 - Infelizmente, madame, isso  muito vago!
 - Tem razo. Mas no vale a pena eu querer adivinhar, quando
na realidade no tenho a menor ideia, no  verdade?
 - E  s o que tem a dizer-nos, madame?
 - Infelizmente, .
 - J conhecia Mistress Doyle, antes desta viagem?
 - No. Tim conhecia-a. E eu j ouvira falar muito dela, por
uma prima, Joana Southwood, mas nunca
tnhamos trocado uma palavra, at quele dia, no terrao do
hotel, em Assuo.
 - Se me d licena, madame, tenho outra pergunta a
fazer-lhe.
 Mrs. Allerton murmurou com um leve sorriso:
 - Gostaria imenso que me fizesse uma pergunta
 indiscreta.
 - Muito bem. A senhora, ou pessoa de sua famlia,
 teve algum prejuzo financeiro, em consequncia de
transaces com Melhuish Ridgeway, pai de Mistress Doyle?
 A pergunta pareceu surpreender Mrs. Allerton.
 - Oh, no. As finanas da famlia nunca sofreram, a no ser
uma ligeira depresso... O senhor sabe, tudo rende menos do que costumava render... No houve nada de 
melodramtico na nossa pobreza. Meu marido deixou uma fortuna pequena, mas ainda conservo o que 
herdei, embora os juros no sejam os mesmos daquele tempo.
 - Agradecido, madame. Talvez queira ter a bondade de nos
mandar o seu filho?
 Tim disse a Mrs. Allerton, quando esta foi procur-lo:
 - Acabou-se a prova? Chegou a minha vez. Que espcie de perguntas lhe fizeram?
 - Apenas se eu tinha ouvido alguma coisa ontem  noite. E, infelizmente, no ouvi coisa alguma. No sei 
como... Afinal 
de contas, a cabina de Linnet  quase pegada  minha. Acho que devia ter ouvido a detonao. Vai agora, 
Tim; esto  tua espera.
 Poirot fez a Tim a mesma pergunta que a Mrs. Allerton, e ele
respondeu:
 - Fui cedo para a cama, s dez e meia, mais ou
menos. Li um pouco, e apaguei a luz logo depois das
onze horas.
 - Ouviu alguma coisa depois disso?
 - Ouvi uma voz de homem, dizendo boa noite,
no muito longe da minha cabina.
 - Devia ser eu, despedindo-me de Mistress Doyle
 - Disse Race.
 - Com certeza. Depois disso fui para a cama.
 Mais tarde, ouvi rudos confusos: algum chamando
 Fanthorp, lembro-me agora.
 - Era Miss Robson, ao sair do salo envidraado.
 - Sim, com certeza foi isso. E depois ouvi vrias
vozes diferentes. E algum correndo pelo tombadilho,
e um baque na gua. E depois a voz do velho Bessner,
recomendando em tom no muito baixo: "Cuidado,
agora." E ainda: "No ande depressa demais."
 - Ouviu um baque?
 - Qualquer coisa desse gnero.
 - Tem a certeza de que no foi uma detonao?
 - Bom, talvez tenha sido isso. Deu-me a impresso
do estalo de uma rolha ao saltar.  possvel que tenha
sido um tiro. Talvez eu tenha imaginado o baque, por
associao de ideias; o rudo da rolha fazendo-me lembrar
algum lquido a ser despejado num copo... Sei
que, na nebulosidade do meu pensamento, achei que
estava a dar-se uma festa, ou coisa parecida. E desejei
que fossem todos para a cama e ficassem quietos!
 - Nada mais, depois disso?
 Tim pareceu reflectir.
 - Somente Fanthorp movendo-se na sua cabina,
que  pegada  minha. Pensei que nunca mais fosse
para a cama.
 - E depois?
 Tim encolheu os ombros.
 - Depois... o esquecimento.
 - No ouviu mais nada?
 - Absolutamente nada.
 - Muito agradecido, Mister Allerton.
 Tim levantou-se e saiu.



CAPTULO 15

 Race estudava a planta do tombadilho de passeio.
 - Fanthorp, Tim Allerton, Mistress Allerton. Depois uma
cabina vazia, a de Simon Doyle. A velha
americana. Se algum ouviu alguma coisa, tambm ela
deve ter ouvido.  melhor mandarmos cham-la, se j
estiver a p.
 Miss Van Schuyler entrou na cabina, parecendo
ainda mais velha e amarela naquela manh. Os olhitos
pretos tinham uma venenosa expresso de contrariedade.
 Race ergueu-se e inclinou-se diante dela.
 - Sentimos muito ter que a incomodar, Miss Van
Schuyler. Foi muita bondade sua... Queira sentar-se.
 A velhota disse secamente:
 - Acho detestvel ver-me metida nisto; detestvel! No quero
de modo algum envolver-me em... hummm... negcio to desagradvel.
 - Tem razo, tem razo. Eu estava justamente a
dizer a Monsieur Poirot que, quanto mais cedo ouvssemos o seu
depoimento, melhor, pois assim no teramos mais que a
incomodar.
 Miss Van Schuyler fitou Poirot com expresso um
pouco mais benevolente.
 - Fico satisfeita por ver que os senhores compreendem os
meus sentimentos. No estou habituada a estas coisas.
 Poirot disse suavemente:
 - De acordo, mademoiselle.  exactamente por isso que
queremos deix-la livre de aborrecimentos o
mais depressa possvel. Agora: a que horas se deitou
ontem?
 - Deito-me sempre s dez horas. Ontem, fiquei
um pouco atrasada, porque, muito desatenciosamente,
Cornlia fez-me esper-la.
 - Trs bien, mademoiselle. Agora: que ouviu depois de se ter
retirado?
 Miss Van Schuyler explicou:
 - Tenho o sono muito leve.
 -  merveille.  uma sorte para ns.
 - Acordei com a voz daquela espalhafatosa criada
de Mistress Doyle, dizendo: "Bonne nuit, madame",
em voz alta de mais, na minha opinio.
 - Depois?
 - Adormeci novamente. Acordei com a impresso
de que algum estava na minha cabina, mas no tardei
a perceber que o rudo vinha da cabina vizinha.
 - A de Mistress Doyle?
 - Sim. Depois ouvi passos no tombadilho e em
seguida um baque na gua.
 - No sabe mais ou menos que horas eram?
 - Posso dizer exactamente a hora. Uma e dez.
 - Tem a certeza?
 - Tenho, sim. Olhei para o relgio, que estava na
mesa de cabeceira.
 - No ouviu uma detonao?
 - No; nem nada desse gnero.
 - Mas quem sabe se no foi a detonao que a
acordou?
 Miss Van Schuyler pareceu reflectir, inclinando ligeiramente
a cabea.
 - Talvez - respondeu, contrariada.
 - E no tem a menor ideia do que possa ter causado esse
baque na gua?
 - Pelo contrrio. Sei perfeitamente o que foi.
 Race endireitou-se, de olhar alerta.
 - Sabe?
 - Claro! No gostei daquele rudo de passos a
meio da noite. Levantei-me, portanto, e fui at  porta
da minha cabina. Miss Otterbourne estava debruada
na amurada e acabava de atirar qualquer coisa  gua.
 - Miss Otterbourne?
 - Distingui-lhe perfeitamente o rosto.
 - E ela no a viu, mademoiselle?
 - No o creio.
 Poirot inclinou-se e perguntou:
 - E qual a expresso do rosto de Miss Otterbourne?
 - Parecia profundamente alterada.
 Os dois homens entreolharam-se. Race perguntou:
 - E ento?
 - Miss Otterbourne afastou-se para o lado da popa e eu
voltei para a cama.
 Neste momento, bateram  porta e o gerente apareceu,
trazendo nas mos um embrulho encharcado.
 - Encontrmos, coronel.
 Race estendeu a mo e desembrulhou, dobra por
dobra, o tecido de veludo. Caiu de dentro um leno
grosseiro, com manchas cor-de-rosa, que envolvia um
revolverzinho de cabo de madreprola.
 Race fitou Poirot com ar de malicioso triunfo.
 - V? A minha ideia no era assim to m. Foi
atirado  gua - disse ele, colocando o revlver na
palma da mo. - Que diz a isto, Monsieur Poirot?
 o revlver que viu no Hotel Catarata, naquela noite?
 O detective examinou-o com cuidado, depois disse
calmamente:
 - Sim,  o mesmo. C esto os enfeites no cabo
e... as iniciais: J. B.  um article de luxe, muito feminino,
mas apesar disso perigoso.
 - Vinte e dois... - murmurou Race, examinando-o tambm. -
Duas balas batidas. No h dvida
nenhuma de que  esta a arma.
 Miss Van Schuyler tossiu de maneira significativa.
 - E que acham da minha charpe?
 - A sua charpe, mademoiselle?
 - Sim, isto que o senhor tem a na mo  a minha
charpe de veludo!
 Race examinou o tecido macio e perguntou:
 - Isto  seu, Miss Van Schuyler?
 - Claro que  meu! - exclamou a velha secamente. - Dei pela
sua falta ontem  noite. Perguntei a todos se tinham visto a
minha charpe.
 Poirot consultou Race com o olhar e este inclinou a
cabea em sinal de assentimento.
 - Onde a viu pela ltima vez, Miss Van Schuyler?
 - Estava a meu lado, no salo, ontem  noite.
Quando me levantei para me ir deitar, no consegui
encontr-la.
 Poirot perguntou tranquilamente:
 - Percebe para que foi usada?
 Ao dizer isto, abriu a charpe, mostrando vrios furinhos no
tecido.
 - O assassino usou-a para amortecer a detonao -
acrescentou ele.
 - Que topete! - exclamou Miss Van Schuyler,
corando violentamente.
 Race disse ento:
 - Ficar-lhe-ei muito agradecido, Miss Van Schuyler, se me
disser quais as suas relaes com Mistress
Doyle, anteriormente a esta viagem.
 - Essas relaes eram inexistentes.
 - Mas conhecia-a?
 - Sabia quem era, naturalmente.
 - Mas a sua famlia e a dela no se davam?
 - A minha famlia foi sempre exigente, coronel
Race. Minha me jamais sonharia em ir visitar uma
pessoa da famlia Hartz, que, a no ser pelo seu dinheiro,,
era gente que socialmente no contava.
 -  s o que tem a dizer, Miss Van Schuyler?
 - Nada tenho a acrescentar ao que j disse. Linnet Ridgeway
foi educada na Inglaterra e eu nunca a
tinha visto at pr os ps neste vapor.
 Dito isto, levantou-se. Poirot abriu-lhe a porta
e ela saiu muito tesa e importante.
 Os olhares dos dois homens encontraram-se.
 -  esta a sua verso da histria, e dela no se
afastar - disse Race. - Talvez seja verdade. No
sei... Mas... Rosalie Otterbourne? Por esta no esperava eu!
 Poirot abanou a cabea, com ar perplexo. Depois
bateu com fora o punho na mesa, exclamando:
 - Mas isto no tem sentido! Nom d'un nom d'un
nom! No tem sentido!
 - Que quer exactamente dizer com isso? - perguntou Race,
fitando-o com curiosidade.
 - Digo que at certo ponto tudo caminha logicamente. Algum
queria matar Linnet Doyle. Algum
ouviu a cena no salo, ontem  noite. Algum ali entrou
sorrateiramente, apanhando o revlver; o revlver
de Miss de Bellefort, lembre-se bem! Algum matou
Linnet com este revlver e escreveu a letra J na parede...
Tudo muito claro, no  verdade? Tudo apontando para
Jacqueline. E depois, que faz o assassino?
Deixa o revlver (a arma reveladora) em algum lugar
onde possa ser encontrado? No! Ele, ou ela, atira o
revlver  gua, esta prova to importante. Porqu,
meu amigo, porqu?
 Race sacudiu a cabea.
 -  realmente esquisito - confessou ele.
 - Mais do que esquisito, impossvel!
 - Impossvel no, uma vez que aconteceu!
 - No foi isso que eu quis dizer. Digo que a marcha dos
acontecimentos  impossvel! Alguma coisa est errada.



CAPTULO 16

 Race fitou o colega com curiosidade. Respeitava, e
tinha motivo para isso, a inteligncia de Hercule Poirot. E,
no entanto, naquele momento no podia acompanhar-lhe o
raciocnio. Mas nem por isso lhe perguntou coisa alguma. No
era hbito seu fazer perguntas.
Continuou com o assunto de que tratavam naquele
momento.
 - Que fazer, em seguida? Interrogar a pequena Otterbourne?
 - Sim; isso talvez nos ajude um pouco.
 Rosalie Otterbourne entrou com expresso de m
vontade no rosto. No parecia nervosa ou amedrontada; apenas
de mau humor e contrariada.
 - Ento! Que desejam? - perguntou.
 Foi Race quem primeiro lhe dirigiu a palavra.
 - Estamos a investigar a morte de Mistress Doyle - explicou
ele.
 Rosalie inclinou a cabea, sem nada responder.
 - Quer dizer-me o que fez ontem  noite?
 Rosalie reflectiu alguns segundos.
 - A mam e eu fomos cedo para a cama; antes das
onze horas. No ouvimos coisa alguma, a no ser murmrios de
vozes  porta da cabina do doutor Bessner.
Distingui a voz pesada do alemo, afastando-se. Naturalmente,
s hoje de manh fiquei a saber do que se tratava.
 - No ouviu um tiro?
 - No.
 - No saiu da sua cabina, ontem  noite?
 - No.
 - Tem a certeza?
 Rosalie encarou-o.
 - Que quer dizer com isso? Claro que tenho a certeza.
 - A senhora no teria, por acaso, dado a volta pelo
tombadilho, e atirado qualquer coisa  gua?
 - H alguma lei proibindo que se atirem coisas 
gua? - perguntou a jovem, corando.
 - No, claro que no. Ento foi o que fez?
 - Nada disso. J lhe disse que no sa da minha
cabina.
 - Se algum tiver dito que a viu...
 A jovem interrompeu-o:
 - Quem foi que disse que me viu?
 - Miss Van Schuyler.
 - Miss Van Schuyler? - perguntou Rosalie, admirada.
 - Sim; Miss Van Schuyler disse que espreitou pela porta da
sua cabina, e viu a senhora atirar qualquer
coisa  gua.
 -  mentira - declarou a jovem sem hesitar.
 Depois, como se alguma coisa lhe tivesse ocorrido
de repente, perguntou:
 - A que horas?
 Desta vez foi Poirot quem respondeu:
 - Passavam dez minutos da uma hora, mademoiselle.
 Rosalie inclinou a cabea, com ar pensativo.
 - Ela viu mais alguma coisa?
 Poirot fitou-a com curiosidade, coando o queixo.
 - Ver... no. Mas ouviu.
 - Sim?
 - Algum a mexer-se na cabina de Mistress Doyle.
 - Compreendo - murmurou Rosalie.
 Agora estava plida, muito plida.
 - E insiste em dizer que no atirou nada fora, mademoiselle?
 - Por que motivo havia eu de andar no meio da
noite a atirar coisas ao rio?
 - Talvez houvesse um motivo, um motivo inocente.
 - Inocente? - perguntou a jovem bruscamente.
 - Foi o que eu disse. Porque, a senhora sabe, alguma coisa
foi atirada  gua a noite passada; uma coisa que nada tinha
de inocente.
 Sem dizer uma palavra, Race mostrou-lhe a charpe
de veludo, abrindo-a para exibir o seu contedo.
 Rosalie recuou, perguntando:
 - Foi com isto... que a mataram?
 - Sim, mademoiselle.
 - E acha que eu... que fui eu que a matei? Que
tolice! Por que motivo havia eu de querer matar Linnet Doyle?
Se nem ao menos a conhecia!
 Sorriu, levantando-se com ar desdenhoso.
 -  completamente ridculo! - acrescentou.
 - Lembre-se, Miss Otterbourne, de que Miss Van
Schuyler est pronta a jurar que distinguiu claramente
as suas feies, ao luar.
 Rosalie riu novamente.
 - Aquela gata velha! Com certeza  quase cega.
No foi a mim que viu. - Fez uma pausa e perguntou: - Posso
ir-me embora?
 Race inclinou a cabea e a jovem saiu.
 Os dois homens entreolharam-se novamente. Race
acendeu um cigarro e comentou:
 - Ento  isso! Contradio absoluta. Em quem
 devemos acreditar?
 - Parece-me que nenhuma das duas foi muito franca.
 -  isso o mais duro no nosso trabalho - observou Race em
tom desanimado. - Tanta gente oculta a verdade, s vezes 
por motivos completamente fteis!
 E agora? Continuaremos o interrogatrio?
 - Creio que sim.  sempre bom agir com mtodo e ordem.
 Mrs. Otterbourne foi a seguinte a ser chamada.
 Confirmou o que a filha dissera - que tinham ambas ido para
a cama antes das onze horas. Nada ouvira durante a noite. 
No podia dizer se Rosalie sara ou no da cabina... Quanto 
ao crime, parecia disposta a discuti-lo.
 - O crime passionnel! - exclamou ela. - O instinto
primitivo: matar! to ligado ao instinto sexual!
Aquela pequena, Jacqueline, meio latina, de temperamento
ardente, obedecendo aos seus mais fortes instintos,
adiantando-se de mansinho, de revlver na mo...
 - Jacqueline no matou Mistress Doyle. Disso temos ns a
certeza. Est provado - declarou Poirot.
 - Seu marido, ento - emendou Mrs. Otterbourne, sem se dar
por vencida. - Sede de sangue e instinto
sexual; crime passionel. H muitos exemplos...
 - Mister Doyle levou um tiro na perna e estava
impossibilitado de se mover - explicou o coronel Race. -
Passou a noite com o doutor Bessner.
 Mrs. Otterbourne pareceu desapontada, mas imediatamente
procurou outra soluo.
 - Naturalmente! Como fui tola! Miss Bowers!
 - Miss Bowers?
 - Sim,  lgico. Psicologicamente to claro! Represso. A
virgem recalcada! Enfurecida ao ver o espectculo daqueles
dois: um casal jovem e apaixonado!
Claro que foi ela.  o tipo perfeito... sem atraco fsica...
seriedade inata... No meu livro "A Vinha Estril..."
 Race interrompeu-a delicadamente:
 - As suas sugestes foram muito apreciadas. Precisamos agora
de continuar com o nosso trabalho. Muito agradecido.
 Acompanhou-a amavelmente at  porta e voltou
enxugando a testa.
 - Uf, que criatura venenosa!  pena no ter sido
ela a assassinada.
 - Pode ainda acontecer! - disse Poirot  guisa de
consolao.
 - Talvez no seja to grande absurdo. Quem 
que falta? Pennington? Vamos deix-lo para o fim. Richetti,
Ferguson.
 Signor Richetti chegou, parecendo muito agitado e
falando com volubilidade.
 - Que horror! Que infmia!... Uma mulher to
jovem e bonita... Que crime monstruoso! - exclamou
erguendo expressivamente as mos.
 Respondeu com clareza s perguntas de Poirot. Logo
depois do jantar, para ser exacto, fora para a cama...
muito cedo. Lera um panfleto muito interessante,
recm-publicado.
 Apagara a luz um pouco antes das onze horas.
No, no ouvira detonao alguma. Nem coisa parecida com o
estalo de uma rolha. O nico som que ouvira
- e isto bem mais tarde! - fora o de qualquer coisa
batendo na gua, perto da sua escotilha.
 - A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a estibordo, no
 verdade?
 - Sim, sim,  isso mesmo. E ouvi o rudo de um
baque, muito forte.
 De novo ele ergueu os braos para dar nfase  frase.
 - Pode dizer-me a que horas foi isso?
 Richetti pareceu reflectir.
 - Uma, duas, trs horas depois que adormeci.
Talvez duas horas.
 -  uma e dez, por exemplo?
 - Sim, talvez tivesse sido. Ah! Que crime horrvel...
desumano... uma mulher to linda!...
 Saiu o Signor Richetti, ainda gesticulando bastante.
 Race olhou para Poirot. O detective ergueu expressivamente
as sobrancelhas, depois encolheu os ombros.
 Mandaram chamar Mr. Ferguson.
 Com ele foi mais difcil. O rapaz esparramou-se
insolentemente numa cadeira.
 - Que barulho por causa de uma coisa sem importncia! -
disse ele desdenhosamente. - H mulheres em excesso no mundo.
 Race perguntou friamente:
 - Pode dar-nos um resumo dos seus actos ontem
 noite, Mister Ferguson?
 - No vejo razo para isso. Mas no me incomoda
responder. Vagueei de um lado para o outro. Fui a terra com
Miss Robson. Quando ela voltou para o barco,
vagabundeei, sozinho, mais um pouco. Voltei para o
navio e fui deitar-me  meia-noite.
 - A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a estibordo?
 - Fica. No estou em cima, com os aristocratas.
 - Ouviu um tiro? Qualquer coisa parecida com o
estalar de uma rolha?
 Ferguson reflectiu; depois disse:
 - Sim, creio ter ouvido um som semelhante ao
saltar de uma rolha... No me lembro quando... Antes
de adormecer. Mas ainda havia muita gente a p; agitao,
passos apressados no tombadilho de cima.
 - Provavelmente devido ao tiro dado por Miss de
Bellefort. No ouviu outro?
 Ferguson sacudiu negativamente a cabea.
 - Nem o rudo de um baque na gua?
 - Sim, isso creio que ouvi. Mas havia tanto barulho que no
posso ter a certeza.
 - Saiu da sua cabina durante a noite?
 Ferguson sorriu.
 - No, no sa. E infelizmente no tive participao no acto
meritrio.
 - Vamos, vamos, Mister Ferguson, no seja to
infantil.
 Isto pareceu encolerizar o socialista.
 - Porque no hei-de dizer o que penso? Sou a favor da
violncia.
 - Mas no pe em prtica as suas ideias? - disse
Poirot. - No sei, no...
 Inclinou-se e perguntou noutro tom:
 - Foi aquele sujeito, Fleetwood, no foi, que lhe
disse que Linnet Doyle era uma das mulheres mais ricas da
Inglaterra?
 - Que tem Fleetwood com isso?
 - Fleetwood, meu amigo, tinha um excelente motivo para matar
Linnet Doyle.
 Ferguson endireitou-se vivamente na cadeira.
 - Ento  este o seu jogo, hem? - exclamou colericamente. -
Querem empurrar a culpa para o pobre
Fleetwood, que no pode defender-se, que no tem dinheiro para
pagar a advogados! Mas oiam uma coisa: se
tentarem incrimin-lo, tero de ajustar contas comigo.
 - E, precisamente, quem  o senhor? - perguntou suavemente
Poirot.
 Mr. Ferguson corou violentamente.
 - Sou uma pessoa leal aos seus amigos - disse
ele bruscamente.
 - Bom, Mister Ferguson, por enquanto, creio
que  s isto - disse Race.
 Quando a porta se fechou, Race comentou:
 - Um sujeito no fundo bem simptico, no acha?
 - No desconfia ento que seja o homem que est
a procurar? - perguntou Poirot.
 - No o creio. E no entanto ele est a bordo.
A informao foi muito precisa. Oh, bom, uma coisa
de cada vez. Vamos interrogar Pennington.


CAPTULO 17

 Andrew Pennington compareceu com todas as convencionais
manifestaes de surpresa e pesar. Estava,
como sempre, caprichosamente vestido. Usava agora
uma gravata preta. O rosto comprido e bem barbeado
tinha uma expresso perplexa.
 - Senhores, este caso abalou-me profundamente.
A pequena Linnet... Imaginem, lembro-me dela quando era a
menina mais linda deste mundo! Como Melhuish Ridgeway se
orgulhava dela! Bom, de nada adiantam as lamentaes. 
Digam-me apenas em que posso ajud-los;  s o que lhes peo.
 Race abriu o interrogatrio:
 - Para comear, Mister Pennington, ouviu alguma coisa a
noite passada?
 - No, senhor. No posso dizer que tenha ouvido. A minha
cabina fica pegada  do doutor Bessner,
nmero trinta e oito-trinta e nove. Ouvi certa agitao,
a pela meia-noite. Naturalmente, naquela ocasio no
soube do que se tratava.
 - No ouviu mais nada? Tiros?..
 Pennington abanou a cabea.
 - Nada semelhante.
 - E foi para a cama s...?
 - Pouco depois das onze.
 O americano inclinou-se para a frente e continuou
em tom confidencial:
 - No creio que ignorem os boatos que correm
neste navio? Aquela rapariga meio francesa, por exemplo, 
Miss de Bellefort. H alguma coisa de esquisito,
como sabem. Linnet nada me disse, mas naturalmente
no sou cego nem surdo. Houve qualquer coisa entre
ela e Simon, no houve? Cherchez la femme ( coisa
que muitas vezes d certo) e neste caso no creio que
tenham que chercher muito longe.
 Poirot perguntou:
 - Quer dizer que, na sua opinio, Miss de Bellefort matou
Mistress Doyle?
 -  o que me parece. Claro que no sei de nada...
 - Infelizmente, ns sabemos de alguma coisa!
 - Bem? - exclamou o americano, ligeiramente
sobressaltado.
 - Sabemos que teria sido impossvel Miss de Bellefort 
matar Mistress Doyle.
 Poirot deu pormenorizadamente explicaes, mas
Pennington mostrou-se pouco disposto a aceit-las.
 - No digo que  primeira vista no parea que os
senhores tm razo, mas aquela enfermeira... garanto
que no ficou acordada toda a noite. Com certeza
adormeceu e a rapariga escapuliu-se da cabina.
 - Pouco provvel, Mister Pennington. Lembre-se
de que Miss Bowers tinha aplicado a Jacqueline uma
forte injeco. Alm do mais, as enfermeiras em geral
tm o sono leve e costumam acordar quando os pacientes
acordam.
 - Acho muito esquisito - disse o americano.
 Race replicou, em tom ligeiramente autoritrio:
 - Creio que pode acreditar, Mister Pennington,
que examinmos com cuidado todas as possibilidades.
No h dvida quanto ao resultado: Jacqueline de Bellefort 
no poderia ter assassinado Linnet Doyle. Somos, portanto,
obrigados a procurar algures e achamos que neste ponto o senhor nos poder auxiliar.
 - Eu? - perguntou Pennington com um nervoso sobressalto.
 - Sim. O senhor era ntimo amigo da vtima. Provavelmente,
sabe da vida de Mistress Doyle mais do que o seu prprio marido, que a conheceu h poucos meses. 
Talvez nos possa dizer, por exemplo, se existe algum com razo de queixa contra ela, algum que tivesse 
motivos para lhe desejar a morte.
 Pennington passou a lngua pelos lbios ressequidos e
respondeu:
 - Garanto-lhe que no tenho a mnima ideia...
Linnet, o senhor sabe, foi educada na Inglaterra. Conheo
muito pouco da sua vida e das suas relaes.
 - E, no entanto, algum neste navio estava interessado no
seu desaparecimento. O senhor deve estar
lembrado de que Mistress Doyle escapou de um perigo iminente,
aqui mesmo, quando aquela pedra rolou... Ah! Mas talvez no
estivesse l?
 - No; eu estava dentro do templo, nessa ocasio.
Ouvi depois comentrios sobre o caso, naturalmente.
Escapou por um triz. Mas... talvez um acidente, no
acha?
 Poirot encolheu os ombros.
 - Foi o que se pensou, no momento. Agora...
no sei!
 - Sim, sim, tem razo! - disse Pennington enxugando a 
testa com um finssimo leno de seda.
 Race disse:
 - Mistress Doyle referiu-se a certa pessoa neste
navio que tinha razes de queixa, no contra ela,
pessoalmente, mas contra a sua famlia. Sabe quem 
poderia ser essa pessoa?
 O americano respondeu, parecendo sinceramente
admirado:
 - No, no tenho a mnima ideia.
 - Mistress Doyle no discutiu o caso com o senhor?
 - No.
 - Era amigo ntimo do pai dela... No se lembra
de nenhuma transaco que tenha tido como resultado
a runa de algum adversrio, no mundo das finanas?
 Pennington abanou a cabea, com ar desanimado.
 - Nenhum caso especial. Tais transaces eram,
naturalmente, frequentes, mas no me lembro de ningum 
que tivesse feito ameaas... Nada desse gnero.
 - Em resumo, Mister Pennington, o senhor no
nos pode ajudar?
 -  o que parece. Lamento muito, meus senhores.
 Race trocou um olhar com Poirot.
 - Tambm eu sinto - disse ele. - Estvamos
com esperanas.
 Levantou-se, dando a entrevista por terminada.
 - Como est de cama, Mister Doyle com certeza
h-de querer que eu cuide de tudo - disse Pennington. -
Perdoe-me, coronel, mas que providncias vai tomar?
 - Quando sairmos daqui, iremos directamente para Shelll,
onde devemos chegar amanh de manh.
 - E o corpo?
 - Ser levado para uma das cmaras frigorficas.
 Pennington despediu-se e saiu.
 Poirot e Race consultaram-se com o olhar. O coronel acendeu
um cigarro e comentou:
 - Mister Pennington no estava nada  vontade.
 Poirot inclinou a cabea e disse:
 - Mister Pennington estava to perturbado, a
ponto de dizer uma mentira estpida. Ele no estava
no templo de Abu Simbel, quando aquela pedra rolou.
Sobre isso, (eu que vos falo) posso jurar. Eu acabara
justamente de sair do templo.
 - Uma mentira estpida - concordou Race. - E muito
significativa.
 - Mas no momento oportuno ns o trataremos
com luvas de pelica, no  verdade?
 -  tambm a minha opinio.
 - Meu amigo, ns entendemo-nos s mil maravilhas.
 Ouviram um ronco distante e spero, sentiram o
navio vibrar a seus ps...
 O Karnak iniciava a sua viagem de regresso a Shelll.
 - As prolas - disse Race. - Temos agora que
cuidar das prolas.
 - Tem algum plano?
 - Tenho, sim. - Race consultou o relgio e
acrescentou: - Daqui a meia hora, ser servido o almoo. 
No fim da refeio, farei uma comunicao; direi que 
o colar foi roubado, e que sou obrigado a pedir
que fiquem todos no salo, para que se proceda a uma
busca no navio.
 Poirot inclinou a cabea em sinal de assentimento.
 - Muito bem pensado. Quem quer que seja que tenha roubado o
colar, ainda o conserva em seu poder. Apanhado de surpresa, 
o ladro no ter oportunidade de o atirar ao rio, 
num momento de pnico.
 Race puxou para mais perto uma pilha de papis e
disse, em tom de quem se desculpa:
 - Gosto de fazer um resumo dos factos,  medida
que vou progredindo. Evita-se assim muita confuso.
 - Faz muito bem. Nada h como a ordem e o mtodo - disse
Poirot.
 Race escreveu durante dez minutos, na sua letra
mida e fina. Finalmente, empurrou para mais perto
de Poirot o fruto do seu trabalho.
 - Qualquer coisa com que no concorde?
 O detective apanhou as folhas. No alto da primeira, 
estava escrito:

ASSASSNIO DE MRS. LINNET DOYLE

 Mrs. Doyle foi vista com vida, a ltima vez, pela
sua criada, Louise Bourget. Hora: 23 e 30 (aproximadamente)
 Das 23.30 s 0.20 as seguintes pessoas tm libis:
Cornlia Robson, James Fanthorp, Simon Doyle, Jacqueline de
Bellefort - ningum mais - mas o crime
provavelmente foi cometido depois disso, pois  quase
certo o assassino ter usado o revlver de Jacqueline de
Bellefort, que at ento estava dentro da bolsa desta
ltima. No est provado que o crime foi cometido
com este revlver, e s se poder ter a certeza absoluta
depois da autpsia, quando for ouvida a opinio dos
tcnicos, a respeito da bala; mas podemos considerar
isto como provvel.
 Curso provvel dos acontecimentos: X (o assassino)
presenciou a cena entre Jacqueline e Simon Doyle, no
salo envidraado, viu onde caiu o revlver, sob a poltrona.
Quando o salo ficou deserto, X procurou a arma - pensando 
que o crime seria por isso atribudo a Jacqueline. Devido 
a esta teoria, muita gente pode ser considerada inocente.
 Cornlia Robson, uma vez que no teve oportunidade de ir
buscar o revlver, antes de James Fanthorp voltar para o procurar.
 Miss Bowers - a mesma coisa.
 Dr. Bessner - a mesma coisa.
 N. B. No se pode considerar Fanthorp como
completamente inocente, pois podia ter metido a arma
no bolso, dizendo depois que a no encontrara.
 Qualquer outra pessoa poderia ter apanhado a arma
naquele espao de dez minutos.
 Possveis motivos para o crime:
 Andrew Pennington: Isto, partindo-se do princpio de
que  culpado de fraudulentas especulaes. H muitos
indcios neste sentido, mas no bastam para o apontar
como assassino. Se foi quem fez rolar a pedra, ento
mostrou que  pessoa que sabe aproveitar a oportunidade 
que se apresenta. O crime, naturalmente, no foi 
premeditado, a no ser de uma maneira geral. A cena 
no salo ontem  noite forneceu a oportunidade ideal.
 Objeces  teoria da culpabilidade de Pennington.
Porque atirou ele o revlver ao rio, uma vez que era 
uma prova valiosa contra "B"?
 Fleetwood: Motivo: vingana. Fleetwood achava que 
Linnet Doyle o prejudicara.  possvel que tivesse
assistido  cena, notando o lugar onde o revlver fora
parar. Pode t-lo apanhado mais pela facilidade de ter
uma arma  mo, do que para atirar a culpa sobre Jacqueline.
Isto condiz com o gesto subsequente de o atirar fora. Mas,
sendo assim, por que motivo escreveu a letra J com sangue 
na parede?
 N. B.  mais provvel que o leno barato, encontrado 
 volta do revlver, pertena a um homem como
Fleetwood, do que a qualquer dos passageiros abastados.
 Rosalie Otterbourne: Devemos aceitar o depoimento
de Miss Van Schuyler ou a negativa de Rosalie? Alguma coisa
foi lanada  gua, provavelmente o revlver dentro da 
charpe de veludo.
 Pontos a serem estudados: Teria Rosalie algum motivo?
  possvel que no apreciasse Mrs. Doyle e a invejasse - mas
como motivo para matar isto parece absurdo; a julgar pelas
aparncias, no havia nenhuma ligao anterior entre 
Rosalie e Linnet.
 Miss Van Schuyler: A charpe de veludo que envolvia
a arma pertence a Miss Van Schuyler. A julgar pelo que
ela disse, viu-a pela ltima vez no salo envidraado.
Chamou a ateno para o facto de a ter perdido, tendo
sido feita, sem resultado, uma busca para a encontrar.
 Como foi a charpe parar s mos de X? Ter-se-ia
X apoderado dela no princpio da noite? E, sendo assim, com
que fito? Ningum podia saber de antemo que ia haver uma 
cena entre Jacqueline e Simon. Teria X encontrado a charpe 
no salo, quando foi procurar o revlver? Mas, neste caso, porque no foi encontrada na ocasio da busca? 
Miss Van Schuyler t-la-ia perdido realmente?
 Isto :
 Ter Miss Van Schuyler assassinado Linnet Doyle? Ser
falsa a sua acusao a Rosalie? Se matou Mrs. Doyle,
qual o motivo?
 Outras possibilidades:
 Algum com razes contra a famlia Ridgeway. Possvel - mas
no h indcios.
 Sabemos que h um homem perigoso a bordo - um
assassino. Temos aqui um assassino e um crime. No
haver ligao entre os dois? Mas, para chegarmos a esta
concluso, seria necessrio saber que Linnet tinha poderosas
informaes a respeito desse homem.
 Concluses: Podemos dividir as pessoas a bordo em
dois grupos - aqueles que tinham motivo, ou contra
quem h indcios, e aqueles que, pelo que at agora
averigumos, esto livres de suspeita.
Grupo I Grupo II
Andrew Pennington Mrs. Allerton
 Tim Allerton
Fleetwood Cornlia Robson
Rosalie Otterbourne Miss Bowers
Miss Van Schuyler Dr. Bessner
 Signor Richetti
Louise Bourget (Roubo) Mrs.Otterbourne
Ferguson (Poltica?) James Fanthorp

 Poirot afastou os papis e comentou:
 - Est certo, muito certo, o que escreveu.
 - Concorda?
 - Concordo, sim.
 - E agora, qual a sua colaborao?
 Poirot empertigou-se com ar importante.
 - Eu, eu fao a mim mesmo uma pergunta: "Por
que motivo atiraram fora o revlver?"
 - S isso?
 - No momento presente,  s isso. At conseguir
uma resposta satisfatria a esta pergunta, de nada vale
o resto. Isto ... talvez a esteja o ponto de partida.
Note, meu amigo, que no seu sumrio, voc no procurou
solucionar essa dificuldade.
 Race sugeriu, encolhendo os ombros:
 - Pnico.
 Mas Poirot no pareceu satisfeito. Apanhou a
charpe de veludo, estendendo-a sobre a mesa, e passou os
dedos em volta dos furos e das marcas chamuscadas.
 - Diga-me uma coisa, meu amigo: voc tem mais
prtica do que eu de armas de fogo... Uma coisa assim,  volta
de um revlver, amorteceria o som?
 - No. Pelo menos no tanto como um silenciador - respondeu
Race.
 - Um homem, e ainda mais um homem habituado a lidar com
armas de fogo, saberia isso. Mas no uma mulher.
 Race fitou-o com curiosidade.
 - Provavelmente, no.
 - Ela teria lido novelas policiais, onde os pormenores 
nem sempre so exactos.
 Race ergueu o revlver.
 - De qualquer maneira, este brinquedo no faria
muito barulho - disse ele. - Um simples estalo e
pronto! Com outros rudos  volta, as probabilidades
so de dez para um de que no seria ouvido.
 - Sim, pensei nisso.
 Poirot examinou o leno e continuou:
 - Leno de homem, mas no de um cavalheiro.
Ce cher Woolworth, com certeza. No mximo trs pence.
 - Tipo de leno que um homem como Fleetwood usaria.
 - Sim. Notei que Andrew Pennington usa um finssimo 
leno de seda.
 - Ferguson? - sugeriu Race.
 - Possivelmente. Como bravata. Mas uma bandana estaria 
mais de acordo!
 - Em lugar de luva, com certeza, para segurar o
revlver e evitar impresses digitais - disse Race.
- E acrescentou, como pilhria: - O Caso do Leno
Cor-de-Rosa.
 - Ah, sim. Cor de jeune fille, no ?
 Poirot colocou o leno sobre a mesa e voltou a examinar 
a charpe.
 - Apesar de tudo,  esquisito...
 - A que se refere?
 - Cette pauvre Madame Doyle. Deitada to calmamente... com
aquele furo na cabea. Lembra-se da sua expresso?
 Race fitou-o com curiosidade.
 - Sabe uma coisa? Palpita-me que me quer dizer
alguma coisa, Poirot, mas no tenho a menor ideia do
que seja!



CAPTULO 18

 Ouviu-se uma pancada na porta.
 - Entre - disse Race.
 Apareceu um dos criados, que se dirigiu a Poirot:
 - Desculpe-me, mas Mister Doyle deseja falar-lhe.
 - Vou imediatamente.
 O detective saiu da sala, subiu ao tombadilho superior 
e foi at  cabina do Dr. Bessner.
 De rosto vermelho e febril, Simon parecia um tanto
constrangido.
 - Foi muita gentileza sua vir ver-me, Mister Poirot. Desejo
fazer-lhe um pedido.
 - Sim?
 Simon enrubesceu mais ainda.
 - ... a respeito de Jackie. Eu gostaria de a ver.
O senhor acha... O senhor importa-se... acha que ela
se incomodaria... se lhe pedisse para vir at c? Tenho
estado aqui deitado, reflectindo... Aquela pobre pequena...
no passa de uma criana, afinal de contas...
e tratei-a to mal, e...
 Interrompeu-se, sem saber como continuar.
 Poirot fitou-o, interessado.
 - Deseja ver Mademoiselle Jacqueline? Vou cham-la.
 - Agradecido.  muita bondade sua.
 Poirot encontrou Jacqueline encolhida numa cadeira, a um
canto do salo envidraado. Tinha um livro
aberto nas mos, mas no o lia.
 Poirot disse-lhe suavemente:
 - Quer fazer o favor de me acompanhar, mademoiselle? 
Mister Doyle deseja v-la.
 A rapariga teve um sobressalto. Corou, depois empalideceu.
Havia no seu rosto uma expresso perplexa.
 - Simon? Ele... quer... ver-me?
 Poirot achou comovente aquela incredulidade.
 - Quer vir, mademoiselle?
 - Ah, sim... irei.
 Acompanhou-o docilmente, como uma criana.
 Poirot entrou primeiro na cabina.
 - Mademoiselle est aqui.
 Jacqueline entrou, vacilante, e estacou de repente.
Continuou ali, de p, muda, os olhos fitos em Simon.
 - Ol! Jackie...
 Tambm ele parecia constrangido.
 Como a jovem nada dissesse, continuou:
 -  muita bondade sua vir ver-me. Eu queria dizer... isto
...
 Jaqueline interrompeu-o. As palavras saram-lhe
aos borbotes, em tom de desespero.
 - Simon... eu no matei Linnet. Voc sabe que
no fui eu... Ontem  noite eu... estava louca. 
Oh, poder perdoar-me?
 Agora, j ele podia exprimir-se com maior facilidade.
 - Naturalmente! No tem importncia! No tem
a mnima importncia! Era isso que eu queria dizer-lhe. 
Achei que talvez voc estivesse um pouco preocupada...
 - Preocupada? Um pouco? Oh, Simon!
 - Era por isso que queria v-la e falar-lhe. Est
certo, minha boa amiga. Voc estava perturbada ontem 
 noite... um pouco embriagada. Tudo muito natural.
 - Oh, Simon, eu poderia t-lo matado...
 - No com aquele brinquedo...
 - E a sua perna? Talvez nunca mais possa andar...
 - Oia, Jackie, no seja tola. Assim que chegarmos 
a Assuo, vo tirar-me uma radiografia e extrair a
bala, e tudo ficar em ordem.
 Jackie engoliu em seco duas vezes, depois correu
para perto de Simon, ajoelhando-se ao lado da cama,
escondendo o rosto nas mos e soluando. O rapaz
acariciou-lhe a cabea, desajeitadamente. O seu olhar
encontrou o de Poirot; com um suspiro de m vontade
o detective saiu da cabina.
 Ao afastar-se, ainda ouviu soluos e murmrios.
 - Como pude ser to m... Oh, Simon!... Sinto
tanto... Estou to arrependida...
 Cornlia estava debruada na amurada. Voltou a
cabea ao ver o detective aproximar-se.
 - Ah,  o senhor, Mister Poirot. De certo modo
parece incrvel que o dia esteja to bonito!
 Poirot ergueu o olhar, dizendo:
 - Quando brilha o Sol, a gente no pode ver a
Lua. Mas quando o Sol desaparece... ah, quando
o Sol desaparece!...
 Cornlia fitou-o, de boca aberta.
 - Perdo?
 - Dizia eu, mademoiselle" que, quando o Sol desaparecer,
vamos ver a Lua.  esta a verdade, no ?
 - Mas... sim... claro que sim - disse ela, fitando-o,
admirada.
 Poirot riu de mansinho.
 - Estou a dizer tolices. No faa caso, mademoiselle.
 Dito isto, dirigiu-se lentamente para a popa. Ao
passar pela primeira cabina, parou alguns segundos.
Ouviu trechos de conversa l dentro.
... profunda ingratido... depois do que fiz por
si... falta de considerao para com a sua pobre me...
no imagina o que sofro...
 Poirot comprimiu os lbios. Ergueu a mo e bateu
 porta.
 Um silncio assustado; depois a voz de Mrs. Otterbourne,
perguntando:
 - Quem ?
 - Mademoiselle Rosalie est?
 Rosalie apareceu. Poirot ficou impressionado com os 
crculos roxos sob os olhos e os sulcos  volta da
boca.
 - Que aconteceu? - perguntou ela sem cordialidade alguma. -
Que deseja?
 - O prazer de alguns minutos de conversa com a
senhora. Quer fazer-me o favor?...
 Os lbios da rapariga apertaram-se numa expresso
mal-humorada. Fitou Poirot com ar desconfiado e perguntou-lhe
de chofre:
 - Porqu?
 - Seria um favor, mademoiselle.
 - Oh, ento...
 Passou para o tombadilho, fechando a porta da cabina.
 Poirot segurou-a delicadamente pelo brao e levou-a pelo
tombadilho, sempre em direco  popa. Passaram pelo
balnerio, deram a volta para o outro lado.
Estavam sozinhos naquela parte do navio. O Nilo corria atrs
deles...
 Poirot descansou os cotovelos na amurada, mas
Rosalie continuou dura e tesa.
 - Que deseja? - perguntou ela no mesmo tom brusco.
 Poirot falou devagarinho, escolhendo as palavras.
 - Poderia fazer-lhe algumas perguntas, mademoiselle, mas 
no creio que consinta em responder-me.
 - Parece-me ento que perdeu o seu tempo, trazendo-me aqui.
 Poirot passou lentamente a mo pela amurada e disse:
 - Est acostumada, mademoiselle, a suportar sozinha o peso
dos seus aborrecimentos... Mas no  possvel fazer isso eternamente. A tenso no pode ser suportada 
por muito tempo.  este o seu caso, mademoiselle.
 - No sei a que se refere - disse Rosalie.
 - Estou a falar sobre factos, mademoiselle; factos
positivos e sem beleza. Vamos chamar preto ao preto,
e numa sentena curta. A sua me bebe, mademoiselle.
 Rosalie no respondeu. Abriu os lbios como quem
ia falar, mas fechou-os novamente. Por um momento,
ficou sem saber o que dizer.
 - No precisa de dizer coisa alguma, mademoiselle; deixe que
eu fale sozinho. Em Assuo, interessei-me pelas relaes entre
a senhora e sua me. Vi imediatamente que, apesar das suas
observaes pouco filiais, a senhora estava na realidade protegendo desesperadamente a sua me. Logo 
percebi do que se tratava. E isto muito antes de ter, certa manh, encontrado
sua me completamente embriagada. Compreendi que
o seu caso era de crises intermitentes, casos de cura
mais difcil. A senhora dava provas de muita coragem.
Alm do mais, sua me tinha a malcia da pessoa que
bebe s escondidas. Conseguiu uma proviso secreta
de bebidas. No seria surpresa para mim saber que s
ontem a senhora descobriu o seu esconderijo. E assim,
a meio da noite, foi para o outro lado do navio (uma
vez que o seu ficava contra a margem) e atirou tudo ao
Nilo.
 Poirot fez uma pausa e perguntou:
 - Acertei?
 - Acertou, sim - disse Rosalie com sbita paixo. - Com
certeza fui tola em no lhe confessar isso
desde o princpio! Mas no queria que toda a gente
soubesse. A notcia espalhar-se-ia entre os passageiros.
E parecia tal tolice... isto ... que eu...
 Poirot terminou a frase por ela:
 - Tal tolice que a senhora fosse acusada de assassnio?
 Rosalie inclinou a cabea, depois explodiu novamente:
 - Tenho-me esforado tanto para impedir que
viessem a saber!... Mas no  realmente culpa dela.
Comeou a ficar desanimada. Os seus livros no tinham sada
nenhuma. O pblico est farto destes vulgares enredos sexuais.
Ela ficou magoada... profundamente magoada. Comeou ento a...
beber. Durante muito tempo, no compreendi porque andava to esquisita. Quando descobri... tentei 
impedir que continuasse. Passava bem durante algum tempo... depois, de repente, recomeava, tornando-
se birrenta, discutindo com
toda a gente. Que horror! - Rosalie estremeceu e continuou: -
E eu sempre alerta, para lev-la ao bom caminho!... Depois,
comeou a implicar comigo... s vezes, chego a pensar que me odeia...
 - Pauvre petite - disse Poirot.
 Rosalie voltou-se bruscamente para ele.
 - No tenha pena de mim. No seja bom.  mais
fcil, de outra forma.
 Suspirou - um suspiro de cortar o corao. E, depois 
de uma pausa:
 - Estou cansada... horrivelmente cansada.
 - Compreendo.
 - Todos me acham insuportvel, reservada e sempre de mau
humor. No  culpa minha. H muito tempo j que me esqueci 
de como  que se pode ser gentil...
 - Foi justamente o que lhe disse. A senhora suportou
sozinha, durante muito tempo, o fardo dos seus pesares.
 Rosalie disse lentamente:
 -  um alvio... falar sobre isso. O senhor sempre
foi muito bom, Mister Poirot. Creio que muitas vezes
fui grosseira...
 - La politesse no  necessria entre amigos.
 A expresso desconfiada voltou ao rosto de Rosalie.
 - O senhor vai... vai contar a toda a gente? Com
certeza ser obrigado a isso, por causa daquelas malditas
garrafas que atirei fora.
 - No, no ser necessrio. Quero apenas que me
esclarea sobre certo ponto. A que horas foi isso? 
Uma, e dez?
 - Mais ou menos. No me lembro ao certo.
 - Diga-me agora, mademoiselle: Miss van Schuyler
viu-a; a senhora viu-a tambm?
 - No.
 - Diz ela que espreitou pela porta da cabina.
 - Eu no poderia v-la. Examinei de relance o
tombadilho e depois olhei o rio.
 - E viu algum, quando examinou o tombadilho?
 Houve uma pausa - uma longa pausa. Rosalie
franziu as sobrancelhas, como quem reflecte.
 Finalmente, respondeu em tom firme.
 - No, no vi ningum.
 Hercule Poirot abanou lentamente a cabea. Mas
era grave a expresso dos seus olhos...



CAPTULO 19

 Isolados, ou dois a dois, com ar submisso, os passageiros
entraram na sala de jantar. Como se achassem
que seria indecoroso sentarem-se muito animadamente
 mesa... Tomaram os seus lugares, com ar penitente, quase.
 Tim Allerton chegou alguns minutos depois de sua
me, parecendo mal-humorado.
 - Nunca nos tivssemos lembrado de fazer esta
maldita viagem! - resmungou ele.
 Mrs. Allerton sacudiu tristemente a cabea.
 - Oh, meu filho, tambm sou da mesma opinio.
Aquela linda rapariga! Tudo to desperdiado. Pensar
que houve quem pudesse mat-la a sangue-frio! Parece
impossvel que exista gente capaz disso. E aquela
pobrezinha...
 - Jacqueline?
 - Sim, tenho muita pena dela. Parece to infeliz!
 - Isto lhe ensinar a no andar por a a disparar
armas como quem brinca - disse friamente Tim, servindo-se 
de manteiga.
 - Com certeza ela foi mal-educada.
 - Oh, pelo amor de Deus, no encare o caso sob
um ponto de vista maternal.
 - Ests de mau humor, Tim.
 - Estou, sim. E porque no havia de estar?
 - No vejo motivo para zangas.  um caso muito
triste, apenas.
 Tim replicou, encolerizado:
 - A me est a ver tudo com olhos romnticos!
Parece no compreender que no  brincadeira nenhuma 
a gente ver-se envolvida num crime de morte.
 Mrs. Allerton pareceu ligeiramente sobressaltada.
 - Mas certamente...
 -  justamente isso! No existe nenhum "Mas
certamente..." Todas as pessoas, neste maldito navio,
esto sob suspeita. Ns ambos tanto como os outros.
 Mrs. Allerton no pareceu convencida.
 - Tecnicamente, creio que sim... mas, quanto ao
resto,  ridculo!
 - No h nada de ridculo num crime! Pode ficar
a sentada, exalando santidade e com a conscincia
tranquila, mas os investigadores de Shelll ou Assuo
no vo julg-la pela expresso do seu rosto!
 - Talvez que at l j tenham descoberto a verdade.
 - Porqu?
 - Monsieur Poirot...
 - Aquele velho pretensioso? No descobrir coisa
alguma. S tem prospia e bigodes.
 - Muito bem, Tim; talvez tenhas razo, mas mesmo 
assim  melhor a gente conformar-se e continuar
de cara alegre.
 Apesar disso, Tim no pareceu mais animado.
 - H ainda o roubo daquelas malditas prolas - disse ele.
 - O colar de Linnet?
 - Sim; parece que foi roubado.
 - Com certeza foi esse o mbil do crime.
 - Porqu? Est a confundir duas coisas completamente
diferentes.
 - Quem disse que desapareceu?
 - Ferguson. Ele soube-o pelo maquinista seu amigo, e este,
por seu turno, ficou sabendo do caso pela
criadinha francesa.
 - Era um lindo colar - suspirou Mrs. Allerton.
 Poirot chegou neste momento. Inclinou-se diante
de Mrs. Allerton, desculpando-se:
 - Estou um pouco atrasado.
 - Com certeza esteve muito ocupado?
 - Realmente - disse ele, encomendando uma nova garrafa de
vinho ao criado.
 - Somos muito fiis aos nossos hbitos - observou Mrs.
Allerton. - O senhor toma sempre vinho,
Tim pede whiskey e soda, e eu, por meu lado, estou
sempre a experimentar uma nova marca de gua mineral.
 - Tiens! - exclamou Poirot, fitando-a durante
um momento. Depois murmurou de si para si: "Aqui
est uma ideia...
 Depois, com um impaciente movimento de ombros, afastou o
pensamento que lhe ocorrera e comeou a conversar sobre
banalidades.
 -  grave o ferimento de Mister Doyle? - perguntou dali a
pouco Mrs. Allerton.
 - Sim,  mais ou menos srio. Bessner est ansioso por
chegarmos a Assuo, para que possam tirar
uma radiografia e extrair a bala. Mas tem esperanas
de que ele no fique defeituoso.
 - Pobre Simon! Ainda ontem parecia um menino
satisfeito, a quem nada faltava no mundo. E agora a
sua linda esposa est morta e ele inutilizado numa cama!
Espero, no entanto...
 - Que espera, madame? - perguntou Poirot vendo que ela
parara no meio da frase.
 - Espero que no esteja zangado de mais com
aquela pobrezinha.
 - Com Mademoiselle Jacqueline? Pelo contrrio.
Estava muito preocupado com ela.
 Poirot voltou-se para Tim e continuou:
 - Sabe uma coisa? Est a um interessante problema
psicolgico. Durante todo o tempo em que Mademoiselle
Jacqueline os seguia, ele estava furioso; mas
agora que ela o atacou, ferindo-o gravemente, toda a
clera de Mister Doyle parece ter desaparecido. Pode
explicar-me uma coisa destas?
 - Sim, creio que sim - disse Tim com ar pensativo. - O
procedimento dela, a princpio, fez com
que ele se sentisse um tolo...
 - Tem razo. Ofendeu a sua dignidade masculina.
 - Mas agora, encarando-se o caso sob outro ponto
de vista, ela  que fez papel de tola. Toda a gente est
contra Jacqueline, de modo que...
 - Ele pode mostrar-se generoso e perdoar-lhe - terminou Mrs.
Allerton. - Como os homens so crianas!
 - Comentrio profundamente falso que as mulheres tm a mania
de fazer - murmurou Tim.
 Poirot sorriu. E, dirigindo-se ao rapaz:
 - Diga-me: a prima de Madame Doyle, Miss Joana Southwood,
era parecida com ela?
 - O senhor confundiu o parentesco, Monsieur
Poirot. Joana  nossa prima e era amiga de Linnet.
 - Ah, perdo, estou confundido.  uma rapariga
muito em moda. Tenho-me interessado por ela ultimamente.
 - Porqu? - perguntou Tim bruscamente.
 Poirot quase se ps de p para cumprimentar Jacqueline, que
acabava de entrar e passava por ali, dirigindo-se para a sua
mesa. A jovem estava corada e de olhos brilhantes, parecendo ligeiramente ofegante.
 Quando se sentou de novo, Poirot parecia ter esquecido a
pergunta de Tim. Murmurou em tom distrado:
 - Gostaria de saber se todas as mulheres que tm
jias de valor so to descuidadas como Madame Doyle!
 -  ento verdade que o colar desapareceu? - perguntou 
Mrs. Allerton.
 - Quem lhe disse isso, madame?
 - Ferguson - declarou Tim.
 - Sim,  verdade - respondeu Poirot gravemente.
 - Com certeza vai ser muito desagradvel para todos ns -
disse nervosamente Mrs. Allerton. - Pelo
menos  o que diz Tim.
 O rapaz ficou carrancudo, mas o detective voltou-se para
ele.
 - Ah! Ento j passou por essa experincia? Esteve 
hospedado em alguma casa onde houve um roubo?
 - Nunca.
 - Oh, sim - lembrou Mrs. Allerton. - Estiveste
 em casa dos Portaligtons, quando foram roubados os
 brilhantes daquela velha impossvel.
 - Confunde sempre as coisas, mam. Eu estava
l, quando descobriram que os brilhantes que ela usava
eram falsos! A substituio talvez tivesse sido feita
anos antes... Para ser franco, muita gente achou que 
talvez fosse ela mesma a responsvel!
 - Foi o que Joana disse, com certeza.
 - Joana no estava l.
 - Mas conhecia muito bem aquela gente. O comentrio  
do tipo que ela gostaria de fazer.
 - A me est sempre contra Joana.
 Poirot mudou vivamente de assunto. Disse que estava com
inteno de fazer uma compra grande, numa
das lojas de Assuo. Um tecido muito interessante,
vermelho e oiro. Teria, naturalmente, que pagar alguns
direitos alfandegrios...
 - Eles dizem que podem... como direi?... despachar tudo 
para mim? E que os direitos no sero muito pesados. 
Acham que chegar tudo em ordem?
 Mrs. Allerton disse que muita gente fazia, naquelas 
lojas, compras que eram mandadas directamente; para a Inglaterra, e que em geral no havia motivo de 
queixa.
 - Bien. Farei isso, ento. Mas que trabalho, quando 
a gente est no estrangeiro e nos chega um pacote de
Inglaterra! J tiveram essa experincia? Tm recebido 
alguma coisa, em viagem?
 - No o creio, no  verdade, Tim? Tens recebido livros,
naturalmente, mas sobre isso nunca tivemos aborrecimentos.
 - Ah, no; com livros  diferente.
 A sobremesa fora servida. Sem prvio aviso, Race
levantou-se e fez o seu discurso.
 Referiu-se s circunstncias do crime e anunciou o
roubo do colar. Enquanto se procedia a uma busca no
vapor, ele ficaria grato aos passageiros se permanecessem
tranquilos no salo. Depois disso, se ningum
fizesse objeco, seriam todos revistados...
 Poirot aproximara-se discretamente de Race. Ouviu-se um
zunzum... Vozes perplexas, indignadas, excitadas...
 Poirot murmurou qualquer coisa ao ouvido de Race, justamente
no momento em que este ia sair do salo.
 O coronel inclinou afirmativamente a cabea e chamou um
criado.
 Disse-lhe algumas palavras e depois, juntamente
com Poirot, passou para o tombadilho, fechando a porta.
 Ficaram por um ou dois minutos debruados na amurada. 
Race acendeu um cigarro e disse:
 - No  m a sua ideia. Logo veremos se d resultado.
Dou-lhes trs minutos.
 A porta da sala de jantar abriu-se e o mesmo criado com 
que tinha falado apareceu. Saudou Race, dizendo:
 - Tem razo, coronel. Uma das senhoras diz que
precisa de falar-lhe com urgncia.
 - Ah! - exclamou Race com ar satisfeito. - Quem  ela?
 - Miss Bowers, a enfermeira.
 O coronel pareceu surpreendido.
 - Traga-a para a sala de fumo. No consinta que
ningum mais saia da sala.
 - No, senhor. O outro criado cuidar disso.
 O homem voltou ao salo e Poirot e Race dirigiram-se para a
sala de fumo.
 - Bowers, hem? - murmurou Race.
 Mal tinham l entrado, Miss Bowers apareceu com
o criado. O homem saiu, fechando a porta.
 - Muito bem, Miss Bowers; que significa tudo isto? -
perguntou Race.
 Miss Bowers era a mesma pessoa controlada de
sempre, no parecendo nada emocionada.
 - Desculpe-me, coronel, mas, nas circunstncias
actuais, achei que era prefervel vir imediatamente falar-lhe
- disse ela, abrindo a bolsa - para lhe devolver isto...
 Tirou de dentro um colar de prolas, colocando-o
sobre a mesa.



CAPTULO 20

 Se Miss Bowers fosse do tipo que gostasse de causar
sensao, teria ficado amplamente satisfeita com o
efeito do seu gesto.
 No rosto de Race aparecera uma expresso completamente
estupefacta.
 -  extraordinrio! Quer ter a bondade de se explicar, 
Miss Bowers?
 - Naturalmente. Foi para isso que vim aqui - disse a
enfermeira, instalando-se confortavelmente numa cadeira. -
Claro que me foi difcil resolver qual a
mais acertada maneira de agir. A famlia, naturalmente,
preferiria evitar um escndalo, confiando no meu
critrio; mas as circunstncias so to extraordinrias
que no me deixam outra alternativa. No encontrando nada nas
cabinas, a primeira ideia dos senhores seria revistar os
passageiros; se o colar fosse encontrado em meu poder, a situao seria embaraosa e a verdade teria
que vir  luz.
 - E qual  exactamente a verdade? Tirou estas prolas do
quarto de Mistress Doyle?
 - Oh, no, coronel Race. Claro que no. Foi
Miss Van Schuyler quem as tirou.
 - Miss Van Schuyler?
 - Sim. No pde resistir... O senhor sabe, ela
costuma tirar... coisas. Jias, principalmente.  por isso 
que a acompanho por toda a parte, e no por causa
da sua sade. E devido a esta sua... maniazinha. Fico
alerta, e felizmente nada houve de desagradvel desde
que estou ao seu servio. Basta eu ficar de sobreaviso,
o senhor compreende. E ela costuma pr tudo no mesmo lugar
(num p de meia) de modo que  muito simples para mim. Basta
eu olhar para l todas as manhs.
Tenho o sono leve e durmo sempre a seu lado; nos hotis deixo
aberta a porta de comunicao. Procuro ento convenc-la a
voltar para a cama. Num navio, , naturalmente, muito mais difcil. Mas geralmente ela no faz isso de 
noite.  mais um hbito de apanhar as coisas que v esquecidas aqui e ali... Claro que sempre sentiu 
grande atraco pelas prolas.
 - Como foi que a senhora descobriu que o colar
tinha sido tirado? - perguntou Race.
 - Encontrei-o no p de meia, hoje de manh. Eu
sabia, naturalmente, a quem pertencia. J o tinha notado. 
Fui lev-lo  cabina de Mistress Doyle, com esperanas de a
encontrar ainda a dormir e sem ter dado pelo seu desaparecimento, mas ao chegar  porta vi ali
um criado, que me contou o que acontecera. Ningum
podia entrar na cabina. O senhor compreende, portanto, 
o meu dilema. Mas eu ainda tinha esperana de
conseguir pr o colar na cabina em qualquer outro
momento. Garanto-lhe que passei uma manh muito
desagradvel, procurando resolver qual a melhor maneira de
agir, pois, como o senhor sabe, a famlia de
Miss Van Schuyler  muito correcta e exigente. Uma
notcia como esta nunca dever aparecer nos jornais.
Mas no ser necessrio, no  verdade?
 Miss Bowers parecia realmente preocupada.
 - Depende das circunstncias - respondeu Race,
sem se comprometer. - Mas faremos,  claro, o possvel para a
ajudar. Que diz a isso Miss Van Schuyler?
 - Oh, ela negar a ps juntos, naturalmente.  o
que sempre faz. Dir que uma pessoa maldosa colocou
o colar entre as suas roupas. Nunca confessa ter tirado
coisa alguma.  por isso que vai muito mansinha para
a cama, quando  apanhada a tempo. Diz que foi apenas admirar
a Lua, ou coisa parecida.
 - Miss Robson sabe desse... defeito?
 - No, no desconfia de nada. Sua me sabe, mas Miss Robson 
 uma rapariga muito ingnua e Mistress Robson achou prefervel que ela continuasse na ignorncia. Posso 
perfeitamente tomar conta de Miss Van Schuyler sozinha - acrescentou a competente Miss Bowers.
 - Ficamos muito agradecidos, Miss Bowers, por
nos ter vindo procurar to prontamente - disse Poirot.
 A enfermeira ergueu-se, dizendo:
 - Espero ter agido pelo melhor.
 - Pode ter a certeza que sim.
 - O senhor compreende que, com um crime de morte...
 Race interrompeu-a com voz grave:
 - Miss Bowers, vou fazer-lhe uma pergunta e
quero que compreenda que ter de ser respondida
com absoluta franqueza. Miss Van Schuyler  mentalmente
anormal, a ponto de ser cleptomanaca. Tem
tambm tendncias homicidas?
 Miss Bowers respondeu vivamente:
 - Oh, cus, no! Nada nesse gnero; disso pode
ter a certeza. A velha  incapaz de uma maldade.
 A resposta fora dada com tanta firmeza que no
havia mais nada a dizer. Apesar disso, Poirot ainda 
fez uma pergunta.
 - Miss Van Schuyler  ligeiramente surda, no ?
 - Para falar a verdade, sim, Monsieur Poirot.
No muito, de modo que no se nota isso ao conversar
com ela. Mas muitas vezes no ouve uma pessoa entrar
no quarto, ou qualquer outra coisa desse gnero.
 - Acha que ouviria rudo de passos na cabina de
Mistress Doyle, que  pegada  dela?
 - Oh, no o creio. A cama dela fica do outro lado, nem mesmo
contra a parede comum s duas cabinas! No, no creio que
pudesse ouvir coisa alguma.
 - Agradecido, Miss Bowers.
 - Quer ter a bondade de voltar  sala de jantar e
esperar ali com os outros? - disse Race.
 Abriu a porta e viu-a descer as escadas e dirigir-se
para o salo. Depois fechou de novo a porta e voltou
para perto da mesa. Poirot examinava o colar.
 - Bom, a reaco foi rpida - disse Race. - Mulher astuta e
de muita presena de esprito, capaz de nos iludir mais ainda, se isto convier aos seus planos. E,
quanto a Miss Van Schuyler? No creio que
possamos elimin-la da lista dos suspeitos.  possvel
que tenha cometido o crime para se apoderar das prolas. 
No podemos acreditar na palavra da enfermeira;
ela far o possvel para proteger a famlia.
 Poirot inclinou a cabea. Estava muito ocupado a
revirar as prolas nos dedos, examinando-as contra
a luz.
 - Na minha opinio, podemos acreditar que esta
parte da histria, referente  velha,  verdadeira. 
Ela espreitou pela porta da cabina e viu Rosalie. Mas no
creio que tenha ouvido coisa alguma na cabina de Mistress
Doyle. Com certeza estava apenas a espreitar, antes de ir
surripiar as prolas.
 - Ento Rosalie estava no tombadilho?
 - Sim; atirando  gua o sortido de bebidas da me.
 Race abanou a cabea, com ar de pena.
 - Ento  isso! Duro para uma pessoa to nova.
 - Sim; a vida no tem sido muito alegre para cette
pauvre petite Rosalie.
 - Estou contente por terem sido dissipadas as dvidas. Ela
no ouviu ou viu coisa alguma?
 - Fiz-lhe essa pergunta. Respondeu-me (depois
de um intervalo de vinte segundos!) que no vira ningum.
 - Oh! - exclamou Race subitamente alerta.
 - Sim,  significativo.
 - Se Linnet foi assassinada  uma e dez, ou a
qualquer hora depois, em que havia silncio no navio, acho
extraordinrio que ningum tenha ouvido
o tiro - observou Race. - Concordo que aquele revolverzinho
no faria muito barulho, mas haveria
completo silncio a bordo, e qualquer rudo, mesmo
um estalo, seria ouvido. Mas comeo a compreender
melhor. A cabina contgua  de Mistress Doyle, na
parte da frente, estava desocupada, uma vez que Simon se
achava na do mdico. A outra, atrs,  de
Miss Van Schuyler, que  ligeiramente surda. Isto
deixa apenas...
 Fez uma pausa, fitando Poirot.
 - A cabina pegada  dela, do outro lado do navio,
isto , a de Pennington. Parece-me que voltamos sempre a
Pennington.
 - Voltaremos a ele daqui a pouco, mas sem luvas
de pelica! Ah, sim, vou proporcionar a mim mesmo
esta satisfao! - exclamou Poirot.
 - Neste meio tempo,  melhor continuarmos a revistar o
navio. O colar servir de desculpa, embora j
tenha sido devolvido, pois Miss Bowers com toda a
certeza no ir propalar o facto.
 - Ah, estas prolas! - disse Poirot, examinando-as mais uma
vez contra a luz.
 Passou a lngua sobre elas, chegando mesmo a
morder uma. Depois largou-as sobre a mesa, suspirando.
 - Mais complicaes, meu amigo - disse ele. - No sou 
perito no assunto, mas, na poca das minhas
actividades, lidei muito com jias, e conheo mais ou
menos o que vejo. Estas prolas so apenas uma boa
imitao.



CAPTULO 21

 Race blasfemou violentamente.
 - Este maldito caso est a ficar cada vez mais
complicado - disse ele, apanhando o colar. - Tem a
certeza de que no se enganou? A mim parece-me verdadeiro.
 - Sim, a imitao  perfeita.
 - Que significa isto? Quem sabe se Linnet no
trazia uma imitao, para viajar mais tranquilamente,
como fazem muitas mulheres?
 - Se fosse esse o caso, o marido provavelmente
estaria informado.
 - Talvez no lhe tivesse contado.
 Poirot abanou a cabea, descontente.
 - No, no creio. Naquela primeira noite, a bordo, admirei
as prolas de Mistress Doyle, o oriente, o
brilho maravilhoso. Tenho a certeza de que eram verdadeiras.
 - Isso sugere-nos duas possibilidades. Primeiro:
que Miss Van Schuyler roubou a imitao, depois de o
colar verdadeiro ter sido roubado por outra pessoa. Segundo:
que aquele negcio de cleptomania  treta. Ou
Miss Bowers  uma ladra, e inventou a histria, procurando
alienar as nossas suspeitas com a entrega da
imitao, ou o bando est todo de acordo. Isto : trata-se de
uma autntica quadrilha, querendo passar por
uma famlia americana.
 - Talvez.  difcil saber - disse Poirot. - Mas
chamo a sua ateno para um ponto. Uma imitao,
com fecho e tudo o mais, perfeita a ponto de enganar
Mistress Doyle, no poderia ter sido feita  pressa.
A pessoa que copiou as prolas deve ter tido ocasio
de examinar cuidadosamente as verdadeiras.
 Race ergueu-se.
 -  intil continuar a fazer conjecturas. Vamos
para diante. Temos que encontrar o colar verdadeiro,
ficando ao mesmo tempo de olhos abertos.
 Primeiro, revistaram as cabinas do tombadilho inferior.
 A de Richetti continha vrios trabalhos sobre arqueologia,
em diversas lnguas; inmeras roupas; loes para o cabelo, de
perfume intenso; duas cartas - uma, de uma expedio
arqueolgica na Sria, e outra,
pelo que parecia, de uma irm que vivia em Roma.
Todos os lenos eram de seda de cor.
 Passaram em seguida para a cabina de Ferguson.
 Literatura comunista; vrios instantneos; Erezvhon, de
Samuel Butler; uma edio barata de Pepys
Diary. O guarda-roupa no era muito vasto - as roupas de cima
geralmente rotas e sujas, as de baixo, pelo
contrrio, de muito boa qualidade. Lenos caros, de
linho.
 - Interessante discrepncia - murmurou Poirot.
 -  esquisito no haver nada de pessoal, nenhuma carta,
documento ou coisa parecida.
 - Sim, d que pensar. Um sujeito engraado, este
Ferguson.
 Poirot examinou, pensativo, um anel com sinete,
guardando-o em seguida na gaveta onde o encontrara.
 Dali foram para a cabina de Louise Bourget.
A criada costumava tomar as suas refeies depois dos
outros passageiros, mas Race dera ordem para que ela
fosse reunir-se aos outros.
 Um dos criados veio procur-lo.
 - Desculpe-me, senhor, mas no consigo encontrar aquela
rapariga. No posso saber para onde foi.
 Race espreitou para dentro da cabina de Louise.
Estava vazia.
 Foram para o tombadilho de passeio, e comearam
a busca nas cabinas a estibordo. A de Fanthorp era a
primeira. Aqui, perfeita ordem. Mr. Fanthorp no
trazia grande bagagem, mas tudo o que tinha era de
boa qualidade.
 - Nenhuma carta - comentou Poirot. - Este
Mister Fanthorp tem o cuidado de destruir a sua
correspondncia.
 Em seguida, foram para a cabina de Tim Allerton.
 Havia ali sinais de uma mentalidade de anglo -catlico - um
pequeno trptico e um grande tero de madeira trabalhada. 
Alm das roupas de uso pessoal, encontraram um manuscrito incompleto, muito anotado e rabiscado, e 
uma boa coleco de livros, quase todos de recente publicao. Havia tambm uma grande quantidade de 
cartas numa gaveta. Poirot, que nunca
tivera escrpulo de ler a correspondncia alheia, passou uma
vista de olhos por elas. Notou que no havia nenhuma de Joana Southwood. Apanhou um tubo de 
seccotine, examinando-o com ar distrado, depois disse:
 - Vamos continuar.
 - Nada de lenos de Woolworth - observou Race, tornando a
pr numa gaveta o que dali tirara.
 A seguir, vinha a cabina de Mrs. Allerton. Muito
bem arrumada; no ar, um suave perfume de lavanda...
 A busca terminou logo. Race comentou, ao sair:
 - Uma senhora correcta, esta.
 A segunda cabina era a que Simon Doyle usava como vestirio.
As coisas de primeira necessidade, como pijamas e objectos de toilette, tinham sido levados para a cabina 
de Bessner, mas o resto ficara ali. Duas malas de coiro de bom tamanho e uma mala-armrio. No armrio, 
havia tambm algumas roupas.
 - Vamos examinar tudo com cuidado, meu amigo
- disse Poirot. -  bem provvel que o ladro tenha
escondido aqui as prolas.
 - Acha?
 - Sim, sim. Pense bem! O ladro, seja ele quem
for, devia saber que cedo ou tarde iramos fazer uma
busca e que seria loucura esconder o colar na sua prpria
cabina. Os lugares pblicos apresentam outras dificuldades,
mas aqui est uma cabina que no poder ser visitada pelo dono. E, portanto, se o colar for encontrado
aqui, ficaremos na mesma.
 Mas, por mais que procurassem, nada encontraram.
 Poirot soltou uma exclamao descontente e mais
uma vez saram para o tombadilho.
 A cabina de Linnet fora fechada, depois de o corpo
ser removido, mas Race trouxera a chave.
 Entraram. A no ser pela ausncia do corpo, estava
tudo exactamente como de manh.
 - Poirot, se h alguma coisa para ser descoberta
aqui, pelo amor de Deus, descubra-a! - exclamou
Race. - Ningum mais competente do que voc, tenho a certeza
disso.
 - Desta vez no se refere s prolas, mon ami?
 - No. O crime  mais importante.  possvel
que alguma coisa me tenha escapado hoje de manh.
 Calmamente, com mtodo e habilidade, Poirot comeou a busca.
Ps-se de joelhos e examinou o soalho,
palmo a palmo. Em seguida a cama. Depois o armrio, as gavetas
da cmoda, a mala-armrio, as duas finas maletas.
Concentrou-se finalmente no lavatrio.
Vrios cremes, ps, loes. Mas a nica coisa que pareceu
interessar Poirot foram dois frascos, com a etiqueta
"Nailex". Tirou-os da prateleira e levou-os para
a mesa de toilette. Um deles, com o rtulo "Nailex Rose",
estava vazio, a no ser uma ou duas gotas de um
lquido rubro, no fundo. O outro, do mesmo tamanho, mas
rotulado "Nailex Cardinalv, estava quase
cheio. Poirot desarrolhou-os a ambos, cheirando-os
com cuidado e delicadeza.
 Um cheiro de pra invadiu a cabina. Com uma careta, o
detective rolhou os frascos.
 - Descobriu alguma coisa? - perguntou Race.
 Poirot replicou com um provrbio francs:
 - On ne prend pas les mouches avec le vinaigre.
 Depois acrescentou, com um sorriso:
 - Meu amigo, no tivemos sorte. O assassino no
foi gentil. No deixou cair as abotoaduras, a ponta do
cigarro, a cinza do charuto ou, no caso de se tratar de
uma mulher, o leno, o bton, o gancho do cabelo.
 - Somente o frasco de verniz para unhas?
 Poirot encolheu os ombros, dizendo:
 - Tenho que perguntar  criada. H aqui uma
coisa... sim, uma coisa muito curiosa.
 - Onde diabo foi ela meter-se?
 Saram, fecharam a porta e foram para a cabina de
Miss Van Schuyler.
 Ali, tambm, todos os sinais de luxo - tudo em
perfeita ordem.
 A cabina seguinte era a cabina dupla, ocupada por
Poirot; a seguir vinha a de Race.
 - Pouco provvel que o tenham escondido numa
destas - disse Race. Poirot no concordou.
 -  possvel. Certa vez, no Expresso do Oriente,
tive que investigar um assassnio. Havia o mistrio de
um quimono vermelho. Tinha desaparecido, e no entanto devia
estar no comboio. Achei-o... imagina onde?...
Na minha prpria maleta, fechada  chave! Ah, mas
que impertinncia!
 - Bom, vejamos se algum foi impertinente consigo ou 
comigo desta vez.
 Mas nada encontraram. Em seguida, revistaram a cabina de
Miss Bowers, com igual resultado. Os lenos ali,
eram simples, de linho com uma inicial, apenas.
 A seguir, a cabina das duas Otterbournes. Tambm aqui 
Poirot foi meticuloso, mas sem resultado algum.
 Logo depois entraram na cabina de Bessner. Ao lado de Simon,
estava uma bandeja com comida em que
ele no tocara.
 - Sem apetite - desculpou-se Simon.
 Parecia febril, mais doente do que no princpio do
dia. Poirot compreendeu a ansiedade de Bessner em
lev-lo o mais depressa possvel para um hospital.
 O detective explicou o que ele e Race estavam a fazer e
Simon inclinou a cabea com ar aprovador. Manifestou grande
surpresa quando soube que as prolas haviam sido devolvidas por Miss Bowers, e que eram falsas.
 - Tem a certeza absoluta, Mister Doyle, de que
sua esposa no tinha um colar falso, que trouxe em lugar do
verdadeiro?
 Simon abanou enfaticamente a cabea.
 - Oh, tenho a certeza. Linnet adorava aquele colar e 
usava-o em toda a parte. Estava no seguro e acho
que por isso ela se despreocupava um pouco.
 - Precisamos ento continuar a nossa busca.
 Poirot abriu as gavetas. Race atacou uma das malas.
 Simon fitou-os, admirado, e perguntou:
 - Oiam, no suspeitam do velho Bessner, no
 verdade?
 Poirot encolheu os ombros, replicando:
 - Porque no? Que sabemos ns dele? Somente
o que ele prprio nos contou.
 - Mas ele no poderia esconder aqui o colar, sem
que eu...
 - No poderia esconder hoje, sem que o senhor o
percebesse. Mas a substituio pode ter sido feita h
muitos dias.
 - No pensei nisso.
 A busca foi improfcua.
 Agora, a cabina de Pennington. Os dois homens
levaram algum tempo a examinar com cuidado o contedo 
de uma pasta - vrios documentos que exigiam
a assinatura de Linnet.
 Poirot comentou em tom lgubre:
 - Tudo acima de qualquer suspeita. No  tambm a sua
opinio?
 - Sem dvida. Mas o homem no  nenhum idiota. Se houvesse
aqui algum documento comprometedor, uma procurao, ou coisa
parecida,  mais do que certo que o teria destrudo imediatamente aps o crime.
 - Tem razo.
 Poirot tirou da gaveta de cima da cmoda um pesado Colt,
examinou-o, guardando-o novamente.
 - Ento ainda h gente que viaja armada! - murmurou ele.
 - Sim, significativo, talvez. Mas Linnet no foi
assassinada com uma arma deste calibre. - Race fez uma pausa 
e depois disse: - Sabe uma coisa? Tenho
procurado uma resposta  sua observao sobre o revlver
atirado ao rio. Suponhamos que o assassino o
tenha deixado na cabina, e que outra pessoa o deitou fora?
 - Sim,  possvel. Tambm pensei nisso. Mas d ensejo a vrias perguntas. Quem era essa segunda 
pessoa? Que
interesse tinha em proteger Jacqueline? Que estava l a fazer? A nica pessoa que ns sabemos que 
entrou na cabina de Linnet foi Miss Van Schuyler.
Acha possvel ela ter tirado o revlver? Que motivo
tem para proteger Jacqueline? E no entanto... que outro motivo
pode existir para a remoo da arma?
 Race sugeriu:
 - Talvez a velha tenha reconhecido a sua charpe,
ficasse assustada e atirasse tudo fora.
 - A charpe, talvez. Mas a arma? Concordo, no
entanto, que talvez seja uma soluo. Mas  pouco
subtil, bon Dieu,  pouco subtil. E voc ainda no percebeu
uma coisa a respeito da charpe...
 Quando saram da cabina de Pennington, Poirot
props que Race continuasse a revistar as que faltavam, de
Jacqueline, de Cornlia, e duas desocupadas,
enquanto ele ia conversar com Simon Doyle.
 Voltou ento para a cabina de Bessner.
 Simon disse, ao v-lo entrar:
 - Oia, estive a reflectir. Tenho a certeza de que o
colar de ontem  noite era o verdadeiro.
 - Porque diz isso, Mister Doyle?
 - Porque Linnet... - ele contraiu-se ligeiramente
ao pronunciar o nome da esposa - esteve a acarici-lo
pouco antes do jantar e falando sobre ele. Entendia de
jias. Tenho a certeza de que teria percebido, se fosse
falso...
 - Em todo o caso, era uma boa imitao. Diga-me
uma coisa: Mistress Doyle estava habituada a separar-se do
colar? Emprestou-o alguma vez a uma amiga, por exemplo?
 Simon corou, ligeiramente constrangido.
 - O senhor sabe, Mister Poirot, -me difcil responder...
eu... o senhor compreende, no havia muito
tempo que eu conhecia Linnet.
 - Ah, no; foi um romance rpido, o seu.
 Simon continuou:
 - E, portanto, no podia estar a par de uma coisa
dessas. Mas Linnet era muito generosa. No duvido
de que isso tenha acontecido.
 Poirot disse em voz muito suave:
 - Por exemplo, nunca emprestou o colar a Mademoiselle de
Bellefort?
 - Que quer dizer com isso? - exclamou Simon,
corando violentamente. Tentou sentar-se, teve uma
contraco de dor e caiu de novo sobre a cama. - Que pretende
insinuar? Que Jackie roubou o colar?
No foi ela. Juro que no. Jackie  honesta como ningum. 
ridculo supor que  ladra... completamente ridculo.
 Poirot fitou-o com os olhos brilhantes.
 - Oh, l l l! - exclamou inesperadamente. - Parece que 
fui mexer num vespeiro.
 - Jackie  honesta!
 Poirot lembrou-se de uma voz de mulher, em Assuo,  beira
do Nilo, dizendo: "Amo Simon... e ele ama-me. "
 Ficara conjecturando qual das trs asseres que
ouvira naquela noite era a verdadeira. Parecia-lhe agora 
que fora Jacqueline quem mais se aproximara da verdade.
 A porta abriu-se e Race apareceu.
 - Nada - disse em tom brusco. - Bom, era o
que espervamos. Vejo que os criados vm para nos
contar o resultado da busca, no salo.
 Um homem e uma mulher apareceram  porta.
 O homem foi o primeiro a falar.
 - Nada, senhor.
 - Algum dos homens fez oposio?
 - Somente o italiano. Falou muito sobre isso.
 Disse que era uma vergonha... qualquer coisa nesse
 gnero. E tinha um revlver.
 - Que espcie de revlver?
 - Automtico. Mauser 25, senhor.
 - Os italianos so nervosos - comentou Simon.
 - Richetti fez um barulho dos diabos em Uadi Halfa,
s por causa de um telegrama errado. Foi muito grosseiro com
Linnet.
 Race voltou-se para a criada das cabinas, uma mulher forte e
bonita.
 - Nada, nas senhoras - declarou ela. - Todas protestaram, a no ser Mistress Allerton, que no podia ter 
sido mais gentil. Nem mesmo sinal do colar!
Por pensar nisto, Miss Rosalie Otterbourne tem um
revolverzinho na bolsa.
 - De que tipo?
 - Pequenino, com cabo de madreprola. Mais parece um
brinquedo.
 Race teve um sobressalto.
 - Maldito caso! Pensei que ela estivesse livre de
qualquer suspeita. Porque ser que toda a gente, neste
navio anda com revlver de cabo de madreprola?
 Voltou-se para a mulher e perguntou:
 - Mostrou-se aborrecida quando voc descobriu o
revlver?
 A criada abanou a cabea e respondeu:
 - No creio que tenha percebido. Eu estava de
costas, quando examinei a bolsa.
 - De qualquer maneira, ela devia saber que o revlver seria
encontrado. Oh, bom, no sei o que pensar. E quanto  criada?
 - Batemos o navio todo  procura dela, senhor, e
no conseguimos encontr-la.
 - De que se trata? - perguntou Simon.
 - Louise Bourget, a criada de Mistress Doyle, desapareceu.
 - Desapareceu?
 Race disse com ar pensativo:
 -  possvel que o colar tenha sido roubado por ela.  a nica pessoa que poderia ter conseguido uma 
imitao.
 - E depois, quando percebeu que iam revistar o
navio, atirou-se ao rio - sugeriu Simon.
 - Tolice! - replicou Race em tom irritado. - Ningum pode
atirar-se de um navio como este em pleno dia, sem que 
algum d por isso! Ela deve estar aqui.
 Houve uma pausa, depois Race perguntou  criada:
 - Quando foi que Louise foi vista pela ltima vez?
 - Mais ou menos meia hora antes de tocarem a sineta do
almoo.
 - Vamos examinar a sua cabina. Talvez encontremos a algum
indcio.
 Race desceu para o tombadilho de baixo, acompanhado por
Poirot. Abriram a porta da cabina e entraram.
 Louise Bourget, que tinha por obrigao conservar
em ordem as coisas dos outros, no parecia muito ordenada no
que era seu. Em cima da cmoda havia uma confuso de objectos, a sua maleta estava aberta, com 
roupas cadas para fora, impedindo-a que se fechasse, e nas cadeiras estavam 
pousadas algumas roupas de baixo.
 Poirot examinou as gavetas da cmoda e Race a
maleta.
 Os sapatos de Louise estavam alinhados perto da
cama. Um deles, de verniz preto, parecia descansar
num ngulo muito esquisito, quase sem apoio. To
extraordinrio aquilo que chamou a ateno de Race.
 Race fechou a maleta e inclinou-se sobre os sapatos.
 Soltou uma brusca exclamao...
 Poirot voltou-se vivamente para ele e perguntou
 - Qu'est-ce qu'il y a?
 Race respondeu sombriamente:
 - Ela no desapareceu. Est aqui, debaixo da cama..



CAPTULO 22

 O corpo sem vida de Louise Bourget estava no
cho da cabina. Os dois homens inclinaram-se para o
examinar.
 Race foi o primeiro a erguer-se.
 - Morta h mais de uma hora, creio eu. Bessner
ter que dar o seu parecer. Apunhalada no corao.
Morte instantnea, com certeza. No est nada bonita,
no  verdade?
 - No - respondeu Poirot, estremecendo ligeiramente.
 O rosto moreno e felino estava convulsionado numa 
expresso de surpresa e fria - os lbios abertos,
mostrando os dentes.
 Poirot inclinou-se novamente, erguendo a mo direita da
morta. Abriu-lhe os dedos, que ainda agarravam qualquer 
coisa. Entregou a Race um pedacinho de papel de um tom rosa-lils e perguntou:
 - Sabe o que ?
 - Dinheiro.
 - O canto de uma nota de mil francos, creio eu.
 - Bom, no h dvida quanto ao que aconteceu - disse Race. - Ela sabia alguma coisa, e estava a explorar 
o assassino. Bem notmos ns que ela no estava a ser muito
sincera hoje de manh!
 - Temos sido idiotas... imbecis! - exclamou Poirot. -
Devamos ter compreendido... nesse momento.
Que foi que ela disse? Como poderia eu ver ou ouvir alguma
coisa! Eu estava no tombadilho de baixo. Claro
que, se no tivesse sentido sono, se tivesse subido as
escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, entrar ou sair da cabina da senhora; mas como 
no foi assim..." Claro que foi o que aconteceu! Ela subiu. Viu algum
esgueirando-se para a cabina de Linnet, ou saindo de
l. E, por causa da sua ganncia, da sua insensata ganncia,
jaz a agora!
 - E estamos longe de saber quem a matou - disse Race,
aborrecido.
 Mas Poirot abanou a cabea, dizendo:
 - No, no... Sabemos muito mais agora. Sabemos... quase
tudo. Parece incrvel... e no entanto deve
ter sido assim. Mas no compreendo... Ah! Que idiota
fui hoje de manh! Achmos... achmos que Louise
estava a ocultar-nos alguma coisa, e no percebemos a
causa de tudo: chantage.
 - Deve ter exigido algum dinheiro imediatamente
- disse Race. - Com ameaas. O assassino foi obrigado a ceder,
pagando-a em dinheiro francs. Algum indcio?
 - No o creio. Muita gente traz em viagem uma
reserva de dinheiro, libras, dlares, e tambm francos.
Com certeza o assassino deu-lhe tudo o que tinha, em
moeda de vrios pases. Vamos continuar.
 - O assassino entrou aqui, deu-lhe o dinheiro e
depois...
 - Depois, ela contou o dinheiro - terminou Poirot. - Oh,
sim, conheo esse tipo. Ela contaria o dinheiro, e ao faz-lo
estaria distrada. O assassino atacou. Tendo conseguido
mat-la, agarrou o dinheiro e
fugiu... sem notar que ficava o canto de uma nota.
 - Talvez seja possvel identific-lo por a - disse
Race, sem grande convico.
 - Duvido. Ele examinar as notas e notar o rasgo. Claro
que, se fosse um sujeito avarento, no teria
coragem de destruir uma nota de mil francos; mas
acredito que seja um tipo completamente diferente.
 - Porque diz isso?
 - Tanto este crime como o de Mistress Doyle exigem certas
qualidades: coragem, audcia, presena de
esprito, rapidez; qualidades que no condizem com
um temperamento prudente, econmico.
 Race abanou a cabea, desanimado.
 - Vou mandar chamar Bessner.
 O exame mdico no durou muito. Com uma profuso de Achs,
Sos e outras exclamaes, Bessher ps mos  obra.
 - A morte no ocorreu h mais de uma hora - declarou ele. -
Foi rpida, instantnea.
 - Que arma acha o senhor que foi usada?
 - Ach, isto  interessante. Alguma coisa muito
afiada, muito fina, muito delicada. Posso mostrar-lhes
de que tipo.
 Foram todos para a cabina de Bessner. O mdico
abriu uma mala pequena, tirando dali uma espcie de
bisturi longo e fino.
 - Alguma coisa neste gnero, meu amigo. No
uma faca comum de mesa.
 - Espero que nenhum dos seus instrumentos...
lhe falte, doutor? - perguntou Race suavemente.
 Bessner encarou-o; uma onda de sangue subiu-lhe
ao rosto.
 - Que diz? - exclamou indignado. - Acha que
eu, Carl Bessner, to conhecido em toda a ustria, eu,
com a minha clnica, os meus aristocrticos clientes...
eu tenha matado uma miservel femme de chambre! Ah,
mas  ridculo, absurdo o que diz! Nenhum dos meus
instrumentos me falta, nenhum, garanto-lhe. Esto todos aqui,
nos seus lugares. Verifique o senhor mesmo.
No me esquecerei deste insulto  minha profisso.
 Bessner fechou a caixa bruscamente, atirou-a para
cima de uma cadeira e passou furioso para o tombadilho.
 - Uf! - exclamou Simon - o velho ficou furioso!
 -  lamentvel - disse Poirot, encolhendo os ombros.
 - Esto enganados. O velho Bessner  uma ptima criatura,
apesar de ser meio boche.
 O mdico reapareceu subitamente.
 - Querem ter a bondade de sair da minha cabina?
Tenho de fazer o curativo  perna do doente.
 Miss Bowers entrara depois dele, e esperava, correcta e
profissional, que os outros se retirassem.
 Race e Poirot obedeceram vagarosamente. Race
murmurou qualquer coisa e passou  frente.
 Poirot voltou  esquerda.
 Ouviu vozes femininas, uma gargalhada... Jacqueline e
Rosalie conversavam na cabina desta ltima.
 A porta estava aberta. As raparigas ergueram os
olhos quando a sombra de Poirot caiu sobre elas. Rosalie
sorriu para ele pela primeira vez, um sorriso tmido 
e amvel, um tanto incerto, como quem fazia uma
coisa com que no estava familiarizada.
 - Falando da vida alheia, meninas! - brincou ele.
 - No, nada disso - respondeu Rosalie. - Para
falar a verdade, estvamos a comparar os nossos btons.
 Poirot sorriu.
 - Les chiffons d'aujourd'hui - murmurou ele.
 Havia algo de forado no seu sorriso, e Jacqueline,
mais perspicaz do que Rosalie, no deixou de notar o
facto. Largou o batn e passou para o tombadilho.
 - Alguma coisa... que foi que aconteceu?
 - Acertou, mademoiselle. Alguma coisa aconteceu.
 - Que foi? - perguntou Rosalie, vindo juntar-se
a eles.
 - Outra morte - disse Poirot.
 Rosalie ficou um minuto com a respirao suspensa. 
Poirot observava-a atentamente. Viu a expresso de
alarme, e, mais do que isso, de consternao, que 
por um minuto passou pelos olhos dela.
 - A criada de Mistress Doyle foi assassinada - disse 
ele sem rodeios.
 - Assassinada? - exclamou Jacqueline. - O senhor disse
assassinada?
 - Sim, foi isso o que eu disse.
 Embora a resposta tivesse sido dada a Jackie, os
olhos de Poirot observavam Rosalie. Foi a ela que se
dirigiu em seguida:
 - A tal criada viu alguma coisa que no devia ter
visto. E, portanto, receando que ela no soubesse guardar
segredo, reduziram-na para sempre ao silncio!
 - Que teria ela visto?
 A pergunta foi feita de novo por Jackie, e de novo
Poirot respondeu a Rosalie. Interessante, aquela cena
triangular...
 - Quanto a isso, no pode haver dvida - disse o
detective. - Deve ter visto algum entrar ou sair da
cabina de Mistress Doyle, na noite do crime.
 Poirot era observador. Notou a respirao ofegante, o
estremecimento das plpebras... A reaco de
Rosalie fora exactamente a que ele esperava ver.
 - Ela disse quem? - perguntou Rosalie.
 Poirot sacudiu tristemente a cabea.
 Ouviram-se passos no tombadilho. Cornlia, apareceu,
assustada, de olhos arregalados.
 - Oh, Jacqueline, aconteceu uma coisa horrvel!
 Afastaram-se as duas. Instintivamente, Poirot e
Rosalie tomaram a direco oposta.
 A jovem perguntou bruscamente:
 - Porque me olha dessa forma? Que  que lhe
passou pela cabea?
 - A senhora fez-me duas perguntas. Far-lhe-ei
uma s, em troca, mademoiselle. Porque no me conta a
verdade?
 - No sei a que se refere. Contei-lhe tudo, hoje
de manh.
 - No; nem tudo. No me contou que traz na
bolsa um revlver de pequeno calibre, com cabo de
madreprola. No me contou tudo o que viu a noite
passada.
 A rapariga corou. Depois disse secamente:
 - No  exacto. No tenho revlver nenhum.
 - Insisto em dizer que tem um revlver na sua
bolsa.
 Ela deu uma reviravolta, entrou na cabina e voltou
imediatamente, entregando-lhe com gesto brusco a sua
bolsa de camura cinzenta.
 - Est a dizer absurdos. Verifique.
 Poirot abriu a bolsa. No havia dentro nenhum revlver.
 Devolveu-a a Rosalie, notando a expresso desdenhosa e
triunfante do olhar dela.
 - No, no est aqui - disse ele, bem-humorado.
 - V? Nem sempre tem razo, Monsieur Poirot.
E engana-se sobre aquela coisa ridcula que disse.
 - No; no o creio.
 - O senhor  impossvel! - declarou ela, batendo
o p, indignada. - Mete uma ideia na cabea, e vai
batendo, batendo sempre na mesma tecla.
 -  porque quero que me diga a verdade.
 - Qual  a verdade? O senhor parece conhec-la
melhor do que eu.
 - Quer que lhe diga o que foi que a senhora viu?
Se eu acertar, est pronta a confessar que acertei? Pois
bem, vou comear. Acho que, quando deu a volta pela
popa do navio, a senhora estacou subitamente porque
viu um homem a sair de uma cabina do centro do
tombadilho; a cabina de Mistress Doyle, como ficou a
saber no dia seguinte. Viu-o fechar a porta e afastar-se
para o outro lado, entrando numa das cabinas da extremidade. 
E agora: acertei, mademoiselle?
 Rosalie no respondeu.
 Poirot continuou:
 - Talvez ache mais sensato no responder. Talvez
tenha medo de, se falar, ser tambm assassinada.
 Por um momento pensou que ela morderia a isca - que a acusao  sua coragem conseguiria aquilo que 
argumentos 
mais subtis no tinham conseguido.
 Os lbios de Rosalie entreabriram-se... tremeram.
 - No vi ningum - disse ela.



CAPTULO 23

 Endireitando os punhos do vestido, Miss Bowers
saiu da cabina do mdico.
 Jacqueline abandonou Cornlia bruscamente e 
aproximou-se da enfermeira.
 - Como vai ele?
 Poirot chegou a tempo de ouvir a resposta. Miss Bowers
parecia preocupada... Disse:
 - No vai muito mal.
 - Quer dizer que piorou? - exclamou Jacqueline.
 - Bom, no nego que ficarei mais tranquila depois da
radiografia, quando ele estiver num hospital.
Quando acha que chegaremos a Shelll, Mister Poirot?
 - Amanh, cedo.
 Miss Bowers comprimiu os lbios e abanou a cabea
lentamente.
 -  pena. Estamos a fazer o possvel, mas h sempre o perigo
de uma septicemia.
 Jacqueline agarrou o brao da enfermeira, exclamando:
 - Ele vai morrer? Vai morrer?
 - Cus, no, Miss de Bellefort. Isto , espero
realmente que no. O ferimento em si no  perigoso.
Mas no h dvida quanto  necessidade de uma radiografia. E,
naturalmente, o pobre Mister Doyle deve ficar hoje em repouso absoluto. Com toda esta agitao... no
 de admirar que a febre tenha subido.
O choque da morte da mulher, e uma e outra coisa...
 Jacqueline largou o brao da enfermeira e afastou-se, indo
debruar-se na amurada.
 - Na minha opinio, nunca se deve perder a esperana - disse
Miss Bowers. - Felizmente, Mister
Doyle tem uma ptima constituio, e isto  um ponto
a seu favor. Mas no h dvida que esta alta de temperatura
causa preocupaes...
 Abanou a cabea, acertou os punhos mais uma vez
e afastou-se em passos rpidos.
 Com os olhos cheios de lgrimas, Jacqueline dirigiu-se,
cambaleante, para a sua cabina. Sentiu que
algum a ajudava a firmar-se. Voltou-se e deu com
Poirot. Apoiou-se a ele e entraram juntos na cabina.
 Jacqueline sentou-se na cama, e as lgrimas correram-lhe
ento livremente, acompanhadas de soluos.
 - Ele vai morrer. Vai morrer. Sei que vai morrer.
E fui eu que o matei...
 Poirot encolheu os ombros, com ar tristonho.
 - Mademoiselle, o que est feito est feito.  tarde
de mais para arrependimentos.
 Jacqueline exclamou, apaixonadamente:
 - Se ele morrer, a culpa ser minha. Eu!...
E amo-o tanto, tanto...
 - De mais... - suspirou Poirot.
 O pensamento ocorrera-lhe meses antes, no restaurante de 
M. Blondin, e era ainda essa a sua opinio.
 Aps ligeira hesitao, continuou:
 - Mas no se fie no que diz Miss Bowers. Achei
sempre as enfermeiras muito lgubres! A enfermeira
da noite admira-se sempre de encontrar o doente vivo,
ao anoitecer, e a enfermeira do dia fica admirada por
encontr-lo vivo na manh seguinte! Elas conhecem a
fundo, compreende, as complicaes que podem sobrevir. Uma
pessoa que guia um carro poderia imaginar: se um roadster
sasse daquela encruzilhada, se aquele camio se lembrasse 
de repente de fazer marcha atrs, se a direco do carro que se aproxima se partisse, se um co saltasse 
daquela cerca em cima do meu brao; eh bien com certeza eu morreria. Mas a
gente supe, e geralmente com razo, que nenhuma
dessas coisas acontecer e que a viagem terminar sem
incidentes.
 Jacqueline disse, sorrindo por entre as lgrimas:
 - Procura consolar-me, Monsieur Poirot?
 - Deus sabe o que tento fazer! A senhora no devia ter 
feito esta viagem.
 - Tem razo... Tem sido... horrvel! Mas est
quase terminada.
 - Mais oui... Mais oui.
 - E Simon ir para o hospital e ser bem tratado,
e tudo se arranjar.
 - Fala como uma criana! E viveram para sempre
felizes.  isto, no ?
 A rapariga corou.
 - Monsieur Poirot, garanto-lhe que nunca...
 - " cedo de mais para pensarmos nisso!"  a frase
hipcrita que devia ter dito, no  verdade? Mas a
senhora  meio latina, mademoiselle. Deve saber reconhecer a
verdade, mesmo quando no  muito elegante. Le roi est mort...
vive le roi! O Sol escondeu-se, j se v a Lua.  isto, no ?
 - O senhor no compreende. Ele tem apenas d
de mim, porque sabe como me sinto por ser a causadora de todo
o seu sofrimento.
 - Ah, bom, a piedade sincera  um nobre sentimento -
declarou Poirot.
 Fitou-a com ar meio zombeteiro, em que havia
tambm outra expresso. Murmurou baixinho, em francs:
La vie est vaine
Un peu d'amour
Un peu de haine
Et puis bonjour.

La vie est brve
Un peu d'espoir
Un peu de rve
Et puis bonsoir.

 O detective saiu de novo para o tombadilho. Race,
que passeava de borda a borda, chamou-o.
 - Poirot? ptimo. Tenho uma ideia.
 Passou o brao pelo do detective e comearam a
caminhar juntos.
 - A respeito de um comentrio de Doyle. Oportunamente, no
lhe dei importncia. Qualquer coisa sobre um telegrama.
 - Tiens... c'est vrai.
 - Com certeza no d nada, mas no podemos
desprezar nenhum indcio. Com os diabos, meu amigo, duas
mortes e ainda estamos no escuro!
 - No; no escuro no. No claro.
 Race fitou-o com curiosidade.
 - Tem alguma ideia?
 - Agora  mais do que uma ideia. Tenho a certeza.
 - Desde... quando?
 - Desde a morte de Louise Bourget.
 - Macacos me mordam se entendo alguma coisa!
 - Meu amigo, est tudo to claro, to claro! S h
certas dificuldades. Embargos, impedimentos! Compreenda-me: 
volta de uma pessoa como Linnet Doyle h tanta coisa... tantos
sofrimentos... dio, inveja, cime, mesquinhez. Como um enxame de moscas... zumbindo... zumbindo.
 - Mas chegou a alguma concluso? - perguntou
Race sem poder conter a curiosidade. - Sei que no
diria uma coisa dessas, a no ser que tivesse a certeza.
Quanto a mim, estou na mesma. Tenho as minhas suspeitas, 
claro...
 Poirot estacou subitamente, agarrando com fora o
brao de Race.
 - Voc  um grande homem, mon colonel. No
diz: "Conte-me. Que foi que descobriu?" Sabe que, se
pudesse falar, eu falaria. H ainda tanta coisa para
esclarecer! Mas reflicta, reflicta durante alguns minutos
sobre o que lhe vou dizer. H certos pontos... A declarao de
Mademoiselle de Bellefort, de que algum
ouviu a nossa conversa em Assuo. O depoimento de
Mister Tim Allerton, sobre o que ouviu ou no ouviu
na noite do crime. As significativas respostas de Louise
Bourget, hoje de manh. O facto de Mistress Allerton beber
gua, seu filho whiskey e soda, e eu vinho.
Acrescente a isto os dois frascos de verniz das unhas, e
o provrbio que citei na ocasio. E, finalmente, chegamos ao
ponto culminante da histria: o facto do revlver ter sido
envolvido num leno barato e numa charpe de veludo, e atirado
ao rio...
 Race ficou alguns minutos em silncio, depois abanou a
cabea.
 - No compreendo. Tenho apenas uma vaga ideia
do que est a insinuar, nada mais.
 -  porque voc est enxergando apenas a metade. E lembre-se
de uma coisa: temos que comear,
desde o princpio, pois as nossas primeiras dedues
estavam completamente erradas.
 Race fez uma careta.
 - Estou habituado a isso. s vezes, tenho a impresso de que
 s esse o trabalho do detective: voltar
atrs, recomear!
 - Sim, tem razo. E  justamente isso que muita
gente no quer fazer. Concebem uma teoria e querem
que tudo caiba dentro dela. Se alguma coisa no se encaixa,
afastam-na sem mais nem menos. Mas os factos
que no se encaixam so justamente os mais significativos.
Durante todo este tempo, reconheci a importncia do revlver
ter sido levado do local do crime.
Sabia que tinha alguma significao, mas h meia hora
somente compreendi qual era essa significao!
 - E eu ainda no vejo nada!
 - Mas ver! Reflicta sobre os pontos que lhe indiquei.
Agora, vamos solucionar o problema do telegrama. Isto , se
Herr Doktor nos receber.
 Bessner recebeu-os carrancudo.
 - Que  isto? Querem ver de novo o meu doente?
Garanto-lhes que  uma imprudncia. Est com febre,
teve um dia muito agitado.
 - Apenas uma pergunta. Nada mais do que isso
- prometeu Race.
 O mdico afastou-se com um grunhido de descontentamento 
e os dois homens entraram na cabina.
 Bessner passou por eles, resmungando qualquer
coisa e disse:
 - Volto daqui a trs minutos, o tempo que lhes
dou para falarem com o doente.
 Os seus passos pesados ressoaram no tombadilho.
 O olhar de Simon interrogou os dois homens.
 - Que desejam?
 - Uma coisa de nada - disse Race. - Quando os
criados de bordo me disseram que Richetti se tinha
mostrado muito desagradvel, o senhor observou que
isso no era de admirar, pois o homem tinha mau gnio, 
e fora muito grosseiro com sua esposa, a respeito
de certo telegrama. Pode contar-nos o incidente?
 - Pois no. Foi em Uadi Halfa, quando acabvamos de voltar
da Segunda Catarata. Linnet julgou ter
visto um telegrama para ela. Esqueceu-se de que o seu
nome j no era Ridgeway; e Richetti e Ridgeway so
parecidos, quando escritos em m caligrafia. Abriu,
portanto, o telegrama, no podendo entend-lo; nisto,
o italiano aproximou-se furioso, arrancando-lhe o telegrama
das mos. Ela seguiu-o, para lhe pedir desculpa, mas o homem
tratou-a com muita grosseria.
 Race respirou profundamente.
 - E o senhor sabe, Mister Doyle, o que dizia esse
telegrama?
 - Sei, sim senhor; Linnet leu um trecho em voz
alta. Dizia...
 Interrompeu-se. Qualquer coisa estava a acontecer
l fora...
 - Onde esto Mister Poirot e o coronel Race?
Preciso v-los imediatamente.  muito importante.
Trago informaes importantes. Eu... Esto com Mister Doyle?
 Bessner no fechara a porta; somente a cortina se
interpunha entre a cabina e o tombadilho. Mrs. Otterbourne
afastou-a, entrando como um furaco. Estava
vermelha, caminhando em passo incerto, e a sua voz
no era muito firme.
 - Mister Doyle, sei quem matou sua esposa! - exclamou ela em
tom dramtico.
 - Qu?
 Simon e os dois outros homens fitaram-na estupefactos. Mrs.
Otterbourne lanou-lhes um olhar triunfante. Estava feliz,
imensamente feliz.
 - Sim, a minha teoria est provada. Instinto primitivo,
impulso irresistvel... Pode parecer impossvel,
fantstico... mas  verdade.
 Race perguntou bruscamente:
 - Quer dizer que tem em seu poder provas contra
a pessoa que assassinou Mistress Doyle?
 Mrs. Otterbourne caiu sobre uma cadeira, abanando
enfaticamente a cabea.
 - Claro que tenho. Os senhores concordam, no 
verdade, que a pessoa que matou Louise Bourget tambm
matou Linnet Doyle?
 - Sim, sim - disse Simon em tom impaciente. -  lgico.
Continue.
 - Ento no me enganei. Sei quem matou Louise
Bourget, e portanto sei quem matou Linnet Doyle!
 - Quer dizer que tem uma teoria a respeito da
morte de Louise Bourget - disse Race em tom cptico.
 Mrs. Otterbourne voltou-se para ele como uma fera.
 - No, nada disso. Tenho a certeza absoluta. Vi a
pessoa com os meus prprios olhos.
 Agitado, febril, Simon pediu:
 - Pelo amor de Deus, comece pelo princpio. Sabe quem matou
Louise Bourget?
 Mrs. Otterbourne inclinou a cabea.
 - Vou contar-lhes exactamente o que aconteceu.
 Sim, ela sentia-se feliz, sem dvida nenhuma! Era
aquele o seu momento de triunfo. Pouco importava
que os seus livros no tivessem sada... Pouco importava que o
pblico que antes os devorava tivesse agora
outros predilectos! Salom Otterbourne tornar-se-ia
novamente famosa, o seu nome apareceria nos jornais... Seria a
principal testemunha num crime de morte!
 Respirou profundamente e abriu a boca.
 - Foi quando desci para o almoo. No tinha
vontade nenhuma de comer... depois daquela tragdia... Bom,
este pormenor no interessa. No meio do
caminho, ocorre-me que me esquecera de certa coisa
na cabina e pedi a Rosalie que fosse busc-la.
 Mrs. Otterbourne fez uma pequena pausa.
 A cortina moveu-se ligeiramente, como que ao toque da brisa,
mas nenhum dos trs homens notou coisa alguma.
 - Eu... - Mrs. Otterbourne parou de novo. Era
um assunto delicado, mas no podia desprezar aquele
pormenor. - Eu... tinha uma combinao com uma
das pessoas... do... hum... personnel do navio. Esta
pessoa tinha que me... arranjar certa coisa... e eu no queria que minha filha soubesse... Ela s vezes  
implicante...
 Bom, a histria no estava l muito bem contada,
mas depois poderia pensar em qualquer coisa que causasse
melhor impresso nos jurados.
 Race olhou interrogativamente para Poirot.
 O detective inclinou a cabea de maneira imperceptvel e os
lbios dele formaram a palavra: "Bebida".
 A cortina moveu-se novamente. Apareceu qualquer
coisa, com um brilho acinzentado de metal...
 Mrs. Otterbourne continuava:
 - Eu tinha combinado ir at ao tombadilho da popa abaixo
deste, onde o homem estaria  minha espera. Ao percorrer o
tombadilho, vi abrir-se a porta de
uma cabina e surgir Louise. Parecia estar  espera de algum.
Ficou surpreendida quando me viu, entrando
de novo, bruscamente, na cabina. No dei importncia
ao facto,  claro. Fui at onde devia ir e recebi a... tal
coisa, das mos do homem. Paguei-lhe e... troquei algumas
palavras com ele. Depois voltei. Quando ia a transpor 
aquele ngulo, vi algum bater  porta da cabina da
criada e entrar...
 Race disse:
 - E essa pessoa era...
 Bum!
 O rudo da exploso pareceu encher toda a cabina.
Cheiro forte de plvora... Mrs. Otterbourne virou de
lado, como que em atitude indagadora, depois tombou
para a frente, batendo pesadamente no cho. O sangue
jorrava-lhe detrs da orelha...
 Houve um momento de silncio estupefacto.
 Logo em seguida, os dois homens vlidos levantaram-se. O
corpo da mulher atrapalhou-os um pouco...
Race inclinou-se sobre ela, ao passo que Poirot, com
um pulo de gato, passava para o tombadilho.
 Vazio. No cho, bem perto da porta, o revlver, um Colt.
 Poirot olhou de um lado para outro. O tombadilho
estava completamente deserto. Dirigiu-se para a popa.
Ao fazer a curva, deu com Tim Allerton, que vinha
apressadamente, em sentido contrrio.
 - Com os diabos, que aconteceu? - perguntou
o rapaz, ofegante.
 - Viu algum, quando vinha para c?
 - Se vi algum? No.
 - Ento, acompanhe-me.
 Poirot segurou o rapaz pelo brao e voltou para
a cabina de Bessner.
 Havia agora um grupo em frente  porta: Rosalie,
Jacqueline e Cornlia tinham sado das suas cabinas.
Outras pessoas vinham do salo: Ferguson, Fanthorp
e Mrs. Allerton.
 Race postara-se ao lado do revlver. Poirot disse
bruscamente a Tim Allerton:
 - Tem por acaso um par de luvas?
 Tim remexeu no bolso.
 - Tenho, sim - disse ele.
 Poirot agarrou as luvas, calou-as e baixou-se para
examinar o revlver. Race seguiu-lhe o exemplo. Os
outros observavam, de respirao suspensa.
 - Ele no foi para o outro lado - disse Race. Fanthorp e
Ferguson estavam sentados no salo e t-lo-iam visto.
 - E Mister Allerton tambm o teria visto se ele
tivesse ido para a popa - declarou Poirot.
 Race disse, apontando a arma:
 - Creio que vimos este revlver h pouco tempo... Precisamos
de nos certificar disso.
 Bateram  porta da cabina de Pennington. No
houve resposta. A cabina estava vazia... Race foi at 
cmoda e abriu a gaveta de cima. O revlver desaparecera.
 - Este ponto est esclarecido - disse Race. - E agora, onde
estar Pennington!
 Voltaram para o tombadilho. Mrs. Allerton juntara-se ao
grupo. Poirot aproximou-se vivamente, dizendo:
 - Madame, leve Miss Otterbourne daqui, e fique
com ela. Sua me foi... - Poirot consultou Race com
o olhar e terminou: - assassinada.
 Bessner apareceu, muito afogueado.
 - Gott im Himmel! Que sucedeu?
 Abriram caminho para ele. Race fez um sinal com
a cabea e o mdico entrou na cabina.
 - Procurem Pennington - disse Race. - H impresses 
digitais nesse revlver?
 - Nada - declarou Poirot.
 Encontraram Pennington no tombadilho de baixo,
na saleta, a escrever algumas cartas. O americano levantou 
o rosto bonito e bem barbeado e perguntou:
 - Algo de novo?
 - No ouviu um tiro?
 - Agora que me falam nisso, creio ter ouvido um
estrondo qualquer. Mas nunca imaginei... Quem levou
o tiro?
 - Mistress Otterbourne.
 - Mistress Otterbourne? - perguntou ele, parecendo muito
admirado. - Que me dizem! Mistress Otterbourne... No vejo por
que... - Fez uma pausa e
depois baixando a voz: - Quer-me parecer, senhores,
que temos a bordo algum manaco. Acho que devemos
organizar um sistema de defesa.
 - Mister Pennington, h quanto tempo est nesta
sala? - perguntou Race.
 - Bom, deixe-me pensar... - disse Pennington,
coando o queixo devagar. - Uns vinte minutos, mais
ou menos.
 - E no saiu daqui?
 - No... Claro que no - disse o americano, fitando os dois
homens com expresso indagadora.
 - Saiba, Mister Pennington, que Mistress Otterbourne foi
assassinada com o seu revlver - disse Race.



CAPTULO 24

 Mr. Pennington ficou escandalizado, Mr. Pennington mal podia
acreditar naquelas palavras.
 - Mas, meus senhores, o caso  muito srio. Realmente muito
srio.
 - Muito, para o senhor, Mister Pennington.
 - Para mim? - exclamou o americano erguendo
admirado as sobrancelhas. - Mas, meu caro senhor,
eu estava aqui, a escrever tranquilamente, quando ouvi a
detonao.
 - Talvez tenha uma testemunha para provar isso?
 O americano abanou a cabea.
 - Bom, no... no digo que tenha. Mas v-se logo
que teria sido impossvel eu ir at ao tombadilho de cima,
matar aquela pobre mulher (e que motivos tinha
eu para isso, afinal de contas?) e descer de novo, sem
que algum me visse. H sempre muita gente no salo, a esta
hora do dia.
 - Como explica o facto de ter sido usado o seu revlver?
 - Bom, creio que nisso tenho um pouco de culpa.
Logo depois de termos vindo para bordo, estvamos
conversando, no salo, sobre armas de fogo, e lembro-me de ter
dito que quando viajo trago sempre um revlver.
 - Quem estava presente?
 - Bom, no posso lembrar-me exactamente. Muitas pessoas, em
todo o caso.
 O americano fez uma pausa, abanou lentamente
a cabea e repetiu:
 - Sim, nisso tenho um pouco de culpa.
 E depois:
 - Primeiro Linnet, depois a criada de Linnet e
agora Mistress Otterbourne. No faz sentido!
 - Houve um motivo - disse Race.
 - Sim?
 - Mistress Outterbourne ia dizer-nos o nome de
uma pessoa que ela vira entrar na cabina de Louise.
Antes de o poder fazer, algum a matou.
 Pennington enxugou a testa com um leno de seda,
murmurando:
 -  horrvel!
 - Mister Pennington, eu gostaria de discutir certos aspectos
deste caso consigo - disse Poirot. - Quer vir  minha cabina
daqui a meia hora?
 - Com muito prazer.
 Mas o americano no parecia sentir prazer algum...
Race e Poirot saram.
 - Um sujeito astuto - observou Race. - Mas est com medo, hem?
 - No est nada satisfeito, o nosso Mister Pennington -
concordou Poirot.
 Quando chegaram de novo ao tombadilho de passeio, Poirot viu
Mrs. Allerton sair da sua cabina, fazendo-lhe urgentes sinais.
- Madame?
 - Aquela pobre menina! Diga-me, Mister Poirot, no h alguma
cabina dupla onde eu possa ficar
com ela? No convm voltar para aquela onde dormia com sua
me, e a minha s tem um leito.
 - Isso  fcil de se arranjar, madame.  muita
bondade sua.
 - Oh, nada, nada. Alm do mais, gosto da pequena. Sempre
simpatizei com ela.
 - Est muito... abalada?
 - Muito. Creio que era muito dedicada quela
horrvel mulher.  isto que torna o caso to pattico.
Tim acha que ela bebia...  verdade?
 Poirot apenas inclinou a cabea. Mrs. Allerton
continuou, encolhendo os ombros:
 - Oh, bom... Pobre mulher!... Com certeza no
devemos julg-la, mas Rosalie deve ter tido uma vida
dura.
 - Sim, madame, teve.  muito orgulhosa, e foi
sempre muito leal.
 - Gosto disso... quero dizer: da lealdade.  um
sentimento que hoje em dia est fora de moda. Tem
um carcter esquisito, aquela menina... Orgulhosa, reservada,
teimosa, e no fundo muito afectuosa, creio eu.
 - Vejo que ela estar em muito boas mos, madame.
 - No se preocupe; cuidarei dela. Est-se afeioando a mim
de uma maneira muito comovente.
 Mrs. Allerton entrou de novo na cabina e Poirot
voltou ao local do crime.
 Cornlia estava de p, no tombadilho, de olhos
bem abertos.
 - No compreendo bem, Mister Poirot. Como 
que a pessoa que fez fogo conseguiu fugir sem que nenhum de
ns a visse?
 - Sim, como? - perguntou Jacqueline.
 - Ah, no foi assim to extraordinrio como pensam. H trs
direces que o assassino poderia ter seguido.
 Jacqueline pareceu admirada.
 - Trs?
 - Poderia ter ido para a direita e poderia ter ido
 para a esquerda - disse Cornlia. - No vejo outro
 caminho.
 Jacqueline tambm parecia perplexa. De sbito, o
 seu rosto iluminou-se.
 - Claro. Ele poderia ter tomado, no mesmo plano, uma de duas
direces; mas poderia tambm ter
voltado  direita, neste mesmo plano. Isto , no poderia
subir mas poderia descer.
 Poirot sorriu:
 - Mademoiselle  inteligente - disse ele.
 Cornlia disse:
 - Creio que sou uma tonta, mas no percebo coisa
alguma.
 - Monsieur Poirot quer dizer que ele poderia ter
saltado para o tombadilho de baixo.
 - Cus! - exclamou Cornlia. - Isso nunca me
ocorreria! Mas teria que ser muito gil. Acham isso
possvel?
 - Muito fcil - disse Tim. - Lembre-se de que
h sempre um minuto de surpresa depois de um acontecimento
como este. A gente ouve uma detonao e
durante um ou dois segundos fica como que paralisado.
 - Foi o que lhe aconteceu, Mister Allerton?
 - Sim, foi o que me aconteceu. Durante cinco
segundos, fiquei apatetado. Depois, corri pelo tombadilho.
 Race saiu da cabina de Bessner e disse em tom autoritrio:
 - Queiram ter a bondade de sair. Vamos remover o cadver.
 Obedeceram todos imediatamente. Poirot acompanhou-os.
Cornlia disse com tristeza:
 - Nunca me esquecerei desta viagem... Trs mortes... Um
verdadeiro pesadelo.
 Ferguson exclamou, em tom agressivo:
 - Isso  porque vocs so supercivilizados. De viam
considerar a morte como a consideram os Orien tais.  apenas
um incidente, que mal se nota.
 - Isso est certo para eles - observou Cornlia.
- Coitados, no tm instruo.
 - No; e  uma vantagem. A instruo desvitalizou a raa
humana. Veja a Amrica; a sua mania de cultura.  repugnante.
 - Acho que est a dizer tolices - observou Cornlia corando.
 - No Inverno, assisto sempre a conferncias sobre Arte Grega e a Renascena, e ouvi uma sobre as 
Mulheres Clebres da Histria.
 - Arte Grega! Renascena! Mulheres Clebres da
Histria! Fico desgostoso s de ouvi-la falar.  o futuro
que importa, menina, no o passado. Morreram trs
mulheres neste navio... Bom, e que tem isso? No fazem falta.
Linnet Doyle e o seu dinheiro! A criada
francesa, parasita domstica. Mistress Otterbourne,
velha idiota e intil. Acha que algum se importa que
tenham morrido ou no? Pois eu no acho. Foi mesmo
uma boa coisa.
 - Engana-se redondamente! - exclamou Cornlia
com veemncia. - E estou cansada de o ouvir falar,
como se ningum tivesse importncia no mundo a no
ser voc. Eu no apreciava Mistress Otterbourne, mas
Rosalie gostava muito da me e est profundamente
abalada com a sua morte. Eu no achava a criada francesa muito
simptica, mas h-de haver algum, em algum canto do mundo,
que gostasse dela... E quanto a
Linnet Doyle... Bom, sem olhar mais nada, era uma
beleza! Achava-a to bonita que ficava com um n na
garganta sempre que a via aparecer. Sei que sou feia, e
isto faz com que aprecie mais ainda a beleza. Era to
linda... com qualquer coisa de Arte Grega! E quando
uma coisa bela desaparece,  um prejuzo para a Humanidade.
Pronto, e acabou-se.
 Mr. Ferguson recuou um passo e enfiou as duas
mos nos cabelos, puxando-os com fora.
 - Desisto - disse ele. - Voc  incrvel. No
tem um pingo de despeito feminino... - E, voltando-se para
Poirot: - Sabe que o pai de Cornlia foi levado  runa pelo
velho Ridgeway? Mas esta menina faz
caretas quando v a herdeira coberta de prolas, exibindo
modelos franceses? No! Solta um balido apenas: No  linda?,
como qualquer ovelha mansinha.
No creio que tenha sentido despeito algum.
 Cornlia corou.
 - Sim, mas por um minuto apenas. O meu pai
morreu de desgosto...
 - Por um minuto apenas! Essa  boa!
 Cornlia voltou-se bruscamente para ele.
 - Bom, no disse h pouco que era o futuro que
importava, e no o passado? Tudo isso foi no passado,
no foi? J se acabou!
 - Um a zero! - confessou Ferguson. - Cornlia
Robson, voc  a mulher mais simptica que jamais
encontrei na vida. Quer casar comigo?
 - No seja absurdo.
 -  um pedido de casamento, embora feito na
presena do Grande Detective. De qualquer maneira,
o senhor  testemunha, Monsieur Poirot. Em pleno
gozo das minhas faculdades, propus casamento a esta
mulher, contra todos os meus princpios, pois no
aprovo os tais laos legais entre os sexos! Mas, como
no creio que ela aceitasse outra coisa, que seja ento o
matrimnio! Vamos, Cornlia, diga "sim"!
 - Acho que voc  supinamente ridculo - replicou Cornlia,
corando.
 - Porque no se casa comigo?
 - No  srio...
 - Quer dizer que no estou a falar srio quando
lhe proponho casamento, ou que no sou bastante sisudo?
 - Ambas as coisas; mas eu referia-me ao carcter.
Voc ri de tudo o que  srio: Educao, Cultura e...
Morte. Ningum poderia ter confiana em si.
 Interrompeu-se, corou de novo e entrou apressada mente na
sua cabina.
 Ferguson continuou a olhar naquela direco.
 - Maldita rapariga! Pareceu-me que estava a ser
 sincera. Quer um homem de confiana. Essa  boa! - Fez uma
pausa e depois perguntou com curiosidade: - Que aconteceu, Monsieur Poirot? O senhor est muito 
pensativo.
 Com um sobressalto, Poirot voltou  realidade.
 - Reflicto, nada mais do que isso. Reflicto.
 - Meditao sobre a Morte, por Hercule Poirot.
Um dos seus conhecidos mongrafos.
 - Mister Ferguson, o senhor  um rapaz muito
 impertinente.
 - Desculpe-me. Gosto de atacar as instituies organizadas.
 - E eu... sou uma delas?
 - Exactamente. Que acha daquela pequena?
 - Miss Robson?
 - Sim.
 - Acho que  uma rapariga de muito carcter.
 - Tem razo.  enrgica, embora parea dcil.
Corajosa... Bom, quero aquela menina. Creio que no
ser mau ir sondar a velhota. Se eu conseguir que se
manifeste abertamente contra mim, talvez Cornlia fique mais
bem-disposta a meu favor.
 Ferguson deu uma reviravolta e dirigiu-se para o salo.
 Miss Van Shuyler estava sentada no seu canto habitual,
parecendo mais arrogante do que nunca, e fazia tric.
 Ferguson aproximou-se.
 Entrando disfaradamente, Poirot sentou-se a
uma distncia regular, parecendo absorto na leitura
de uma revista.
 - Boa tarde, Miss Van Schuyler.
 Miss Van Schuyler ergueu o olhar, baixando-o imediatamente 
e respondendo em tom glido:
 - Hummm... boa tarde.
 - Miss Van Shuyler, preciso falar-lhe sobre um assunto muito
importante. Quero casar com a sua prima.
 O novelo de l de Miss Van Schuyler caiu, rolando pelo
soalho. A velhota respondeu em tom lacrimonioso:
 - O senhor deve estar maluco.
 - De modo nenhum. Estou decidido. J falei com ela.
 Miss Van Shuyler observou-o friamente, com o
olhar curioso de quem examina um animal raro.
 - Falou! E, com certeza, ela mandou-o passear?
 - Recusou.
 - Naturalmente.
 - Nada de "naturalmente. Vou insistir at ela dizer "sim".
 - Garanto-lhe, senhor, que tomarei providncias
para que minha prima no seja importunada - declarou Miss Van
Schuyler, em tom acerbo.
 - Que tem a senhora contra mim?
 Miss Van Schuyler apenas ergueu as sobrancelhas,
deu um puxo na l para fazer voltar o novelo, e encerrou
assim a conversa.
 - Vamos - insistiu Ferguson. - Que tem contra mim?
 - Acho a pergunta desnecessria, Mister...
Hummm... no sei o seu nome.
 - Ferguson.
 - Mister Ferguson - completou Miss Van
Schuyler com evidente desprezo - tal casamento est
fora de discusso.
 - Quer dizer que no sou digno dela?
 - Acho que isso est mais do que claro.
 - E porque  que no sou digno dela?
 Miss Van Schuyler no respondeu.
 - Tenho duas pernas, dois braos, boa sade, inteligncia
normal. Que  que me falta?
 - Existe uma coisa chamada posio social, Mister Ferguson.
 - Posio social? Isso  laracha.
 A porta abriu-se e Cornlia apareceu, estacando subitamente
ao ver o seu pretendente em conversa com a
temvel prima Marie.
 Ferguson voltou a cabea, sorriu e exclamou:
 - Aproxime-se, Cornlia. Estou a fazer o pedido
da maneira mais correcta possvel.
 - Cornlia! - exclamou a americana em voz
realmente terrvel. - Cornlia, voc deu corda a este rapaz?
 - Eu... Claro que no... isto ...
 - Que quer dizer com isso?
 - Ela no me deu corda - disse o rapaz, vindo
em socorro de Cornlia. - A culpa  toda minha. No
me desiludiu completamente, porque tem muito bom
corao. Cornlia, sua prima diz que no sou digno de
si. Isso, naturalmente,  verdade, mas no sob o ponto
de vista de Miss Van Schuyler. O meu carcter,  lgico, no 
to elevado como o seu, mas diz ela que socialmente estou
muito abaixo de si.
 - Isso, creio eu, h-de saltar aos olhos de Cornlia
- disse a americana.
 - Acha? - perguntou Mr. Ferguson, fitando a
rapariga atentamente. -  por isso que no quer casar comigo?
 - No, no  - replicou Cornlia, corando. - Se
eu gostasse de voc, teria dito "sim", fosse voc quem fosse.
 - Ento no gosta de mim?
 - Acho-o impossvel! As coisas que diz... A maneira de as
dizer... Eu... nunca encontrei ningum como o senhor...
 Confusa, e prestes a chorar, Cornlia saiu apressadamente do
salo.
 - Para ser franco, o comeo no est nada mau - observou
Ferguson. Reclinou-se na cadeira, olhou o
tecto, assobiou, cruzou as pernas e continuou: - Ainda
acabarei por lhe chamar "minha prima".
 Miss Van Schuyler estava trmula de raiva.
 - Saia desta sala imediatamente, senhor, ou tocarei a
campainha para chamar o criado.
 - Paguei a minha passagem, e no podero expulsar-me do
salo principal - disse Ferguson. - Mas
vou fazer-lhe a vontade.
 Ergueu-se e saiu displicentemente dali, cantarolando
baixinho.
 Miss Van Schuyler tentou erguer-se, louca de raiva. Saindo
discretamente do seu retiro, Poirot curvou-se para apanhar o
novelo que rolara de novo.
 - Agradecida, Monsieur Poirot. Se quiser fazer o
favor de me mandar Miss Bowers... Estou muito perturbada...
Que sujeito insolente!
 - Um tanto excntrico, creio eu - observou Poirot. - Quase
todos os da famlia so assim. Tarados,
naturalmente. Sempre dispostos a exageros.
 Fez uma pausa e perguntou despreocupadamente:
 - A senhora reconheceu-o, com certeza?
 - Reconheci-o?
 - Adopta o nome de Ferguson, por no querer
usar o ttulo, devido s suas ideias avanadas.
 - Ttulo?
 - Sim, aquele rapaz  Lorde Dawlish. Riqussimo,
naturalmente. Tornou-se comunista, quando esteve em Oxford.
 No rosto de Miss Van Schuyler, reflectiam-se emoes
contraditrias. Perguntou em voz rouca:
 - H quanto tempo sabe isso, Monsieur Poirot?
 O detective encolheu os ombros.
 - Vi o retrato dele numa destas revistas... e depois
encontrei na sua cabina o anel com o braso. Oh,
quanto a isso no h dvida.
 Poirot divertia-se com o conflito de emoes da velha
americana. Finalmente, com uma amvel inclinao de cabea,
ela despediu-se, dizendo:
 - Fico-lhe muito agradecida, Monsieur Poirot.
 O detective ainda sorria, mesmo depois de se ver s, no salo.
 Sentou-se, minutos depois, e o seu rosto adquiriu
uma expresso mais grave. Estava a seguir um determinado curso
de ideias... De vez em quando abanava a cabea.
 - Mais oui - murmurou afinal. - Est tudo certo.



CAPTULO 25

 Race veio procur-lo.
 - Ento, Poirot, que me diz? Pennington deve subir daqui a
dez minutos. Deixo tudo nas suas mos, meu amigo.
 Poirot ergueu-se vivamente.
 - Primeiro, mande chamar Fanthorp.
 - Fanthorp? - perguntou Race, admirado.
 - Sim. Traga-o  minha cabina.
 Race inclinou a cabea e afastou-se. Poirot dirigiu-se para
a sua cabina. Minutos depois, chegavam Fanthorp e Race.
 Poirot indicou duas cadeiras e ofereceu cigarros.
 - Agora, Mister Fanthorp, vamos ao que interessa! Vejo que
usa a mesma gravata que o meu amigo Hastings.
 Fanthorp olhou, perplexo, para a gravata, e explicou:
 -  uma gravata O. E.
 - Exactamente. Saiba que, embora estrangeiro,
conheo o ponto de vista ingls. Sei, por exemplo, que
h coisas "que se fazem" e coisas "que no se fazem".
 Fanthorp sorriu, dizendo:
 - Hoje em dia isso j no  vulgar.
 - Talvez no, mas o hbito persiste. A Velha Gravata da
Escola ainda  A Velha Gravata da Escola, e h
certas coisas (sei por experincia prpria) que quem
usa a Velha Gravata no faz! Uma dessas coisas, Mister
Fanthorp,  uma pessoa intrometer-se na conversa
de estranhos, quando ningum pediu a sua opinio.
 Fanthorp fitou-o sem nada dizer. Poirot continuou:
 - Mas h poucos dias, Mister Fanthorp, foi exactamente isso
o que o senhor fez. Certas pessoas estavam a tratar de
negcios particulares, no salo; o senhor aproximou-se,
indubitavelmente para ouvir a conversa chegando mesmo a voltar-se e dar os parabns  senhora, Mistress 
Simon Doyle, pela sua criteriosa maneira de negociar.
 Fanthorp estava rubro. Poirot continuou, sem esperar por
comentrio algum:
 - Muito bem, Mister Fanthorp; isso no devia,
de modo algum, ser o procedimento de uma pessoa
que usa uma gravata igual  do meu amigo! Hastings 
delicadssimo, e morreria de vergonha se fizesse uma
coisa dessas. E, portanto, levando-se em considerao
o facto de o senhor ser muito novo para estar em condies 
de fazer uma viagem to dispendiosa, no devendo ter grande
fortuna pessoal, pois trabalha numa firma de advogados, e no dando mostras de recente molstia que 
necessitasse de uma viagem de convalescena, levando-se tudo isto em considerao, pergunto a mim 
mesmo, e pergunto tambm ao senhor: Qual a
razo da sua presena neste navio?
 Fanthorp lanou a cabea para trs, num desafio,
exclamando:
 - Recuso-me a prestar qualquer declarao nesse
sentido. Acho que est louco, Monsieur Poirot.
 - Estou no meu juzo perfeito. Onde fica a sua
firma? Em Northampton, isto , no muito longe de
Wode Hall. Que conversa tentou ouvir? Sobre documentos... 
Qual a finalidade da sua observao, qual o
comentrio que fez com evidente constrangimento
e malaise? A finalidade era evitar que Mistress Doyle
assinasse, sem l-los, certos documentos.
 Poirot fez uma pausa; depois continuou:
 - Houve, neste navio, um crime, e logo em seguida outros
dois. Se eu lhe disser que a bala que matou
Mistress Otterbourne saiu do revlver de Mister Andrew
Pennington, talvez compreenda que  seu dever
contar-nos o que sabe.
 Fanthorp ficou em silncio alguns minutos. Finalmente,
disse:
 - O senhor tem uma maneira engraada de dizer
as coisas, Monsieur Poirot, mas compreendo o seu
ponto de vista. O facto  que no tenho informaes
precisas para lhe dar.
 - Quer dizer ento que  um caso de suspeita,
apenas?
 - Exactamente.
 - E, portanto, acha imprudncia falar? Talvez tenha razo,
sob o ponto de vista jurdico. Mas isto aqui
no  um tribunal de justia. Race e eu procuramos
descobrir o criminoso. Qualquer informao que nos
d poder ser de grande valor.
 Jim Fanthorp reflectiu novamente. Depois:
 - Muito bem. Que desejam saber?
 - Por que motivo empreendeu esta viagem?
 - Vim a mandado de meu tio, Mister Carmichael,
procurador de Mistress Doyle, na Inglaterra. Por
motivos de negcios, meu tio mantinha constante
correspondncia com Mister Andrew Pennington,
procurador de Mistress Doyle, na Amrica. Diversos
pequenos incidentes (no posso enumer-los a todos)
fizeram com que meu tio suspeitasse que as coisas no
andavam como deviam.
 - Para falar sem rodeios, seu tio suspeitava que
Pennington fosse um trapaceiro?
 Fanthorp inclinou a cabea, sorrindo de leve.
 - O senhor  mais franco do que eu, mas no fundo  isso
mesmo. Certas desculpas apresentadas por
Pennington, e explicaes sobre o emprego de determinados
capitais despertaram as suspeitas de meu tio.
Tais suspeitas ainda no estavam bem definidas, quando
soubemos que Miss Ridgeway se casara e viera para
o Egipto. O casamento tranquilizou meu tio, pois,
quando ela voltasse  Inglaterra, a direco dos negcios
ser-lhe-ia entregue. Nisto, numa carta do Egipto,
ela referiu-se ao facto de se ter encontrado, por acaso, no
Cairo, com Andrew Pennington. As suspeitas de meu
tio tornaram-se mais fortes. Ele teve a certeza de que o
americano, agora em situao desesperada, iria tentar
obter a assinatura de Mistress Doyle, para cobrir os
seus desfalques. No tendo provas para apresentar 
sua cliente, meu tio viu-se numa embaraosa situao.
A nica soluo que encontrou foi mandar-me para c
de avio, para tentar descobrir a verdadeira situao.
Eu devia ficar de olhos abertos, e, se fosse necessrio,
agir; misso muito desagradvel, pode ter a certeza!
Para falar a verdade, na ocasio a que o senhor se referiu,
sei que fiz um papel indecente. Situao constrangedora, mas o
resultado foi satisfatrio.
 - Quer dizer que Mistress Doyle desconfiou de
qualquer coisa? - perguntou Race.
 - No tanto por isso. Mas creio que Pennington
ficou com a pulga atrs da orelha. Fiquei convencido
que ele no tentaria mais nada durante algum tempo,
e at l eu esperava ter travado relaes com os Doyle,
para poder preveni-los de qualquer forma. Para dizer
a verdade, pretendia falar com Mister Doyle. Mistress Doyle
era to apegada a Pennington que seria difcil insinuar
qualquer coisa contra ele. Teria sido mais
fcil falar com o marido.
 Race inclinou a cabea, concordando. Poirot perguntou:
 - Quer dar-me a sua opinio franca, Mister Fanthorp? Se
tivesse que fazer um negcio desonesto, escolheria para 
vtima Mister ou Mistress Doyle?
 Fanthorp sorriu ligeiramente.
 - Mister Doyle, sem hesitar um s momento.
Linnet era muito perspicaz. O marido, pelo que me parece,  um destes sujeitos confiantes que no 
entendem de
negcios e esto sempre prontos a assinar "na
linha de pontinhos", como ele mesmo disse.
 - De acordo - declarou Poirot. - E ai est o motivo.
 - Mas tudo isto so conjecturas - observou
 Fanthorp. - No so provas.
 - Ah! Ah! Mas conseguiremos as provas - exclamou Poirot.
 - De que maneira?
 - Provavelmente por intermdio do prprio Pennington.
 Fanthorp pareceu pouco convencido.
 - Acha? Eu duvido.
 Race consultou o relgio e declarou:
 - Ele deve estar a chegar.
 Percebendo a insinuao, Fanthorp despediu-se e saiu.
 Dois minutos depois, Pennington apareceu, mostrando-se ainda
amvel e sorridente. Somente a linha
dura do queixo e a expresso cautelosa do olhar deixavam
perceber o experiente homem de luta, que estava
de sobreaviso.
 - Muito bem, senhores, aqui estou eu - disse
ele, sentando-se e olhando para os dois homens.
 Poirot comeou:
 - Pedimos-lhe que viesse at aqui, Mister Pennington, pois
no h dvida que est directamente interessado no assunto.
 Pennington exclamou, erguendo as sobrancelhas:
 -  essa a sua opinio?
 - Sem dvida nenhuma - replicou Poirot suavemente. - Se no
me engano, conheceu Linnet desde criana.
 - Oh!... - O rosto do americano desanuviou-se,
a expresso de alerta j no era to intensa. - Perdo,
eu no tinha entendido bem. Sim; conforme lhe disse
hoje, conheci Linnet desde pequenina.
- Era amigo ntimo do pai dela?
- Sim; Melhuish Ridgeway e eu ramos muito amigos.
 - To ntimos que, antes de morrer, ele o nomeou
procurador da filha, entregando-lhe a direco de toda
a sua imensa fortuna?
 - Sim, mais ou menos isso - disse o americano.
A expresso cautelosa voltara ao seu rosto. - No
sou, naturalmente, o nico responsvel. Havia outros.
 - Morreram?
 - Dois morreram. O terceiro, Mister Sterndale
Rockford, ainda vive.
 - Seu scio?
 - Sim.
 - Pelo que vim a saber, Miss Ridgeway era menor, quando se
casou?
 - Sim; ia fazer vinte e um anos em Julho prximo.
 - E, naturalmente, a gerncia da fortuna passaria
para as mos dela?
 - Exactamente.
 - Mas o casamento precipitou os acontecimentos?
 O queixo de Pennington endureceu.
 - Perdoem-me, mas que tm os senhores com isso? - perguntou
em tom agressivo.
 - Se lhe desagrada responder...
 - No  questo de desagradar. No me importo
que perguntem. Mas no vejo razo para isso.
 - Oh, mas certamente, Mister Pennington - disse Poirot,
inclinando-se para o americano, os olhos
a luzirem como os de um gato -... existe a questo
do motivo... E a situao financeira da vtima deve
sempre ser levada em conta.
 Pennington disse em tom dbio:
 - Pelo testamento de Ridgeway, Linnet devia assumir a
gerncia dos negcios quando fizesse vinte e
um anos, ou quando se casasse.
 - Nenhuma outra condio?
 - Nenhuma.
 - E, se no me engano,  uma questo de milhes?
 - Sim, de milhes.
 Poirot disse suavemente:
 - A sua responsabilidade, Mister Pennington, e
do seu scio, deve ter sido enorme.
 - Estamos acostumados a assumir responsabilidades. Isso 
no nos preocupa - replicou o outro secamente.
 - No sei, no.
 Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou ao
americano.
 - Que diabo quer dizer com isso? - perguntou
ele colericamente.
 Poirot replicou com ar de ingnua franqueza.
 - Estava a pensar, Mister Pennington, se o casamento de
Linnet no teria causado certa... consternao, no seu
escritrio!
 - Consternao?
 - Foi a palavra que empreguei.
 - Que diabo quer insinuar?
 - Uma coisa muito simples. Os negcios de Linnet Doyle
estaro em perfeita ordem, como deviam estar?
 Pennington ergueu-se, exclamando:
 - Basta. Por mim, basta!
 - Mas primeiro vai responder  minha pergunta?
 - Esto em perfeita ordem - replicou o outro,
secamente.
 - No ficou alarmado com a notcia do casamento, a ponto de
tomar o primeiro vapor para a Europa e
fingir um encontro furtuito no Egipto?
 Pennington aproximou-se, parecendo novamente
calmo.
 - O que acaba de dizer  um verdadeiro absurdo!
Eu no tinha a menor ideia do casamento de Linnet,
at a encontrar no Cairo. Fiquei admiradssimo...
A carta dela deve ter chegado um ou dois dias depois
de eu ter sado de Nova Iorque. Foi-me reenviada e
recebi-a uma semana depois.
 - O senhor disse-me que veio no Carmanic?
 - Exactamente.
 - A carta chegou a Nova Iorque depois de o Carmanic sair?
 - Quantas vezes tenho que repetir a mesma coisa?
 - Estranho... - murmurou Poirot.
 - Que  que  estranho?
 - Que nas suas malas no haja etiqueta alguma
do Carmanic. Os nicos rtulos transatlnticos so do
Normandie, que saiu dois dias depois do Carmanic.
 Por um momento, o outro ficou sem saber o que
dizer. O seu olhar vacilou...
 Race interveio, para reforar a vantagem a favor deles:
 - Vamos, vamos, Mister Pennington. Temos vrias razes para
acreditar que o senhor veio no Normandie e no no Carmanic. Se
assim foi, recebeu a carta de Mistress Doyle antes de sair de
Nova Iorque. No vale a pena negar; nada mais fcil do que esclarecer este ponto com as respectivas 
companhias.
 Pennington procurou distraidamente uma cadeira e
sentou-se. A sua fisionomia estava impassvel - de jogador de
pquer. Atrs daquela mscara, a gil inteligncia preparava a
prxima cartada.
 - Entrego os pontos, senhores. Foram espertos de
mais para mim. Mas eu tinha uma razo para isso.
 - Sem dvida - disse Race secamente.
 - Se eu lhes disser quais eram as razes, espero
que compreendam que falo confidencialmente.
 - Pode esperar um procedimento criterioso da
nossa parte. No podemos,  lgico, garantir nada s cegas.
 - Muito bem - suspirou o americano. - Vou
confessar a verdade. Certas coisas que se passaram na
Inglaterra desagradaram-me profundamente. Fiquei preocupado. Como no era possvel descobrir coisa 
alguma por
carta, resolvi vir averiguar pessoalmente.
 - Que quer dizer com "coisas que me desagradaram"?
 - Eu tinha razes para acreditar que Linnet estava a ser lesada.
 - Por quem?
 - Pelo seu advogado ingls.  uma acusao que
no se pode fazer levianamente. Resolvi vir saber pessoalmente
do que se tratava.
 - Isso prova o seu sincero interesse pelos negcios
da sua cliente, no h dvida. Mas no explica a mentira a
respeito da carta.
 - Bom, quanto a isso... - o americano estendeu
as mos, de palmas para cima, e continuou: - A gente no pode
vir perturbar uma viagem de npcias, sem
dar para isso uma razo plausvel. Achei prefervel que
se acreditasse em coincidncia. Alm do mais, eu no
sabia coisa alguma a respeito do marido. Era at possvel que
fosse cmplice.
 - Em resumo, os seus motivos eram absolutamente
desinteressados - observou Race, secamente.
 - Exactamente, coronel Race.
 Houve uma pausa. Race olhou para Poirot. O detective
inclinou-se para a frente dizendo:
 - Mister Pennington, no acreditamos numa s
palavra dessa histria.
 - Com os diabos, no acreditam? Em que acreditam, ento?
 - Parece-nos que o casamento de Linnet Ridgeway o deixou
numa situao embaraosa; que o senhor
veio  pressa, esperando poder salvar-se, isto , procurando
um meio de ganhar tempo. E achamos que, tendo isso em vista,
procurou obter a assinatura de Mistress Doyle para certos
documentos, no tendo sido bem sucedido. E que, no fim da viagem pelo Nilo, quando caminhava pelo 
penhasco de Abu Simbel, o senhor deslocou uma pedra, que quase a matou...
 - Est louco.
 - Acreditamos que mais ou menos as mesmas circunstncias se
repetiram na viagem de volta, isto ,
que se apresentou a oportunidade de eliminar Mistress
Doyle quando a morte dela seria certamente atribuida a
outra pessoa; e no somente julgamos, mas sabemos que
o seu revlver foi usado para matar a mulher que nos
ia revelar o nome do assassino de Mistress Doyle e de
Louise Bourget...
 - Com os diabos! - exclamou o americano, interrompendo a
eloquncia de Poirot. - Aonde quer chegar? Est louco? Que
motivo tinha eu para matar Linnet? Eu no herdaria coisa alguma, quem herda  o marido! Porque no o 
interrogam? O beneficiado  ele, no eu.
 Race replicou friamente:
 - Na noite do crime, Doyle s saiu do salo depois de ter
levado um tiro na perna. A impossibilidade
de se mover depois disso  atestada pela enfermeira e
pelo mdico, ambos testemunhas de confiana. Ele
no poderia ter matado Louise Bourget.  mais do
que certo que no matou Mistress Otterbourne! O senhor 
sabe-o to bem como ns.
 - Sei que no a matou - disse Pennington um
pouco mais calmo. - Digo apenas: porque se voltam
contra mim, quando nada lucro com essa morte?
 - Mas, meu caro senhor, isto  apenas uma questo de 
opinio - disse Poirot, com a suavidade do
miar de um gato. - Mistress Doyle era uma mulher
inteligente, bem a par dos seus negcios, e bastante
perspicaz para descobrir qualquer irregularidade. Assim que
assumisse a gerncia da fortuna, o que se
daria logo que fosse para a Inglaterra, no deixaria de
suspeitar... mas depois da sua morte, como bem disse
o senhor, o marido herda tudo, e o caso muda de figura. Simon
desconhece os negcios da esposa; sabe apenas que era muito
rica.  pessoa simples e confiante...
O senhor no ter grande dificuldade em apresentar-lhe documentos complicados, ocultando o ponto 
principal
numa confuso de algarismos, adiando a prestao de contas sob
qualquer pretexto, alegando formalidades, a recente depresso do mercado. Acho que haver muita 
diferena entre lidar com a esposa ou com o marido.
 Pennington encolheu os ombros.
 - As suas ideias so... ridculas.
 - O tempo no-lo dir.
 - Que disse?
 - Disse: "O tempo no-lo dir." Temos aqui trs
mortes, trs assassnios. A lei exigir uma completa
 vistoria aos negcios de Mistress Doyle.
 Poirot viu os ombros do outro carem e percebeu
 que vencera. As suspeitas de Fanthorp estavam confirmadas.
 O detective continuou:
 - O senhor os apostou... e perdeu.  intil querer continuar
com o bluff.
 Pennington murmurou:
 - O senhor no compreende... Foi tudo muito direito. Essa
maldita depresso... A loucura de Wall
Street... Mas j preparei a reaco. Com sorte, estar
tudo em ordem at meados de Junho.
 Com as mos trmulas, procurou um cigarro; tentou acend-lo,
mas sem resultado.
 - Com certeza aquela pedra foi uma sbita tentao - disse
Poirot. - Pensou que ningum o tinha visto...
 - Aquilo foi um acidente, garanto que foi! - exclamou
Pennington, inclinando-se para a frente, com
expresso ansiosa e a voz aterrorizada. - Tropecei e
ca contra a pedra. Juro que foi um acidente...
 Os dois homens nada disseram.
 De repente, Pennington pareceu voltar a si. Ainda
estava abalado, mas o esprito combativo refizera-se-lhe em
parte. Dirigiu-se para a porta, dizendo:
 - Os senhores no me podem incriminar. Foi um
acidente. E no fui eu que a matei! Ouviram? Quanto
a isso, no podem tambm incriminar-me, e nunca
conseguiro faz-lo.  - Saiu.



CAPTULO 26

 Quando a porta se fechou, Race suspirou profundamente.
 - Conseguimos mais do que eu esperava. Confisso de fraude.
De tentativa de assassnio. Mais teria sido impossvel. Um
homem pode confessar uma tentativa de morte, mas no o crime
verdadeiro.
 - s vezes, sim - disse Poirot com olhos sonhadores,
luzentes como os de um gato.
 Race fitou-o com curiosidade.
 - Tem algum plano?
 Poirot inclinou a cabea, enumerando pelos dedos:
 - O jardim de Assuo. O depoimento de Mister Allerton. Os
dois frascos do verniz. A minha garrafa de
vinho. A charpe de veludo. O leno manchado. O revlver
encontrado no local do crime. A morte de
Louise. A morte de Mistress Otterbourne... Sim, est
tudo a. Pennington no  o assassino, Race.
 - Qu? - perguntou Race, estupefacto.
 - Pennington no  o assassino. Tinha motivos?
Sim. Desejava a morte de Linnet? Sim. Chegou a fazer uma
tentativa. Mais que tudo. A este crime era necessrio algo
que Pennington no possui.  um crime
que exige audcia, execuo rpida e perfeita, coragem,
indiferena ao perigo, e uma inteligncia calculista, de
recursos. Pennington no tem esses atributos.
No podia cometer um crime, a no ser que tivesse a
certeza de que no correria perigo. Mas este crime era
dos mais perigosos! Era necessrio audcia... E Pennington no
 audacioso.  apenas astuto.
 Race fitou Poirot com o respeito que um homem
competente tem por outro.
 - Voc resolveu todo o problema?
 - Creio que sim. H uma ou duas coisas... Aquele telegrama,
por exemplo, que Linnet Doyle leu.
 Gostaria de esclarecer esse ponto.
 - Com os diabos, esquecemo-nos de perguntar a
 Doyle. Ia dizer-nos quando a velha Otterbourne apareceu...
Vamos perguntar-lhe novamente.
 - Daqui a pouco. Primeiro quero conversar com
 certa pessoa.
 - Quem?
 - Tim Allerton.
 Race ergueu as sobrancelhas.
 - Allerton? Bom, vamos mand-lo chamar.
 Tocou a campainha e mandou o criado dar o recado.
 Tim entrou, com expresso indagadora na fisionomia.
 - Mandaram-me chamar?
 - Sim, Mister Allerton. Sente-se.
 Tim sentou-se. A expresso do seu rosto era atenta, mas
ligeiramente contrariada.
 - Alguma coisa em que os possa servir? - perguntou ele em
tom polido, mas nada entusiasmado.
 - At certo ponto, talvez - disse Poirot. - O que realmente
lhe peo  que me oua.
 Tim ergueu as sobrancelhas, admirado, e replicou:
 - Pois no. Ningum sabe ouvir melhor do que
eu. Digo sempre: Hummm... Hummm... nos momentos oportunos.
 - ptimo. Hummm, Hummm, ser muito expressivo. Eh bien,
vamos comear. Quando os conheci, em Assuo, Mister Allerton, senti grande atraco pelo senhor e pela 
senhora sua me. Para comear, acho-a uma das pessoas mais encantadoras que conheci at hoje...
 O rosto inexpressivo de Tim transformou-se durante uns
segundos:
 - Sim,  nica - concordou ele.
 - Mas o que depois me interessou foi o facto de
se referirem a certa pessoa.
 - Como?
 - Sim... Uma certa Joana Southwood. Porque, o
senhor sabe, eu tinha ouvido esse nome recentemente.
 Poirot fez uma pausa e continuou:
 - Nestes ltimos trs anos, certos roubos de jias
tm preocupado a Scotland Yard. Do tipo que pode
ser descrito como "roubos sociais". O mtodo  geralmente o
mesmo: a substituio da jia verdadeira por
uma imitao. O inspector Japp, que  meu amigo,
chegou  concluso de que os roubos no eram praticados por
uma s pessoa, mas por duas, que muito inteligentemente
trabalhavam de acordo. Estava convencido, pelos indcios, de
que os roubos eram cometidos por pessoas da sociedade. A sua ateno fixou-se, finalmente, em Miss 
Joana Southwood. Verificou-se que cada uma das vtimas era sua parenta ou amiga, e em todos os casos 
ela chegara a ter nas mos ou usar a jia desaparecida. Alm do mais, a sua maneira de viver
no estava de acordo com a sua fortuna. Por outro lado, estava
provado que o roubo propriamente dito, isto , a substituio,
no fora cometido por ela. Em certas ocasies, ela achava-se fora da Inglaterra no momento da 
substituio. E assim, pouco a pouco, uma ideia se formou no crebro do inspector Japp.
Miss Southwood fora, em certa poca, scia de uma
firma de jias de fantasia. Japp achou que provavelmente ela
examinava as jias das amigas, desenhando-as minuciosamente,
providenciando em seguida para que fossem copiadas por algum joalheiro hbil e pouco escrupuloso. 
Depois disso, havia a substituio da jia verdadeira pela falsa, substituio essa feita por uma terceira 
pessoa, algum que pudesse provar no ter examinado a jia, nem tido interferncia alguma na
sua cpia. Japp ignorava a identidade desta terceira
pessoa. Certos trechos da sua conversa, Mister Allerton,
interessaram-me. Um anel desaparecera durante a
sua estada em Maiorca, o senhor estivera hospedado
numa casa onde houve uma dessas substituies, a sua intimidade com Miss Southwood, tudo isso 
chamou a
minha ateno. Alm disso, o facto de no gostar da minha companhia e de procurar evitar a camaradagem
entre sua me e eu... Poderia,  claro, tratar-se apenas de antipatia pessoal, mas achei que no era esse o 
caso. O
senhor fazia grande esforo para ocultar, sob
certa afabilidade, essa antipatia. Eh bien, depois da
morte de Linnet, descobriu-se o desaparecimento das
prolas. Compreende, pois, que imediatamente me lembrei do senhor! Mas no fiquei satisfeito. Porque, se, 
como desconfio,  cmplice de Miss Southwood (ntima amiga de Mistress Doyle) ento o mtodo em 
pregado seria a substituio, no o roubo pura e simplesmente. Mas as prolas so devolvidas 
inesperadamente, e que descubro eu?... Que se trata apenas de uma imitao. Sei ento quem  o 
verdadeiro ladro.
 O colar devolvido era falso; a substituio fora feita
anteriormente.
 Poirot fitou o rapaz sentado na sua frente. Tim estava
plido. No tinha o esprito combativo de Pennington. Era de
outro tipo, mais franco, menos calejado. O rapaz exclamou,
esforando-se por manter o tom zombeteiro:
 - Que diz? E, se foi isso o que aconteceu, que fiz
ento s prolas?
 - Tambm sei onde esto.
 A expresso de Tim transformou-se.
 Poirot continuou lentamente:
 - H somente um lugar onde podem estar. Reflecti sobre isso,
e cheguei a esta concluso. As prolas, Mister Allerton, esto
escondidas num tero, na sua cabina. As contas do tero so entalhadas com muita perfeio... 
Provavelmente feitas sob encomenda. Estas contas podem ser desatarraxadas, se bem
que ningum o perceberia, ao v-las. Dentro de cada
conta est uma prola, colada com seccotine. Muitos
investigadores policiais respeitam os objectos religiosos, a
no ser que haja neles algo que realmente chame
a ateno. O senhor contou com isso. Tentei descobrir
de que maneira Miss Southwood lhe mandara a imitao... Deve
ter vindo pelo correio, uma vez que o senhor decidiu esta
viagem quando soube, em Maiorca,
que Mistress Doyle estava aqui em lua-de-mel. Na minha
opinio, o colar veio num livro, quadrado, cortado
nas pginas do centro. Em geral, os livros no so
abertos no correio.
 Houve uma pausa, uma longa pausa. Depois Tim
disse serenamente:
 - O senhor venceu. Mas foi uma aventura interessante. No h
nada a fazer, creio eu, a no ser aceitar o castigo.
 Poirot inclinou a cabea.
 - Sabe que foi visto, aquela noite?
 - Visto? - exclamou Tim com um sobressalto.
 - Sim. Algum o viu sair da cabina de Linnet
Doyle, na noite do crime.
 Tim exclamou:
 - Oia! No pensa... Juro que no fui eu que a
matei! Tenho estado em palpos de aranha... Escolher
logo aquela noite!... Cus, que pesadelo tem sido isto
para mim.
 - Sim, o senhor deve ter tido momentos desagradveis -
concordou Poirot. - Mas agora que a verdade veio  luz, 
talvez nos possa ajudar. Mistress Doyle
estava viva ou morta, quando o senhor roubou as prolas?
 Tim respondeu em voz rouca:
 - No sei. Juro por Deus, Monsieur Poirot, que
no sei. Eu descobrira onde ela deixava o colar durante a
noite... na mesinha de cabeceira. Entrei de mansinho, estendi
a mo e agarrei o colar, deixando ali o falso. Calculei,
naturalmente, que ela estivesse a dormir.
 - No ouviu a respirao?  claro que procurou ouvir?
 - Estava tudo muito silencioso... muito silencioso... - disse Tim, parecendo realmente sincero. - No; no 
me lembro de
t-la ouvido respirar...
 - Havia algum cheiro a plvora queimada no ar como se um tiro tivesse sido dado recentemente?
 - No o creio. No me lembro.
 Poirot suspirou.
 - Ento estamos na mesma.
 - Quem foi que me viu? - perguntou Tim com
 curiosidade.
 - Rosalie Otterbourne. Veio do outro lado do navio, viu-o
sair da cabina de Linnet e entrar na sua.
 - Ento foi ela quem lhe contou...
 Poirot replicou suavemente:
 - Desculpe-me; no foi ela quem me contou.
 - Mas ento... como chegou a saber?
 - Porque sou Hercule Poirot! No preciso que me
digam! Quando lhe perguntei, sabe o que ela me respondeu? No
vi ningum." Mas mentiu.
 - Porqu?
 Poirot replicou despreocupadamente:
 - Talvez por ter pensado que o homem que ela vira era o
assassino. Tinha razo para pensar isso.
 - Mais um motivo para lhe contar.
 Poirot encolheu os ombros.
 - No foi essa a opinio de Miss Otterbourne.
 Tim disse, com uma nota esquisita na voz:
 -  uma pequena extraordinria. Deve ter sofrido
muito com aquela sua me.
 -  verdade. A vida no tem sido muito fcil
para ela.
 - Pobre menina... - murmurou Tim. E voltando-se para Race: -
Confesso ter roubado as prolas, e os
senhores encontr-las-o exactamente onde disseram que
esto. Sou culpado, sim. Mas, quanto a Miss Southwood... no
confesso coisa alguma. Os senhores no tm provas contra ela. A maneira como consegui o colar falso  
coisa que s a mim 
diz respeito.
 - Atitude muito correcta - murmurou Poirot.
 - Sempre cavalheiro! - comentou Tim.
 E depois de uma pequena pausa:
 - O senhor compreende agora por que motivo eu
ficava aborrecido ao ver minha me sempre a procur-lo,
Monsieur Poirot. No sou criminoso bastante calejado para
gostar de me ver cara a cara com um grande
detective, ainda mais antes de levar a efeito uma operao
arriscada! Talvez que outro sentisse prazer nisso.
Eu no. Para ser franco, fiquei com muito medo!
 - Mas nem assim desistiu?
 Tim encolheu os ombros.
 - O medo no bastou para tanto. A troca tinha de
ser feita; uma ptima oportunidade se apresentava
aqui no navio. Duas cabinas depois da minha, e Linnet to
preocupada com os seus aborrecimentos, que
no notaria a substituio...
 - No sei, no...
 - Que quer dizer com isso? - perguntou vivamente Tim.
 Poirot tocou a campainha.
 - Vou pedir a Miss Otterbourne que venha aqui
por alguns minutos.
 Tim franziu as sobrancelhas, mas nada disse.
 Rosalie entrou logo depois. Os seus olhos, inchados de
chorar, tiveram uma expresso admirada ao ver
Tim. Mas a atitude desafiadora desaparecera por completo.
Sentou-se, fitando Poirot e Race, com uma docilidade
inesperada.
 - Sentimos muito incomod-la, Miss Otterbourne
- disse Race suavemente, um tanto aborrecido com
Poirot.
 - No tem importncia - murmurou a jovem.
 Poirot tomou a palavra:
 - Preciso de esclarecer um ou dois pontos, mademoiselle.
Quando lhe perguntei se tinha visto algum
no tombadilho,  uma e dez, naquela madrugada, a senhora
respondeu-me que no. Felizmente, consegui descobrir a verdade sem o seu auxlio. Mister Allerton 
confessou que esteve na cabina de Linnet Doyle a noite passada.
 A jovem olhou de relance para Tim, e este inclinou
 gravemente a cabea.
 - A hora est certa, Mister Allerton?
 - Certssima.
 Rosalie fitava-o, perplexa. Os seus lbios tremeram...
entreabriram-se...
 - Mas voc no... no...
 Ele respondeu vivamente:
 - No; no a matei. Sou ladro, no assassino.
 Tudo vir  luz, de modo que no h mal nenhum em
saber-se a verdade. Eu estava com os olhos naquele
colar!
 - Mister Allerton diz que foi  cabina naquela
 noite trocar o colar verdadeiro por um falso - disse
 Poirot.
 -  verdade? - perguntou Rosalie.
 Os olhos graves, tristonhos, interrogaram-no suavemente.
 -  verdade - disse Tim.
 Houve uma pausa. Race remexeu-se na cadeira
 constrangido.
 Poirot continuou, num tom esquisito de voz:
 - Como disse,  esta a histria de Mister Allerton,
em parte confirmada pelo seu testemunho, mademoiselle. Isto ,
h provas quanto ao facto de ter ele visitado
a cabina de Linnet a noite passada, mas no quanto ao
motivo de tal visita.
 Tim fitou-o, exclamando:
 - Mas o senhor sabe!
 - Sei o qu?
 - Bom... Sabe que tenho o colar em meu poder.
 - Mais oui... mais oui. Sei que tem o colar, mas
no sei quando se apoderou dele. Talvez tenha sido antes
da noite passada... Ainda h pouco o senhor me disse
que Linnet no teria notado a substituio. No estou
muito certo disso. Suponhamos que tivesse notado...
Suponhamos que soubesse quem era o culpado... que
tivesse ameaado denunci-lo... E suponhamos que o
senhor tenha ouvido a cena entre Jacqueline e Simon,
e que, assim que viu o salo vazio, entrou ali, apoderando-se
do revlver... E que mais tarde, quando havia silncio a
bordo, foi  cabina de Linnet para impedir de uma vez por
todas que ela o denunciasse...
 - Meu Deus!... - murmurou Tim, fitando Poirot com olhar de
intenso sofrimento.
 O detective continuou:
 - Mas algum mais o viu: Louise Bourget. No dia
seguinte, foi procur-lo. O senhor compreendeu que
ceder  chantage da rapariga seria tornar-se para sempre seu
escravo. Fingiu concordar, marcando encontro
na cabina dela para depois do almoo. E ento, quando Louise
contava o dinheiro, matou-a... Mas a sorte
no estava do seu lado. Algum o viu dirigir-se para a
cabina... Mistress Otterbourne. Mais uma vez o senhor teve que
agir prontamente, loucamente, mas era
a sua nica oportunidade! Ouvira Pennington falar do
revlver... Correu  cabina dele, apanhou o revlver,
ficou do lado de fora da cabina do doutor Bessner e
atirou antes que Mistress Otterbourne pudesse revelar
o seu nome...
 - No! - exclamou Rosalie. - No foi ele!
No foi.
 - Depois disto, fez a nica coisa que lhe era possvel
fazer. Deu a volta pela popa, e quando dei com o
senhor, fingiu que vinha em direco contrria. O senhor usara
luvas, e estas luvas estavam no seu bolso.
 - Diante de Deus juro que nada disso  verdade!
- exclamou Tim.
 Mas a voz trmula e hesitante no era nada convincente.
 Nisto, a exclamao de Rosalie surpreendeu-os a todos.
 - Claro que no  verdade! E Monsieur Poirot sabe-o bem.
Fala assim por algum motivo oculto.
Poirot fitou-a, sorrindo. Estendeu as mos, de palmas para
cima, como quem entrega os pontos.
 - Mademoiselle  inteligente de mais... Mas concordam que
foi engenhoso?
 - Com os diabos...
 Tim parecia furioso, mas Poirot conteve-o com um gesto.
 - As aparncias esto contra si, Mister Allerton, e
quero que no se esquea disto. Agora, vou dizer-lhe
algo mais agradvel. Ainda no examinei aquele tero na
sua cabina. Pode ser que, quando o fizer, no encontre
ali coisa alguma. E uma vez que Mademoiselle Rosalie
insiste em dizer que no viu ningum no tombadilho... 
eh, bien nada temos contra o senhor. O colar foi
tirado por uma cleptomanaca, que o devolveu. Est
numa caixa na mesinha ao lado da porta; se o senhor e
mademoiselle quiserem examin-lo...
 Tim ergueu-se e permaneceu um momento imvel.
Quando falou, as suas palavras soaram inadequadas,
mas pareceram satisfazer os ouvintes.
 - Obrigado. No precisaro de dar-me outra oportunidade.
 Abriu a porta para a rapariga passar, e levou a caixinha.
 Seguiram lado a lado pelo tombadilho. Tim abriu a
caixa, tirou de dentro o colar falso e atirou-o ao Nilo.
 - Pronto! Quando devolver a caixa a Poirot, o colar
verdadeiro estar dentro dela. Que idiota tenho sido!
 Rosalie disse em voz baixa:
 - Como foi que comeou?
 - Como comecei? Oh, no sei ao certo. Tdio...
preguia... esprito de aventura. Maneira muito mais
agradvel de passar o tempo que na priso de um escritrio.
H-de parecer-lhe srdido... mas tinha uma
certa atraco. Principalmente por causa do perigo.
 - Creio que compreendo.
 - Sim, mas voc nunca faria uma coisa dessas.
 Rosalie ficou pensativa alguns minutos, depois respondeu:
 - No; no faria.
 - Oh, minha querida... voc  to linda.. to linda! Porque
no quis dizer que me viu a noite passada?
 - Pensei que... poderiam suspeitar de si.
 - E suspeitou de mim?
 - No. No o achei capaz de matar algum.
 - Tem razo; no sou feito da massa forte dos assassinos.
Sou apenas um msero ladro.
 Ela tocou-lhe timidamente no brao.
 - No diga isso...
 Tim segurou com fora a mo de Rosalie, dizendo:
 - Minha querida, seria possvel... Sabe a que me
refiro?... Ou lanar-me-ia sempre em rosto...
 Ela replicou, sorrindo:
 - H coisas que tambm voc me poderia lanar
em rosto...
 - Rosalie, meu amor...
 Ela fez um gesto, detendo-o:
 - Mas... e Joana?
 - Joana?! Voc  como a mam! No ligo a mnima importncia
a Joana... Tem cara de cavalo e olhos
de ave de rapina... Uma criatura muito pouco atraente, enfim.
 Rosalie disse, aps uma pausa:
 - Sua me no precisa saber de nada.
 - No sei - replicou Tim, pensativo. - Creio
que lhe contarei. A mam  forte. Pode aguentar muita coisa.
Sim, creio que vou desfazer-lhe as iluses maternais a meu
respeito. Ficar to contente ao saber
que as minhas relaes com Joana eram puramente comerciais,
que me perdoar seja o que for!
 Tinham chegado  cabina de Mrs. Allerton. Tim
bateu  porta com firmeza. Mrs. Allerton apareceu.
 - Rosalie e eu... - comeou Tim.
 Fez uma pausa.
 - Oh, meus queridos... - exclamou Mrs. Allerton abraando
Rosalie. - Minha querida menina...
Eu tinha esperanas, mas Tim era to esquisito!..
Fingia que no gostava de si! Mas claro que no me enganou.
 Rosalie balbuciou:
 - A senhora foi sempre to boa para mim... to
boa... Desejei que...
 No pde continuar, apoiando, feliz e soluante, a
cabea no ombro de Mrs. Allerton.



CAPTULO 27

 Quando a porta se fechou sobre Tim e Rosalie,
Poirot voltou-se com ar penitente para Race. O coronel 
estava muito srio.
 - Consente no meu arranjo, no consente? - perguntou o
detective. -  um tanto irregular... Sei que
 irregular... mas prezo muito a felicidade das criaturas.
 - No parece prezar a minha! - queixou-se Race.
 - Aquela jeune fille... tenho um fraco por ela, e
vejo que est apaixonada. Ser um ptimo casamento.
Ela tem as qualidades fortes que lhe faltam a ele.
A me gosta de Rosalie... tudo to bem combinado!
 - Em resumo, o casamento foi arranjado pelos
deuses e por Hercule Poirot. S me resta tomar parte
na conspirao.
 - Mas, mon ami, eu disse-lhe que isto tudo no
passa de mera suposio da minha parte.
 Race no pde deixar de rir.
 - Est certo, est certo. No sou nenhum polcia,
graas a Deus! No duvido de que o rapaz ande direito 
daqui por diante. A rapariga  muito correcta
quanto a isso no h dvida. No; do que me queixo  da 
sua maneira de me tratar, a mim! Sou paciente, mas
existe um limite para essa pacincia. Voc sabe quem
cometeu os trs crimes neste navio, ou no sabe?
 - Sei.
 - Ento para qu toda esta lengalenga?
 - Acha que me estou a divertir com conjecturas?
E isso aborrece-o? Mas no  como pensa. Duma vez
fiz parte de uma expedio arqueolgica e ali aprendi
alguma coisa. Durante a escavao, quando saa alguma coisa da
terra, tiravam cuidadosamente tudo quanto estava em volta.
Primeiro a terra solta, raspando
aqui e ali com uma faca, at que o objecto aparecesse
limpo, isolado, pronto para ser fotografado sem elementos
estranhos a deform-lo.  o que tenho procurado fazer; afastar
os elementos estranhos para que
possamos ver a verdade, a verdade nua e crua.
 - Muito bem. Que venha ento essa verdade nua
e crua! No foi Pennington. No foi Allerton. No deve ter
sido Fleetwood. Para variar, diga-me quem foi.
 - Meu amigo,  justamente o que vou fazer.
 Ouviu-se uma pancada na porta. Race blasfemou
baixinho.
 Cornlia e o Dr. Bessner entraram. A rapariga parecia muito perturbada.
 - Oh, coronel Race! Miss Bowers acaba de me
contar a respeito da prima Marie... Levei um choque
horrvel! Miss Bowers disse que no podia mais suportar
sozinha a responsabilidade, que era melhor eu
saber, j que fao parte da famlia. A princpio, no
quis acreditar, mas o doutor Bessner tem sido muito bom...
 - Nada disso - protestou o mdico, modestamente.
 - Tem sido to amvel, explicando tudo, e como
a pessoa no tem culpa... Ele j teve casos de cleptomania na
sua clnica. E explicou-me que muitas vezes
 um caso agudo de neurose...
 Cornlia pronunciou a ltima palavra com profunda
reverncia. Como os outros nada dissessem, continuou:
 - Est implantado no subconsciente, s vezes por
causa de alguma coisa que aconteceu quando a pessoa
era criana. Ele tem curado muita gente, fazendo o doente pensar no passado, procurando lembrar-se que
coisa era essa...
 Cornlia vez uma pausa, respirou, e continuou:
 - Mas estou preocupadssima, com medo de que venham a descobrir. Seria horrvel, se chegassem a 
saber em
Nova Iorque! Imagine, os jornais publicariam a notcia... 
A prima Marie, a mam... nenhuma delas poderia andar 
de cabea erguida.
 Race suspirou:
 - Sim, senhor, pelo que vejo, isto aqui  a Casa
 dos Segredos.
 - Perdo, coronel Race?
 - Eu queria dizer que qualquer coisa menos grave
do que o assassnio est a ser ocultada.
 - Oh, que alvio! - exclamou Cornlia juntando
as mos. - Tenho andado to preocupada...
 - A senhora tem muito bom corao - disse Bessner, dando-lhe
uma pancadinha benevolente no ombro. E, voltando-se para os
outros: -  muito nobre e sensvel.
 - Oh, no. O senhor  que est a ser amvel.
 - Tem visto Mister Ferguson? - perguntou Poirot.
 Cornlia corou.
 - No, mas a prima Marie tem falado sobre ele.
 - Parece que o rapaz  nobre - observou Bessner. - Confesso
que no d essa impresso. As suas roupas so horrveis. Nem por sombras parece um rapaz de 
educao!
 - E qual  a sua opinio, mademoiselle?
 - Acho que  maluco, pura e simplesmente - declarou
Cornlia.
Poirot perguntou, voltando-se para o mdico:
 - Como vai o seu doente?
 - Ach, vai indo optimamente. Acabo de tranquilizar a pequena
Fraulein de Bellefort. Talvez no acreditem, mas encontrei-a
em estado de desespero, s porque o rapaz tinha um pouco de febre hoje  tarde! Nada mais natural.  
mesmo extraordinrio que a febre no tenha subido mais ainda. Ele  como alguns
dos nossos camponeses; tem um ptimo organismo.
Tenho-os visto gravemente feridos, no parecendo
sentir coisa alguma. O mesmo se d com Mister Doyle. O pulso
dele est normal, a temperatura apenas um
pouco mais elevada do que devia estar. Consegui acalmar os
receios da rapariga. Em todo o caso,  ridculo,
nicht wahr? Num momento, d um tiro ao sujeito, e
no momento seguinte tem medo que ele morra!
 Cornlia disse:
 - Ela ama-o apaixonadamente;  por isso.
 - Ach, mas no est certo! Se a senhora gostasse
de um homem, iria dar-lhe um tiro? No;  sensata de
mais para isso.
 - De qualquer maneira, no gosto de coisas que
fazem barulho! - exclamou infantilmente Cornlia.
 - Claro que no.  muito feminina...
 Race interrompeu a troca de amabilidades.
 - Se Simon est bem, no vejo motivo para no
reatarmos a nossa conversa de hoje  tarde. Estava a
falar-me de um telegrama...
 - Ah! Ah! Muito engraado - exclamou Bessner.
- Doyle falou-me do tal telegrama. Batatas, alcachofras...
Ach? Perdo?
 Race endireitara-se na cadeira, exclamando:
 - Meu Deus! Ento  ele! Richetti...
 Voltou-se para os outros trs, que o fitavam sem
nada compreender.
 - Um novo cdigo, usado na rebelio da frica
do Sul. Batatas significam metralhadoras; alcachofras,
explosivos poderosos, e assim por diante. Richetti 
to arquelogo como eu!  um perigoso agitador, um
homem que j matou vrias pessoas. Mistress Doyle
abriu o telegrama por engano, os senhores compreendem. Se
repetisse na minha frente o que lera, Richetti
estaria perdido!
 Race pareceu reflectir. E depois, voltando-se para
 Poirot:
 - Acertei?  Richetti o criminoso?
 -  o seu homem - declarou Poirot. - Sempre
 achei que havia qualquer coisa de esquisito nele. Era
 perfeito de mais no seu papel. S arquelogo, no uma
 criatura humana.
 Poirot fez uma pausa, e, como os outros nada dissessem,
continuou:
 - Mas no foi Richetti quem matou Linnet Doyle. H j algum
tempo que conheo o que chamo a primeira metade" do assassino. Agora conheo tambm a segunda 
metade". O quadro est completo.
 Mas compreendam que, embora saiba o que aconteceu, no tenho
provas. Intelectualmente, a soluo satisfaz-me. H apenas uma
esperana: confisso, por parte do assassino.
 Bessner ergueu cepticamente os ombros.
 - Ach! Mas isso seria um milagre.
 - No o creio. No nas circunstncias actuais.
 - Mas quem ? - exclamou Cornlia. - No vai dizer-nos?
 O olhar de Poirot foi de um para o outro. Race
sorria ironicamente; Bessner continuava cptico; Cornlia, de
lbios entreabertos fitava-o com expresso
profundamente interessada.
 Race mexeu-se na cadeira e exclamou:
 - Ento, vamos ver at que ponto chega a inteligncia de
Hercule Poirot!
 - Para comear, fui idiota, completamente idiota
- disse o detective. - O maior obstculo era o revlver, o
revlver de Jacqueline. Porque no ficara no local do crime? A
inteno do assassino era certamente
"crimin-la. Por que motivo levou a arma? Fui to idiota que
imaginei os mais fantsticos motivos. E o verdadeiro era muito
simples! O assassino levou o revlver porque precisava de lev-lo... porque no podia fazer outra coisa!



CAPTULO 28

 Poirot inclinou-se para Race e continuou:
 - Voc e eu, meu amigo, inicimos a nossa investigao com
uma ideia preconcebida. Achvamos que
o crime fora perpetrado num impulso de momento,
sem nenhum plano anterior. Algum desejava eliminar
Linnet Doyle e aproveitara a oportunidade de agir
num momento em que o crime seria certamente atribudo a
Jacqueline de Bellefort. Da se conclua que
essa pessoa ouvira a cena entre Jacqueline e Simon, e
se apoderara da arma quando os outros saram do salo.
 "Mas, meu amigo, se essa nossa ideia preconcebida
estivesse errada, ento todo o aspecto da questo ficava
alterado. E estava errada! O crime no fora cometido
impulsivamente. Ao contrrio, fora planeado, calculado
com muita preciso, tendo todos os pormenores sido
estudados de antemo, at mesmo quanto ao narctico
vertido aquela noite na garrafa de vinho de Hercule
Poirot! Tomo vinho; os meus companheiros de mesa
tomam: um, gua mineral; o outro, whiskey e soda. Nada mais
simples do que deitar uma dose de um narctico inofensivo no
meu vinho, uma vez que as garrafas ficaram na mesa todo o dia. Mas no achei isso provvel. O dia 
estivera quente, e eu sentia-me cansadssimo; no era de admirar que, contra o meu costume, eu tivesse 
dormido profundamente.
 "Compreendam-me: ainda estava sob a impresso
daquela ideia preconcebida. Se eu tivesse sido narcotizado,
ento o crime teria sido premeditado... Quero
 com isto dizer que, antes das sete e trinta, quando foi
 servido o jantar, o crime j fora planeado... E isto (sob
 o ponto de vista da ideia preconcebida) era absurdo.
 O primeiro obstculo  ideia preconcebida foi o facto
 de ter o revlver sido encontrado no Nilo. Para comear, se
as nossas dedues estivessem certas, o revlver
 nunca deveria ter sido atirado ao rio. E ainda mais..
 Poirot voltou-se para Bessner:
 - O senhor, doutor Bessner, examinou o corpo de
 Linnet Doyle. Lembra-se que o ferimento apresentava
 sinais de chamuscado, significando que o tiro fora dado com
a arma rente  cabea.
 Bessner inclinou a cabea, dizendo:
 - Sim,  exacto.
 - Mas o revlver foi encontrado dentro de uma
charpe de veludo, podendo-se verificar que a bala perfurara
as dobras do tecido, parecendo que a inteno
do criminoso fora abafar o som. Mas se o tiro tivesse sido
dado atravs do veludo, no haveria sinais chamuscados na pele
da vitima. E, portanto, o tiro dado atravs
da charpe no podia ser o tiro que matara Linnet Doyle.
Poderia ter sido o outro, de Jacqueline contra Simon?
No, pois quanto a isso havia testemunhas. Parecia,
portanto, que houvera um terceiro tiro, sobre o qual
nada sabamos. Mas duas balas somente haviam sido picadas.
 "Estava ali uma curiosa circunstncia, difcil de ser
explicada. O segundo ponto interessante foram os dois
frascos do verniz, que encontrei na cabina de Linnet.
Agora, raramente as senhoras trocam a cor do verniz
das unhas, e eu notei que as unhas de Linnet tinham
sempre a tonalidade chamada "Cardinal", de um
vermelho-escuro. O outro frasco estava marcado "Rose",
que  de um rosa-plido. Mas as poucas gotas no fundo do
frasco no eram cor-de-rosa, mas de um vermelho-vivo. A
curiosidade fez que eu destapasse o frasco
e cheirasse o contedo. Em vez do acentuado perfume
de pra, havia ali um cheiro de vinagre! Isto queria dizer que
as duas gotas l no fundo deviam ser de tinta
vermelha! Ora: no havia motivo para que Mistress Doyle no
tivesse tinta vermelha na cabina, mas seria mais
natural que a guardasse num frasco de tinta e no num
frasco de verniz. Estava ali um elo com o leno manchado de
rosa, encontrado  volta do revlver. Tinta
vermelha ao contacto da gua desaparece com facilidade, mas
sempre deixa um tom rosado.
 "Talvez que s com estes indcios eu devesse ter
chegado  verdadeira concluso, mas houve um acontecimento que
acabou com todas as dvidas. Louise
Bourget foi assassinada de maneira que a indicava claramente
como chantagista. Segurava o canto de uma
nota de mil francos... Lembrei-me tambm das significativas
palavras que me dissera naquela manh...
Ouam cuidadosamente, pois aqui est a chave do problema.
Quando lhe perguntei se vira alguma coisa na
noite anterior, ela deu-me uma resposta muito curiosa:
"Claro que se no tivesse sentido sono, se tivesse subido as
escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro,
entrar ou sair da cabina de madame"... Agora, que  que
isto significa?
 Bessner, que parecia intelectualmente interessado
no assunto, sugeriu:
 - Significava que subira as escadas.
 - No, no; o senhor no compreende aonde quero chegar.
Porque dizia ela isto a ns?
 - Para insinuar...
 - Mas para que insinuar a ns? Se sabia quem era
o assassino, poderia ter agido de duas maneiras: dizer-nos a
verdade, ou guardar silncio e explorar o criminoso! Mas no
fez nem uma nem outra coisa. No disse prontamente: "No vi
ningum. Eu estava a dormir." Nem to-pouco: ""Vi algum, Fulano-de-tal. Porque se serviu daquela frase 
complicada? Parbleu, s pode haver uma razo! Ela estava a insinuar para o
assassino, e, portanto, o assassino devia estar presente na
ocasio. Mas, alm de ns dois, Race e eu, s estavam
ali duas pessoas: Simon Doyle e o senhor, doutor Bessner.
 O mdico deu um salto da cadeira.
 - Ach! Que est dizendo? Est a acusar-me? Mas
 isso  ridculo, inconcebvel!
 Poirot disse bruscamente:
 - Fique quieto. Estou a dizer-lhe quais as minhas
 reflexes, na ocasio. Sejamos impessoais.
 - Ele no est a acus-lo - disse Cornlia em
 tom conciliador.
 Poirot continuou vivamente:
 - E, portanto, s restavam os outros dois: Simon
 Doyle e Bessner. Mas que razo tinha Bessner para
 matar Linnet Doyle? Nenhuma, a julgar pelas aparncias.
Simon Doyle, ento? Mas isso era impossvel!
 Havia muitas testemunhas de que ele no sara do salo antes
do conflito. Depois, fora ferido; ter-lhe-ia
sido materialmente impossvel sair dali. Tinha eu provas
disso? Sim. Havia o depoimento de Miss Robson,
de Jim Fanthorp, de Jacqueline de Bellefort, quanto 
primeira parte; a declarao de pessoas competentes
como Miss Bowers e o doutor Bessner, quanto  segunda. No
havia dvida possvel. E, portanto, Bessner devia ser o
culpado. Em favor dessa teoria havia o
facto da criada ter sido apunhalada com um instrumento
cirrgico. Mas, por outro lado, fora o prprio Bessner quem
chamara a ateno para esse ponto!
 "E ento, meus amigos, um outro facto indiscutvel se
apresentou ante os meus olhos. A insinuao de
Louise Bourget no poderia ter sido feita a Bessner,
pois poderia ter falado com ele em particular a qualquer
momento que o desejasse. Tais palavras s poderiam ter
sido dirigidas a uma pessoa: Simon Doyle! Simon estava ferido,
tinha o mdico constantemente a seu lado,
estava na cabina desse mdico... Ela arriscou-se a dirigir-lhe
aquelas palavras ambguas, com medo de no
ter outra oportunidade. Lembro-me de que se voltou
para ele, exclamando: "Monsieur, por favor... Compreende a
minha situao? Que posso eu dizer?" E a
resposta dele: "Minha cara menina, no seja tola. Ningum
pensa que viu ou ouviu coisa alguma. No se preocupe. Cuidarei
de si. Ningum a acusa". Era esta a garantia que ela desejava obter!
 Bessner soltou um grunhido imenso.
 - Ach! Que tolice! Acha que um homem com a
perna fracturada pode andar pelo navio a matar os
passageiros? Garanto-lhe que teria sido impossvel a
Simon Doyle sair da cabina!
 Poirot disse suavemente:
 - Sei disso. Tem toda a razo. Era impossvel...
mas verdadeiro! Logicamente, as palavras de Louise s
poderiam ter tido um sentido. E, portanto, voltei atrs,
fazendo uma reviso do caso, estudando os acontecimentos  luz
deste novo conhecimento. Teria sido impossvel que, antes da
questo, Simon tivesse sado do
salo sem que pessoa alguma lhe notasse a ausncia?
No achei a ideia admissvel. O testemunho de pessoas
competentes como Bessner e Miss Bowers poderia ser
desprezado? Tambm no. Mas lembrei-me de que
houvera um intervalo... Simon Doyle ficara sozinho no
salo pelo espao de cinco minutos, e o exame competente de
Bessner fora feito depois deste perodo. Para
este perodo tnhamos apenas o testemunho aparente,
visual; e, aquilo que parecera provvel, j no era certo. Que
 que fora realmente visto, deixando de lado as
suposies?
 Miss Robson vira Miss de Bellefort atirar, vira Simon cair
na cadeira, vira-o apertar contra a perna um
leno que gradualmente se fora tingindo de vermelho.
Que vira ou ouvira Mister Fanthorp? Ouvira um tiro,
encontrara Doyle com um leno manchado de vermelho  volta da
perna. Que acontecera depois? Doyle
mostrara-se muito insistente, ao pedir que levassem
dali Miss de Bellefort, dizendo que no a deixassem
sozinha. Depois disso sugerira a Fanthorp que fosse
chamar o mdico.
 "E, portanto, Miss Robson e Miss de Bellefort e
Mister Fanthorp saram dali, e nos seguintes cinco minutos
estiveram ocupados no tombadilho a bombordo. As
cabinas de Miss Bowers, do mdico e de Miss de Bellefort
ficam todas daquele lado. Simon Doyle s precisava de dois
minutos... Apanha o revlver, tira os sapatos, corre como
uma lebre pelo tombadilho, entra na cabina da esposa, 
que est a dormir, d-lhe um tiro na cabea, pe no 
lavatrio o frasco com a tinta vermelha
( necessrio que no seja encontrado em seu poder!)
volta a correr para o salo, apanha a charpe de Miss
Van Schuyler (que anteriormente escondera no vo da
poltrona) enrola-lhe o revlver e d um tiro na prpria
perna... A cadeira onde cai (com verdadeira dor, desta
vez) fica perto da janela. Ele abre a janela e atira o
revlver ao Nilo, envolto na charpe e no leno revelador...
 - Impossvel! - disse Race.
 - No, meu amigo, nada impossvel. Lembre-se
do depoimento de Tim Allerton. Ele ouviu um estalo
e em seguida o rudo de um baque. E ouviu mais alguma coisa...
passos de quem corria, em frente da sua
cabina. Mas ningum devia andar a correr no tombadilho
a estibordo. Que ouvira Mister Alberton? Os passos de
Simon Doyle, correndo s de meias.
 - Ainda acho impossvel - declarou Race. - Ningum poderia
ter agido com essa velocidade. Ainda mais um sujeito de
raciocnio lento como Doyle!
 - Mas muito gil, fisicamente!
 - Quanto a isso, de acordo. Mas no poderia ter
planeado tudo sozinho com todos esses pormenores.
 - Mas no planeou sozinho, meu amigo. Nisso 
que estvamos enganados. Parecia um crime cometido
num impulso de momento, mas no era um crime nesse sentido!
Pelo contrrio. Foi muito inteligentemente
planeado, e estudado minuciosamente. No era possvel que
Simon tivesse por acaso um frasco de tinta no
bolso. No: foi propositadamente. No foi por acaso que
Jacqueline deu um pontap no revlver, mandando-o
para baixo da poltrona, de maneira a ficar ali esquecido at
mais tarde.
 - Jacqueline?
 - Certamente. A segunda metade do assassino.
Que foi que deu a Simon o seu libi? O tiro dado por
Jacqueline. Que foi que deu a Jacqueline o seu libi?
A insistncia de Simon, que fez com que a enfermeira
passasse a noite toda ao lado dela. E, portanto, encontramos
nos dois as qualidades necessrias: em Jacqueline, a
inteligncia fria e calculista; em Simon, o homem de aco,
que cometeria o crime com incrvel rapidez e preciso.
 Poirot fez uma pausa e continuou:
 - Analisem o caso sob o ponto de vista certo, e
todas as dvidas se dissiparo. Simon e Jacqueline tinham sido
apaixonados um pelo outro. Admitam a hiptese de ainda se
amarem e tudo fica esclarecido. Simon liquida a esposa rica,
herda o seu dinheiro e mais tarde casar com a antiga namorada. Muito inteligente! A perseguio a 
Mistress Doyle, por parte de Jacqueline, fazia parte do plano. A suposta raiva de Simon. E no entanto... 
havia falhas. Ele queixara-se certa vez das mulheres autoritrias, exprimindo-se com sincera
amargura. Eu devia ter percebido que pensava na sua
mulher, no em Jacqueline. Depois, a sua atitude para
com a esposa, em pblico. Um tpico ingls, como Simon Doyle,
em geral no  demonstrativo. Simon no
era verdadeiramente um bom actor. Exagerou a atitude
apaixonada. E aquela conversa que tive com Jacqueline, quando
ela quis que eu pensasse que algum
estivera  escuta!... Eu no vi ningum. E no havia
ningum! Mas isto seria mais tarde um pormenor
cheio de interesse. E duma vez, aqui no navio, julguei
ter ouvido uma conversa entre Simon e Linnet. Dizia
ele: "Agora temos que andar para diante." Era Simon,
sim, mas dirigindo-se a Jacqueline.
 "O drama final foi perfeitamente calculado. O narctico
vertido no meu vinho, para evitar que lhes atrapalhasse os
planos, a escolha de Miss Robson como
testemunha, o preldio da cena no salo, o histerismo
de Miss de Bellefort, os seus remorsos exagerados. Ela
fez bastante barulho, para evitar que o tiro fosse ouvido.
En vrit, foi uma ideia muito inteligente! Jacqueline declara
ter atirado sobre Doyle, Miss Robson confirma as suas
palavras, Fanthorp diz a mesma coisa...
 E, quando o mdico examina Doyle, verifica que realmente
ele est ferido! No pode haver dvida! Ambos
conseguiram um perfeito libi,  custa, naturalmente,
de certo risco e sofrimento para Simon. Mas era necessrio
que o sofrimento de facto o inutilizasse durante
algum tempo.
 "Mas houve um imprevisto! Louise Bourget no tinha sono
aquela noite. Subiu as escadas e viu Simon
correr at  cabina da esposa e sair novamente dali. Isto
bastou para que tirasse as suas concluses no dia
seguinte. E, portanto, procurou gananciosamente extorquir
dinheiro, assinando assim a sua sentena de morte.
 - Mas Mister Doyle no poderia ter matado Louise - exclamou
Cornlia.
 - No. Este crime foi cometido pela outra parceira. Assim
que teve oportunidade, Simon pediu para
falar com Jacqueline. Chegou mesmo a fazer-me sinal
para que os deixasse ss. Falou-lhe do novo perigo.
Precisavam de agir sem demora! Ele sabe onde Bessner guarda os
seus instrumentos. Depois do crime, o
bisturi  posto de novo no seu lugar; um pouco tarde,
um tanto ofegante, Jacqueline entra no salo, para almoar.
 "Mas nem assim passou o perigo. Mistress Otterbourne viu
Jacqueline entrar na cabina de Louise Bourget. E vem a correr
contar a Simon a novidade. Jacqueline  a assassina.
Lembra-se, Race, como Simon
gritou com a pobre mulher? Nervos, pensmos ns.
Mas a porta ficara aberta e ele procurava avisar a cmplice.
Ela ouviu-o e agiu com a rapidez do relmpago.
Lembrou-se do revlver que Pennington mencionara
no salo. Foi busc-lo, aproximou-se da porta, ficou 
escuta e no momento crtico atirou. Gabara-se certa
vez de ser boa atiradora, e deu provas disso.
 "Depois do terceiro crime, eu disse que o assassino
poderia ter tomado trs caminhos. Poderia ter ido para
a popa (e neste caso o criminoso era Tim) poderia ter
pulado para baixo (pouco provvel) ou ter entrado em
alguma cabina. A de Jacqueline era a segunda depois
da do doutor Bessner. Bastava-lhe atirar o revlver para o
cho e entrar na cabina, desmanchar o cabelo e
atirar-se para cima da cama. Arriscado, mas a nica
coisa possvel.
 Houve alguns segundos de silncio. Depois Race
perguntou:
 - Que aconteceu com a primeira bala, atirada por
Jacqueline?
 - Creio que entrou na mesa. H ali um buraco recentemente
feito. Acho que Doyle teve tempo de a tirar com um canivete,
atirando-a pela janela. Tinha,
naturalmente, uma cpsula extra, para que julgssemos que
somente duas balas haviam sido picadas.
 -  horrvel - suspirou Cornlia. - Simplesmente horrvel.
Pensaram em tudo!
 Poirot ficou em silncio. Mas no era um silncio
modesto. Os seus olhos pareciam dizer: "No, nisso
est enganada. No contaram com Hercule Poirot!"
 Disse em voz alta:
 - E agora, doutor Bessner, vamos dizer umas palavrinhas ao
seu doente...



CAPTULO 29

 Mais tarde, Poirot bateu  porta de uma cabina.
 Uma voz disse "Entre", e ele entrou.
 Jacqueline estava sentada numa cadeira. Noutra,
contra a parede, estava a robusta criada de bordo.
Jacqueline olhou, pensativa, para Poirot. Com um
gesto, indicou a criada e perguntou:
 - No podemos ficar a ss?
 Ele inclinou a cabea e a mulher retirou-se. Poirot
puxou a cadeira desocupada para perto de Jacqueline.
 Nenhum dos dois disse coisa alguma. O detective parecia
muito infeliz.
 Finalmente, a rapariga resolveu quebrar o silncio.
 - Ento est tudo acabado! O senhor foi inteligente de mais
para ns, Monsieur Poirot.
 O detective suspirou, estendeu as mos para cima
sem nada encontrar para dizer.
- Apesar de tudo, no sei como poderia ter provado -
continuou Jacqueline. - Acertou, naturalmente, mas se
tivssemos continuado com o bluff...
 - De nenhuma outra forma, mademoiselle, poderia
ter acontecido.
 - Isto pode satisfazer a inteligncia, mas no creio
que tivesse convencido os jurados. Oh, bom, no h
remdio. O senhor colheu Simon de surpresa, e ele
entregou os pontos, sem lutar. Perdeu a cabea, coitado, e
confessou tudo.
 Minutos depois, Jacqueline acrescentou:
 - Ele  mau jogador.
 - Mas a senhora sabe perder.
 Ela riu subitamente - uma gargalhada estranha,
alegre, desafiadora.
 - Oh, sim, sei perder.
 E impulsivamente, fitando o detective:
 - No se aborrea tanto, Monsieur Poirot! Por
minha causa,  o que quero dizer. O senhor importa-se, no 
verdade?
 - Sim, mademoiselle.
 - Mas nunca lhe ocorreria deixar-me escapar?
 - Nunca - respondeu Poirot serenamente.
 Ela inclinou a cabea, concordando.
 - De nada vale ser sentimental. No poderia recomear... J
no sou pessoa em quem se possa ter confiana. Eu mesma o sinto...
 Continuou, como se falasse consigo prpria:
 -  to fcil matar... E a gente comea a achar
 que no tem importncia... Que  s a nossa felicidade
que interessa! Isto  perigoso.
 Fez uma pausa, e depois, sorrindo:
 - Sabe, o senhor fez o possvel por mim. Aquela
noite, em Assuo, disse que no abrisse ao mal as portas do
corao... J desconfiava das minhas intenes?
 Poirot abanou a cabea, dizendo:
 - Eu s sabia que o que lhe dissera era verdade.
 - Era verdade, sim. Sabe, eu poderia ter ento
evitado... Quase cheguei a desistir. Poderia ter dito a
Simon que no queria continuar... Mas a, talvez que...
 Interrompeu-se, e depois, impulsivamente:
 - Gostaria de saber como foi tudo, desde o princpio?
 - Se desejar contar-me, mademoiselle.
 - Sim, creio que sim. Foi realmente muito simples. Simon e
eu amvamo-nos...
 Disse isto em voz natural; e, no entanto, sob o tom
despreocupado havia reminiscncias...
 Poirot disse simplesmente:
 - E o amor bastaria para a senhora, mas no para ele.
 - Tem razo, at certo ponto. Mas o senhor no
conhece Simon. Desejou sempre ser rico. Gosta de tudo quanto o
dinheiro proporciona: cavalos, iates, desporto, as coisas boas
da vida. E nunca pde obt-las...
Simon  muito, muito simples. Quando deseja uma
coisa,  como uma criana... tem que consegui-la.
Apesar disso, nunca procurou casar-se com alguma
mulher rica e horrvel. No  desse tipo. Depois,
conhecemo-nos, e isto mais ou menos resolveu tudo. S
o que no sabamos era quando nos poderamos casar.
Simon tivera um bom emprego, mas perdera-o, at
certo ponto por sua prpria culpa. Tentara ser esperto
de mais e fora logo descoberto. No creio que tivesse
realmente tido inteno de ser desonesto. Pensou apenas que
era o recurso normal de que a gente da cidade
se servia.
 Os olhos de Poirot brilharam, mas no fez comentrio algum.
 - Estvamos naquela situao, quando me lembrei de Linnet e
da sua nova propriedade. Fui procur-la. Eu gostava muito da
Linnet; gostava, Monsieur Poirot. Era a minha melhor amiga e nunca pensei que coisa alguma se metesse 
entre ns. Apenas achei que era uma sorte ela ser rica. Se desse o emprego a 
Simon, a nossa vida seria outra. Ela foi muito boazinha,
dizendo-me que trouxesse Simon para que o conhecesse. Foi
justamente na poca em que o senhor nos viu em Chez Ma Tante. Tnhamos procurado divertir-nos aquela 
noite, embora no estivssemos em condies de fazer extravagncias.
 Fez uma pausa, suspirou e continuou:
 - Monsieur Poirot, o que lhe vou dizer  a pura
verdade. As coisas no mudam pelo facto de Linnet
ter morrido.  por isso que nem agora tenho pena dela. Fez
tudo para me roubar Simon... Juro que  verdade. No creio que
ela tenha hesitado um minuto.
 Eu era sua amiga, mas isto no lhe fez doer a conscincia.
Atirou-se a Simon de uma maneira brbara...
 " E Simon no lhe deu ateno. Eu falei-lhe sobre
deslumbramento", Monsieur Poirot, mas naturalmente fiz isso
para o despistar. Simon no queria saber de Linnet. Achava-a
bonita, mas muito autoritria, e ele detesta as mulheres desse
gnero. O interesse de Linnet constrangia-o horrivelmente. Mas, naturalmente, gostava do dinheiro dela...
 "Claro que percebi isso... E disse a Simon que
talvez fosse prefervel ele romper comigo para poder casar-se
com Linnet. Mas ele riu-se da minha
sugesto. Declarou que, com ou sem dinheiro, devia
ser um inferno ser marido de uma mulher daquelas.
Disse que ter dinheiro, na sua opinio, era ele ter dinheiro,
e no estar casado com uma mulher que guardasse a chave do
cofre. "Eu seria uma espcie de prncipe consorte",
acrescentou. Disse tambm que no
desejava outra mulher a no ser eu...
 "Creio que sei exactamente quando a ideia lhe
ocorreu pela primeira vez. Disse-me: "Se eu tivesse
um pouco de sorte, casar-me-ia com ela, e ela morreria
dentro de um ano, deixando-me os cobres!" Ao dizer
isto, uma estranha expresso luziu no seu olhar. Sim,
foi quando teve essa ideia pela primeira vez...
 "Falou sobre isso muitas vezes, dizendo sempre:
 "Que sorte se Linnet morresse!"
 "Protestei energicamente, e durante algum tempo
Simon no voltou ao assunto. Mas certo dia encontrei-o a ler
qualquer coisa sobre arsnico... Acusei-o e ele
deu uma gargalhada, dizendo: "Quem no arrisca, no
petisca. Nunca terei outra oportunidade de pr a mo
em tanto dinheiro."
 "Passado algum tempo, percebi que estava resolvido. Fiquei
apavorada, simplesmente apavorada. Porque, sabe, compreendi
que ele nunca conseguiria sair-se bem.  to ingnuo... No
tem imaginao nenhuma. Com ele, nada de subtilezas... Provavelmente, daria a Linnet uma boa dose de 
arsnico e esperaria que o mdico declarasse que ela morrera de
gastrite. Supe que as coisas saem sempre  medida
dos nossos desejos.
 "E, portanto, tive que intervir, para tomar conta dele...
 Jacqueline disse isto muito simplesmente, de boa-f. Poirot
no duvidou que o motivo fosse exactamente esse que ela
alegava. Pessoalmente, no cobiara o
dinheiro de Linnet. Mas amava Simon, com um amor
que ia alm da razo, da justia e da piedade.
 A rapariga continuou:
 - Reflecti muito, procurando um plano que desse
resultado. Achei que a base devia ser uma espcie de
duplo libi. Sabe como... Se Simon e eu pudssemos depor um contra o outro, mas um depoimento que 
justamente
nos exonerasse... Ser-me-ia fcil fingir que o
odiava. Nada mais natural, naquelas circunstncias.
 Depois, quando Linnet fosse assassinada, com certeza
suspeitariam de mim, de modo que era prefervel que
suspeitassem desde o princpio. Combinmos os pormenores,
um a um. Eu fazia questo de que, se algum
dos pormenores falhasse, tivesse eu que pagar, e no
Simon. Mas ele estava preocupado comigo...
 "A nica parte que me agradou foi saber que eu
no teria que cometer o crime. Eu no o poderia ter
feito! Ir de mansinho, a sangue-frio, enquanto ela estivesse
a dormir!... O senhor sabe, eu no lhe perdoara
 Poderia mat-la frente a frente, mas nunca de outra  maneira...
 "Estudmos tudo cuidadosamente. Mesmo assim,
Simon foi escrever aquela letra J na parede, ideia tola
e melodramtica! Exactamente a ideia que lhe ocorreria! Mas
deu tudo certo.
 Poirot inclinou a cabea.
 - Tem razo. No foi culpa sua, se Louise Bourget no sentiu
sono aquela noite... Mas, depois, mademoiselle?
 Ela fitou-o nos olhos e disse:
 - Tem razo...  horrvel, no ? No posso acreditar que eu
tenha feito aquilo! Compreendo agora o
que o senhor queria dizer com "abrir ao mal as portas
do corao". O senhor sabe perfeitamente o que aconteceu.
Louise fez Simon compreender que o vira. Ele
pediu que me chamassem... Assim que nos vimos ss
contou-me tudo, dizendo o que eu devia fazer. No fiquei
horrorizada. Estava com medo... com um medo
incrvel;  esse o mal que o crime faz a uma pessoa...
Simon e eu no corramos perigo, a no ser por causa
daquela miservel francezinha chantagista! Levei-lhe
todo o dinheiro de que dispnhamos. Fingi rastejar...
E ento, quando ela contava o dinheiro... matei-a! Foi
muito fcil. Por isso  que  to horrorosamente
assustador... to fcil, to fcil!..
 "Mas nem assim estvamos salvos. Mistress Otterbourne
vira-me. Veio, triunfante, pelo tombadilho, 
procura do coronel Race. No tive tempo para reflectir. Agi
com a rapidez do relmpago. Foi muito excitante. Eu sabia que
naquela ocasio era arriscadssimo
e por esse motivo foi ainda mais interessante!..
Jacqueline ficou de novo em silncio. E depois:
 - Lembra-se que veio depois  minha cabina?
 Disse-me que no sabia porque tinha vindo. Eu estava
apavorada, infeliz... Pensei que Simon fosse morrer.
 - E eu... desejei do corao que isso acontecesse
 - disse Poirot.
 Jacqueline inclinou a cabea.
 - Sim, teria sido melhor para ele.
 - No foi isso que eu quis dizer.
 Jacqueline fitou o rosto severo  sua frente e murmurou baixinho:
 - No se importe tanto por minha causa, Monsieur Poirot. Se
tivssemos vencido, eu teria sido muito feliz, e aproveitado
a vida, e com certeza nunca me arrependeria. Mas, como no foi assim... Bom, a gente tem de aguentar as 
consequncias.
 Minutos depois, acrescentou:
 - Com certeza a criada fica aqui para me vigiar,
para que eu no me enforque, ou engula alguma plula
de cido prssico, como qualquer personagem de romance. No
precisa de ter medo. No farei nada disso.
Ser mais fcil para Simon, se eu estiver a seu lado.
 Poirot ergueu-se. Jacqueline seguiu-lhe o exemplo
e exclamou, sorrindo:
 - Lembra-se quando lhe disse que eu tinha que
seguir a minha estrela? O senhor achou que talvez fosse uma
estrela falsa. E eu respondi: "Esta estrela 
muito m, senhor! Esta estrela cai..."
 Quando Poirot passou para o tombadilho, a gargalhada de
Jacqueline ecoava-lhe ainda nos ouvidos.



CAPTULO 30

 Chegaram a Shelll de madrugada. Os sombrios
rochedos desciam at ao rio.
 - Quel pays sauvage - murmurou Poirot.
 - Bom, cumprimos o nosso dever - disse Race.
 - Tomei providncias para que Richetti seja levado
 para terra em primeiro lugar. Felizmente
que o apanhmos.  um homem manhoso... isso posso-lhe
garantir. Escapou-nos dezenas de vezes.
 - No foi isso exactamente - replicou Poirot. Este tipo
infantil de criminoso  geralmente muito pretencioso. Uma picada na bola de gs da sua vaidade, e a bola 
esvazia-se logo! Ficam murchos como qualquer criana.
 Como Poirot nada dissesse, Race continuou:
 - Precisamos arranjar uma maca para Doyle.
  extraordinrio o msero estado em que ficou de repente.
 - Ele merece a forca - disse Race. -  um sujeito frio e sem
escrpulos. Tenho pena da rapariga...
 mas, quanto a isso, nada podemos fazer.
 - Dizem que o amor justia tudo mas no ,
verdade. Mulheres que amam como Jacqueline so
perigosas. Foi o que pensei, quando a vi. "Ela ama de
mais, esta pequena!" E era verdade. Cornlia Robson aproximou-se.
 - Estamos quase a chegar.
Acrescentou silncio um ou dois minutos, depois...
 - Estive com ela.
 - Com Miss de Bellefort?
 - Sim, tive pena dela, acompanhada apenas com a
criada. Mas creio que a prima Marie ficou muito zangada.
 Com expresso furiosa no olhar Miss Van Schuyler vinha lentamente pelo tombadilho.
 - Cornlia, voc comportou-se muito mal. Vou
mand-la directamente para a Amrica.
 - Sinto muito, prima Marie, mas no vou para a
Amrica. Vou casar-me.
 - Ento, finalmente teve juzo - disse a velha, secamente.
 Ferguson aproximou-se neste momento.
 - Cornlia, que est a dizer? No pode ser verdade!
 -  verdade, sim - declarou Cornlia. - Vou
casar com o doutor Bessner. Pediu a minha mo ontem  noite.
 - E porque  que vai casar com ele? - perguntou
Ferguson, furioso. - S porque  rico?
 - No, senhor! - replicou a rapariga indignada.
 - Porque gosto dele.  bom, e muito culto. E eu
sempre me interessei pela medicina, e pelos doentes, e
vou ter uma vida interessantssima ao lado dele!
 - Quer dizer que prefere casar com aquele velho
insuportvel a casar-se comigo? - perguntou Ferguson com ar
incrdulo.
 - Prefiro, sim! Voc no  de confiana! Ningum
teria sossego vivendo consigo. E ele no  velho! Ainda no
tem cinquenta anos.
 - Tem uma barriguinha redonda - disse Ferguson com maldade.
 - Bom, e eu tenho os ombros abaulados - replicou Cornlia. -
O fsico no tem importncia. Ele
disse que posso ajud-lo na clnica e que vai ensinar-me muita
coisa a respeito de neuroses.
 Depois de Cornlia sair, Ferguson dirigiu-se a
Poirot:
 - Acha que ela fala srio?
 - Acho.
 - Prefere aquele velho aborrecido a mim?
 - Sem dvida alguma.
 - A pequena est maluca! - declarou Ferguson.
 Os olhos de Poirot brilharam.
 -  uma mulher original. Provavelmente a primeira que o
senhor conhece.
 O navio aproximava-se do cais. Fora estendido um
cordo  frente dos passageiros. Estes tinham sido
prevenidos de deviam esperar, antes de desembarcar.
 De rosto sombrio e olhar venenoso, Richetti des ceu para
terra, entre dois maquinistas.
 Depois dum pequeno intervalo, trouxeram uma
maca. Simon Doyle foi levado at ao passadio.
 Parecia outro homem - covarde, amedrontado,
tendo-lhe desaparecido do rosto a despreocupao.
 Logo em seguida vinha Jacqueline, ao lado da
criada.
 Estava plida, mas fora disso parecia a mesma de
sempre. Aproximou-se da maca e disse:
 - Ol, Simon.
 Ele ergueu vivamente o olhar; A expresso infantil
pareceu voltar-lhe ao rosto por um momento.
 - Estraguei tudo - disse ele. - Perdi a cabea
e confessei! Perdoe-me, Jacqueline; a culpa foi toda
minha.
 Ela sorriu docemente.
 - No tem importncia, Simon. Arriscmos e
perdemos. Nada mais do que isso.
 Os homens pegaram de novo na maca.
 Jacqueline baixou-se e arranjou o lao do sapato.
Depois a mo subiu at acima da meia e ela endireitou-se,
segurando qualquer coisa...
 Ouviu-se um estampido: "Bum!"
 Simon Doyle fez um movimento convulsivo, imobilizando-se em
seguida.
 Jacqueline inclinou a cabea. Ficou um instante de
revlver na mo, sorrindo para Poirot.
 E ento, no momento em que Race pulou, ela voltou o revlver
contra o peito e apertou o gatilho.
 Caiu vagarosamente no cho...
 Race berrou:
 - Com os diabos, onde foi ela arranjar esse revlver
 Poirot sentiu uma presso no brao. Mrs. Allerton
perguntou baixinho:
 - O senhor... sabia?
 - Jacqueline tinha dois desses revlveres - explicou o
detective. - Fiquei certo disso, quando me contaram que 
haviam encontrado um na bolsa de Rosalie, no dia
em que os passageiros foram revistados.
Mais tarde, Jackie foi  cabina de Rosalie e apanhou
de novo o revlver, distraindo a ateno da outra sob o
pretexto de uma comparao de btons. Como Jacqueline e a sua
cabina tinham sido revistadas ontem, ningum achou necessrio
fazer hoje o mesmo.
 Mrs. Allerton perguntou:
 - O senhor queria que ela tivesse este fim?
 - Sim; sem dvida nenhuma. Mas Jacqueline no
o quis sozinha. Por isso, Simon Doyle teve uma morte
mais suave do que merecia.
 Mrs. Allerton murmurou, estremecendo ligeiramente:
 - O amor  s vezes uma coisa terrvel.
 -  por isso que muitos dos grandes romances de
amor so tragdias.
 O olhar de Mrs. Allerton descansou sobre Tim e
Rosalie. Ela exclamou, com sbita veemncia:
 - Mas, graas a Deus, ainda existe felicidade no
mundo!
 - Como bem o disse, madame, graas a Deus!
 Mais tarde, os corpos de Louise Bourget e Mrs.
Otterbourne foram levados para terra.
 Em seguida o de Linnet Doyle. Minutos depois, o
telgrafo comeou a funcionar para todo o mundo, 
comunicando ao pblico que Linnet Doyle, ne Linnet
Ridgeway, a clebre, a bela, a riqussima Linnet Doyle,
morrera...
 Sir George Wode leu a notcia no seu clube, em
Londres; Sterndale Rockford, em Nova Iorque; Joana
Southwood, na Sua. E o crime foi tambm discutido
no bar Three Crowns, em Malton-under-Wode.
 E o amigo de Mr. Burnaby, o magricela, disse:
 - Bom, no parecia justo, ela ter tudo quanto
queria.
 Mr. Burnaby replicou, com muito bom senso:
 - Em todo o caso, no parece que tenha aproveitado muito,
coitadita.
 Mas passado pouco tempo pararam de comentar o
facto, e discutiram o Grande Prmio e o provvel vencedor.
Pois, como dizia Mr. Ferguson, naquele mesmo momento, em Lxor, no  o passado que interessa mas 
sim o futuro.

Fim
